sexta-feira, 23 de novembro de 2012

 
 
 
BOM-DIA!
 
Antes de entrar, de manhã, gosto muito de ir beber café, não só porque o meu organismo está dependente da cafeína e este café da manhã completa o meu despertar TOTAL, funcionando como o último "apito" do despertador, como também porque gosto daquele bocadinho de tempo em que estou sozinha, ou acompanhada e dou dois dedos de conversa, descontraio, rio um bocadinho e me preparo para iniciar um novo dia de trabalho. Pelo tempo de distância que levo a chegar ao destino, aliado a uma conjugação de horários dos miúdos cá de casa, isso tem sido possível até hoje. Parece que se não consigo este pedaço de "preguiça", não começo bem o dia...
Hoje tive oportunidade de estar sozinha nesse bocadinho de tempo e, como bebi café em frente à minha escola, detive-me a observar, à distância, a azáfama da entrega das crianças. Foi giro ver a paragem dos carros, o sair, o vestir dos casacos de uns e de outros, o adivinhar de birras e resmunguices logo de manhã, a desenvoltura (ou não) com que alguns Pais lidam com isso, as posturas corporais de reação aos beijinhos de despedida, aos últimos acenos... É engraçado como alguns comportamentos de algumas crianças, se explicam melhor depois de observada a forma com são entregues de manhã. De facto, tudo se conjuga em nós, como se o nosso dia (e o dos miúdos também) ficasse marcado pela forma como acordamos e vivemos as primeiras horas.
Este "filme" em perspectiva fez-me fazer um  "rewind" para a minha própria vida... A relação que sempre procurei estabelecer com a escola dos meus filhos (proximidade, cumplicidade), a forma como procurava "entregá-los", a forma como aproveitava esse tempo de ida para lá, os "toques de alvorada" cá de casa, as logísticas dos pequenos-almoços, lancheiras, casacos, recados, assinaturas, dinheiro para as senhas, lembretes para os almoços, etc, etc, etc... Lembrei-me das aventuras de ter de fazer tudo isto sozinha, muitas vezes, quando os horários do meu marido não coincidiam com os meus, da "ginástica" que uma mãe faz para gerir tudo isto e ainda cumprir um horário de trabalho, de chegada à escola dos filhos, de sonos persistentes, de birras, de pequenos-almoços vomitados e depois, a capacidade que tem de ter para "desligar" este interruptor e "ligar" outro, que lhe dá, à mãe, outra forma, a de profissional! De tudo isto me lembrei hoje, da janela, enquanto observava a chegada à escola de dezenas de crianças.
Tive a sorte de ter os meus filhos em Jardins-de-Infância e escolas de primeiro ciclo (o mais novo está agora no 4º ano...) onde podia entrar e muitas vezes, partilhar com as funcionárias e/ou colegas, os suspiros apressados das manhãs, sorrir, mesmo que a correr, acenar de fugida, mas acenar, e sobretudo, olharmo-nos mutuamente uns aos outros! Tive tanta sorte! Pude sempre dar um "lamiré", mesmo que rápido com quem de direito, entregar o "tesouro" por um dia, a alguém que visse de frente, intuir rapidamente, com o olhar, o ambiente que se respirava! Tive mesmo muita, muita sorte! Sei que há escolas diferentes, onde isto não é possível por todas as razões que se conhecem (logísticas brutais de mega centros escolares, onde tudo tem que ser célere e "oleado" de outras formas e onde o contacto com os Pais, terá que se fazer de outra maneira, privilegiando outros "palcos" que não os contactos - ainda que fugazes - da manhã, ou da tarde) e também nessas haverá imensas coisas boas (não contesto!); e sei também que há outras escolas, onde tudo se fazia assim e agora, por motivos que nos transcendem, se passou a fazer de outra forma, interpelando aqueles mais convictos destas realidades e anseios, a inventar novas formas, maneiras diferentes de "respirar o ar"... Tudo bem! Escolas perfeitas nunca haverá, como refiro às vezes, mas não abdico de achar que fui privilegiada por poder dizer, todos os dias, "olhos nos olhos", BOM-DIA, às professoras dos meus filhos!