quinta-feira, 15 de novembro de 2012

 
 
 
 
Querida Kitty:
 
 
A propósito do post da Leonor Costa, onde referiu que este blog lhe fez lembrar o seu antigo diário, lembrei-me da experiência que tive (e certamentente partilhada com muita gente - especialmente raparigas - da minha geração) em ter um diário. Calculo que essa "transferência e testemunho" de emoções se farão agora de outras formas: virtuais, digitais, ou outras, mas o caderninho outrora fechado, com um cadeado pequenino e uma chave também pequenina, guardada num sítio escondido e secreto, serão sempre inimitáveis!
 Que experiência maravilhosa, a de ter um diário! O pensar em chegar a casa e transcrever para o papel tudo o que se tinha vivido, os amores e desamores, os dramas e pieguices, as valentias e ufanices próprias da idade infantil, ou adolescente, o gostar de relê-lo depois, mais tarde, o gozo e riso fácil provocados por um sentimento posterior de nostalgia, ridículo, ou patetice acerca do que se escreveu e sobretudo, o prazer da escrita, transformado em catarse expressa para o papel, através de uma caneta esforçada em acompanhar pensamentos velozes, às vezes muito velozes.
Sugeri veementemente às minhas filhas (ao mais novo, a sugestão virá mais tarde...), de forma quase de "sugestão imposta", que lessem o diário de Anne Frank. Li este livro (a versão mais antiga e original, já que agora há outras, mais resumidas) quando era adolescente e marcou-me muito. Talvez tenha sido o meu primeiro contacto "de frente" com a realidade do Holocausto, contada na primeira pessoa. Acho que os grandes clássicos da literatura serão sempre intemporais e, como alguns nomes, não passam de moda, pelo simples facto de que retratam cenas da vida humana, densas e laboriosas em termos de intensidade, humanidade, drama e mensagem, uma mensagem que fica e que marcará depois os nossos códigos literários. A par dessa sugestão literária, já vieram outras, de outros clássicos, que acho, contribuirão para enriquecer os seus horizontes e a sua forma de verem a vida. Um livro marcante, na idade e tempo certos, será determinante, não só para o gosto pela leitura, como também, muitas vezes, para a forma como vemos a vida, já que essa leitura, nos transportará para "mundos" exteriores a nós e isso é crucial para crescer...
Ora, quem leu a Anne Frank e quem se eterneceu com o tratamento que dava ao seu diário, chamando-lhe carinhosamente, Querida Kitty, perceberá a mensagem maravilhosa que nos é dada acerca da condição humana, que se reinventa e redescobre em situações de extremo drama e desespero. A forma como uma família se reinventou numa dessas situações, a gestão dos conflitos entre vários seres humanos, confinados a um espaço quase claustrofóbico, a relação entre duas irmãs entre si e com seus Pais, mas sobretudo a forma como uma jovem maravilhosa se "agarrou" à escrita para sobreviver (durante algum tempo) à monstruosidade do Holocausto, traduzindo e tentando perceber as suas emoções e transpostando para "a Kitty", a ternura que se entrega à "melhor amiga"...
Nunca poderei comparar as minhas experiências de vida mais dolorosas, àquilo que Anne Frank viveu (e os livros auto-biográficos dão-nos o peso da verdade, contextualizada e precisa), mas poderei comparar-me com ela na relação que tinha com a escrita, "enchendo-a" de emoções. Este meu blog, muito despretensiosamente, pretenderá fazer aquilo que seu pai, Otto Frank, fez: levar a sua escrita de alma pelo  mundo, transportando-nos também a nós, para partilhas com os outros. Com isso, ficaremos sempre muito mais ricos.