quinta-feira, 27 de novembro de 2014





CADÊNCIA MORNA


E hoje gostava mesmo era que me embalassem com aquela cadência morna e arrastada, quase pastosa, que o canto alentejano tem. Imagino-me nesse ritmo ondulante e pachorrento e, a sério, era só o que me apetecia. Mais nada. Deixava arrastar o tempo ali ao meu lado, ficava-lhe imune, indiferente,  NÃO QUERIA MESMO SABER DELE, saboreava só aquele lento torpor e pronto, podia até fechar os olhos e isto duraria assim, alguns longos minutos. Uhum!!! Maravilha....
Depois, sim, pois teria que abrir os olhos e voltar à vida frenética e louca que tenho, assim, sem grandes contemplações.

Não gostava de canto alentejano. Acho que sempre fui uma miúda normal, pouco preocupada com paragens mornas, arrastadas e pachorrentas que a vida, às vezes tem que ter e que, nesta idade,  JÁ nos sabem tão bem!
Não sei se agora sou uma mulher normal, às vezes acho que a normalidade que se diz vigente está tão distante de mim que já nem sei, mas pronto, já aprecio estas coisas com outra lente, talvez e sim, aquela pastelice na voz e na cadência dos corpos, pode ser terapêutica sim senhora, anestesiante, analgésica...
De entre outras (muitas) coisas, acho que foi isto que os senhores lá da UNESCO viram e perceberam... Já passaram todos dos 40, aposto e ainda bem, afinal, a lente vai-se apurando!

Parabéns, Alentejo, por nos aqueceres a todos a alma assim...



quarta-feira, 26 de novembro de 2014




E HOJE FOI SÓ ISTO...






Apesar das nuvens negras do céu, há sempre um porto seguro... é o que vale!!

P.S-  Parabéns por hoje...Estás um quarentão giro!

quinta-feira, 20 de novembro de 2014





E O QUE DIZER DISTO?


Pediram-me que falasse sobre o Pré-Escolar, de como se poderiam adaptar a ele uma série de coisas, da sua especificidade, de como se conjugam, nesse ciclo, adultos e crianças num mesmo espaço, para um mesmo objetivo, do teor técnico, mas também lúdico de tantas coisas e de como é possível juntar tudo isso com sucesso... e lá comecei a falar... O pedido foi repentino, não tinha nada pensado. Lá parei o carro, não fosse o diabo tecê-las, já que estava sem alta-voz. Ao ritmo do som do pisca à direita, lá fui falando.
A ALMA ABRIU-SE-ME. Falei absolutamente de cor de um amor que domino. Falei com ênfase, percebi, e o silêncio do outro lado, reforçava-me o ânimo e dava-me a convicção de que o que dizia ecoava no lado de lá da linha. Sei que quando se fala de algum amor profundo, desarmamos quem nos ouve, causamos impacto, porque aquilo que dizemos se torna eloquente e vindo do fundo da alma, ficando GIGANTE.

Tive uma professora assim. Sempre que falava, tudo lhe vinha de dentro, parecia-me e, por isso, acho que destoava tanto (para melhor) de algumas outras. Foi sempre uma referência para mim, quer nos anos de formação académica, quer depois, ao longo da minha prática profissional e um dos motivos que encontro para isso é imperativamente este: falava do Pré-Escolar assim, com este amor enorme e absolutamente lúcido e cheio de coisas importantes de dizer e de fazer, tornando-o num ciclo de vida e de ensino absolutamente essencial e às vezes, tão mal tratado e reconhecido.
Hoje lembrei-me dela. Não porque me possa comparar-lhe, mas porque intuí que estava, por breves minutos, a causar no outro, uma sensação parecida com aquela que ela me causava, quando a ouvia falar.
E é assim, quando se fala de um amor antigo. E mesmo quando vamos descobrindo novos mundos e novos amores, o que dizer daquele AMOR que nos abre a alma assim?




sexta-feira, 14 de novembro de 2014




CRUSH ON HIM


(do inglês, que quer dizer "queda por ele"...)

Meio da tarde. Todos no carro, ao rubro, entre atividades. A do meio tomou a dianteira e dizia à irmã: -Sim, Bea, ela tem um crush por ele, dos fortes... Risos, dela e do mais novo, que ia a reboque da conversa!- Sabes o que é um crush, mãe? 
- Sim, Sofia, sei... mas diz-me, onde é que ela o conheceu? 
- No Twitter. E pronto, essa verdade assumiu-se como suprema de entre todas as outras. Não perdi a oportunidade. - No Twitter? Oh Sofia, como é que se fica com um crush por alguém pelo Twitter? E disparei:- Então e não se viram? E ela não lhe viu as mãos, não viu como fala, se a boca sorri enquanto fala, se os olhos brilham? Eu, cá por mim, tenho que ver, sentir o que os olhos me oferecem, perceber a expressão, o olhar, olhar para as mãos... como é que ela vê as mãos dele no Twitter, ou no Twitter dá para ver as mãos, não dá, pois não?... 
- Oh mãe... - e risos, muitos risos pelos meus gestos e ênfase oferecido às frases!  A condução seguia descontraída e olhou-me espantada. Sim, sei que entre graça e alguma sobranceria adolescente, às vezes me olha assim e eu também sei que não me anulo, e esta oportunidade era quase de ouro
- Qual oh mãe!... Eu tenho que ver a pessoa, Sofia, percebê-la, há sempre um brilhozinho nos olhos, um risinho ao canto da boca que a parede virtual não mostra, o que pensas? Há coisas que não passam de moda querida, é o que é, e isto não é virtual!  Qual Twitter...
 - Vês, a mamã sabe o que é um crush, Sofia... - dizia-lhe o irmão que ia pescando as graças da conversa de hoje.
E eu, altaneira das minhas certezas, lá seguia por esta cidade, ligeira e apressada com eles a reboque. Lembrei-me de alguém que me dizia no outro dia que as viagens de carro são ótimas para organizar a vida, ter conversas e decidir e algumas logísticas com os três filhos e, de facto, assim o é. Às vezes surgem assim conversas destas, a despropósito, que afinal acabam por ter o MAIOR dos propósitos. O riso da do meio, ecoava ainda por aqui, mostrando-me a maravilha que é ter-se 14 anos, mas sobretudo o que recordo é o ar assim-meio-nostálgico-e-sonhador-da-mais-velha, que, quando eu falava na importância de olhar para as mãos de alguém, dizia: - Ya Sofia, ya...

Acho que haverá sempre coisas que não passam de moda, é o que é...




quarta-feira, 12 de novembro de 2014




NOVO MUNDO


Entrar neste mundo é dar um salto profundo para vidas de sofrimento, limitações, problemas e verdadeiras odisseias de luta pessoal, escolar, familiar, social... É também conhecer mães e pais heróicos, às vezes só pelo facto de amarem estes filhos e quererem, para eles, o melhor. É conhecer gente rara de trabalho e dedicação, pronta a articular e partilhar saberes, a oferecer tanto para receber, às vezes tão pouco. É obrigar-se a ser grata pelo que se tem, pelos filhos que se tem, é ser solidária, mas realista, tentando equilibrar dois mundos, às vezes de costas voltadas... E eu, estou agora neste mundo. O meu salto está ainda a começar, mas vislumbro já a nitidez dos problemas e o ardor das dificuldades. Não haverá muitas receitas formais para este trabalho: intuição, dedicação, informação, partilha, preparação e afetos, muitos afetos, lúcidos, pedagógicos, conscientes e oportunos. Houve já quem me alertasse para esse vetor maior que são os afetos e eu, que já o intuíra, também o vou aprendendo agora.

E, para todos os alunos vou pensando assim. E, de todos vou retirando lições que me façam aprender. E, com todos, aplico tudo o que a vida profissional e também a outra me deram e a coisa vai fluindo e, acho, resultando e então ele, que corre para mim, espontâneo, que me lambuza com beijos repenicados e que sorri com os dois olhos quando me vê e tenta dizer o meu nome, faz-me perceber que sim, que mesmo que a vida dos conhecimentos não lhe dê mais nada, pelo menos a mim, por agora, ele já me deu TANTO! 




Haverá dias difíceis, eu sei, mas cá por hoje, estou de alma cheia!!

segunda-feira, 10 de novembro de 2014




ACHO QUE TENHO UM...


A correria do dia-a-dia é potencial causadora de silêncios e pressas, de coisas que não se dizem logo, que ficam para mais tarde, para outra melhor oportunidade. Pois, é verdade! A logística diária é imperiosa e os horários têm que se cumprir, os afazeres têm que ser validados, os prazos atendidos. Socorro-me da intuição para lhes ir percebendo os sinais, o que dizem, como dizem, o que fazem, o que comentam. Sei-lhes de cor tanta coisa, mesmo aquelas que acham que não sei e não sei tantas outras coisas e ainda bem, porque são donos e senhores de uma privacidade que, nas suas idades, não chega logo à mãe. Ok, tudo normal... Vou registando interiormente o assunto de um e de outro e dele e dela, ou dela... E depois, às vezes, é certa e necessária a conversa, mesmo que se atropele a logística e imponhamos um momento prioritário, às vezes no carro, às vezes em casa, às vezes a ocupar uma espera qualquer...
Pois... o tal radar super, ultra sónico de algumas mães... acho que tenho um... E na diversidade maravilhosa dos três filhos que tenho, surge então a conversa, a achega, o reparo, o comentário, num equilíbrio maravilhoso e difícil entre o que a mãe acha e o que a mãe sabe que se acha do outro lado.
Nunca será fácil, encaixar a forma de dizer, fazer, ou comentar, na diversidade tão marcada de cada um, mas será sempre imperioso que EU o faça, como mãe, sob pena de me anular e nisto, não tenho contemplações!

E lembro-me da D. Isaura, que não lia uma letra, mas que me dizia com ar decidido quando falava neles, enquanto varria, ou engomava: - Oh menina, já olhou para a sua mão? Tem algum dedo igual ao outro? E não são todos seus? 
Pois é, são todos meus, é verdade, mas antes disso, serão sempre de si próprios, mesmo que aí vá um pedacinho reminiscente do que lhes demos... E é por isso, que lhes digo sempre o que penso...

E este hoje filhota, é para ti!



sexta-feira, 7 de novembro de 2014



ECOS


Às vezes paro na imensidão do trânsito e respiro fundo; às vezes obrigo-me a sentar-me, com uma revista, jornal, ou livro, num sítio de eleição; às vezes vou espreitar o mar e inspirar uma maresia que me envolve inteira; às vezes escrevo para libertar ecos que vêm cá de dentro; às vezes ando a pé tempos sem fim, só eu, uma música qualquer e o ritmo de uma respiração que é a minha; às vezes disponho-me a organizar sozinha, sem ritmos de outros a ditar-me as horas, as pontinhas de uma vida preenchida; às vezes repito sem fim músicas minhas, na esperança de que façam ligação direta com o setor das sensações e sem traumas de gostos old fashioned e então é aí, nesses momentos em que paro, que me sinto preenchida.
São absolutamente vitais para mim essas paragens ocasionais, que às vezes duram só minutos. Para mim são inteiríssimas e restituem-me a outra parte de mim que às vezes anda tão fugida. E lá, nas profundezas de mim, estás sempre TU e ainda bem, porque me fazes falta e porque te escolhi...
Hoje apeteceu-me dizer (te) isto...




terça-feira, 4 de novembro de 2014




FIGOS COM MEL




Estava parada no semáforo vermelho e a fila era interminável. Ainda tinha tempo, por isso não stressei, como de costume. Miúdos distribuídos, algum tempo pela frente, café à espera antes de iniciar o dia de trabalho. Entretive-me a ir arrancando o verniz de uma das unhas que lascara. Mudei a estação da rádio. Não tenho paciência para quando só conversam sem fim. Prefiro ouvir música. No pára-arranca olhei para o passeio e vi-a a subir a rua, ligeiramente inclinada para a frente, como quando se sobe em esforço. Vestia de preto integral, só mudando esta negrura, um apontamento de cinzento, com pequenas bolas pastel, num lenço dobrado ao pescoço. Apostaria que lhe vi duas lágrimas a cair pela cara abaixo. Sim, tenho a certeza que chorava, sem pudor, sem tempo para parar de subir, para as enxugar, como se a pressa da rotina lhe anestesiasse a dor, sem se importar com quem a visse, afirmando pública e assim, despudorada uma mágoa que é sua. Sei que perdeu um um dos filhos há pouco tempo, num grave acidente. Não conhecia o rapaz e com ela também nunca falei, mas vejo-a regularmente em locais que também frequento. Conheço-lhe, embora à distância, alguma simpatia que a caracteriza e um sorriso fácil que, às vezes, comparo com o meu. Enquanto continuou a subir imaginei a dor de perder assim um filho, num dia normal, igual a tantos outros, depois talvez de um até logo banal, num dia também banal.
O meu carro seguiu. Não pensei mais nela durante o dia...

Há poucos minutos, espreguicei-me no sofá, numa dormência tentadora e logo os três vieram para cima de mim, como gatos, atraídos pelo cheiro da mãe. Falaram disto e daquilo e mais disto e mais daquilo e assim e assado e sabes mãe e vê lá e ouve lá, queres ver... numa algaraviada sem fim que me atordoou, mas que também me soube a figos com mel... adoro figos com mel! O meu olhar voou para cada um deles e para o peso e importância que têm na minha vida, para o sentido que lhe dão, para o norte que lhe trazem e assim, num relance de ternura, enquanto me sentia grata e ingrata ao mesmo tempo por não ter tempo para agradecer, foi das suas lágrimas e dela que me lembrei, lesta e ligeira a subir a rua inclinada.
Provavelmente nunca lerá este post, mas não faz mal, é para ela na mesma, por eu não imaginar tamanha dor... 






sábado, 1 de novembro de 2014




PUZZLE




Há mesmo dias assim, não vale a pena debater-me contra isso, imperfeitos, caóticos, onde fazemos tudo mal, desde o princípio, até ao fim. Dias impiedosos, sobranceiros e imunes a um relógio que gira, ali ao nosso lado, indiferente ao nosso estado de espírito, egoísta e com ares superiores. Dias em que nos magoamos e em que magoamos aqueles que nos são mais queridos. Dias em que o corpo e a cara, assumem a cor de uma alma menos sorridente.

Pois... às vezes, nesses dias, conseguimos ver o que de pior temos e apetece fugir e desaparecer. Mas depois há uma coisa boa e outra e ainda mais outra e então percebemos que afinal a vida é isto, este puzzle de coisas más e boas que se juntam às vezes e que, se calhar, se virmos com atenção, as boas até são mais e melhores que as más, muito mais e muito melhores. 
Pois é, afinal, é mesmo isto, o melhor é não levar muito a sério mesmo, aceitar as falhas sem grandes culpas, saber que amanhã estará sol outra vez e pronto, a alma sorrirá de novo! 
Sim, é isso, há várias peças de um mesmo puzzle e estes, para ficarem completos, não têm só peças fáceis!
Pois...

BOLHA (Arejada de conforto emocional...) E quando o dia foi hiper cansativo e sentimos que isso, mais o calor insuportável ...