terça-feira, 20 de novembro de 2012

 
 
TCHI KONG
 
 
Vi hoje publicado no mural de uma amiga do Facebook, uma frase que me chamou a atenção: "É extraordinária a quantidade de barulhos que há dentro do nosso silêncio!", de António Lobo Antunes. Confesso que, apesar de ser uma leitora (muitas vezes) compulsiva, nunca li nada deste autor, a não ser um livro que é uma compilação das cartas de amor que escreveu à sua primeira mulher, aquando da sua comissão de serviço na guerra colonial (D'este viver aqui neste papel descrito, Edições D. Quixote, 2005). Fiquei "apaixonada" pelo autor, pelo estilo que imprimia às suas "escritas de amor" pois vi um jovem recem-casado, médico, vibrante e emotivo que tinha, pela sua mulher, um amor desmedido, dizendo-lhe, "gosto tudo de ti", quando queria dizer que a amava. Os relatos sofridos da guerra e da gestão da distância deliciaram-me (sou uma romântica, pois então...), retratando situações verídicas, o que sempre me encantou, mas, inexplicavelmente, ou não, não me atraíu mais nada do autor que inicio a ler e desisto, porque não "cola"... (deixo isto em "aberto", aberta a novas surpresas literárias, quem sabe?)
 No entanto, achei muita piada à frase acerca dos barulhos que o silêncio tem, pois penso muitas vezes em como é difícil fazer silêncio... se conduzo, oiço música, se cozinho, oiço música, a televisão está ligada muitas vezes sem ninguém a estar a ver, em casa há o barulho de fundo, constante, dos miúdos, no trabalho existe uma "banda sonora" vibrante e contínua que nos acompanha a toda a hora, se vamos beber café "ali ao lado" é comum haver uma televisão ligada com vozes irritantes que gritam, em vez de falar, na rua, há barulhos contínuos e a nossa cabeça, é também um turbilhão de pensamentos, a mil à hora, que não param, programam o momento seguinte, o ingrediente seguinte, o dia seguinte, o diálogo seguinte. E isto, passa-se de forma tão rápida no nosso cérebro, em frações tão milimétricas de segundo, que já nem nos apercebemos! Por isso o silêncio custa tanto, está tão longe dos nossos códigos habituais de conduta.
Consigo fazer, com os meus grupos de crianças, momentinhos pequeninos de silêncio, diários, às vezes esporádicos, espontâneos, nada programados, que servem para "ouvirmos os barulhos da escola, fora da nossa sala"; "o bater do nosso coração"; "a nossa respiração"; "o nosso silêncio"... "- O nosso silêncio tem barulho, Paula?" -"Sim, claro que tem, queres ouvi-lo?" Acaba por ser um pedacinho lúdico e engraçado, que contraria a "maré gigantesca" que se vira sempre contra si. Acham piada, aguentam uns segundos, abrem os olhinhos em batota para espreitar a expressão do colega do lado, semicerram os olhos para fingir envolvimento, embora o sorriso trocista os traia, mas no final, ficaram curiosos com o silêncio...no final, sentiram a respiração a acalmar, o suor a desaparecer, a calma a chegar.
Trabalhei durante dois anos num Jardim-de-Infância no campo, onde dezenas de coisas ao mesmo tempo se conjugavam para um trabalho harmonioso (um dia, faço um post sobre esse lugar... de afetos que ainda hoje perduram!) e onde descobri, por intermédio de um menino delicioso, o momento do TCHI KONG. O tchi kong, segundo ele, era um momento de silêncio que fazia com a mãe no yoga, quando a acompanhava e que "trouxe" para a escola, na hora das novidades. Por brincadeira, começámos a imitá-lo, a introduzir o TCHI KONG todos os dias na nossa rodas das conversas, à tarde, antes da história! Aos bocadinhos, brincando, rindo, experimentando mesmo, conseguiamos já fazer momentinhos de TCHI KONG mais longos, proporcionais à sua capacidade de quietude e tão, tão bons!
Não sei se ouviamos o silêncio, que continuará sempre a ter barulhos, mas sei que era bom ouvir, a meio do dia, o bater do coração, só, sem mais nada!