domingo, 20 de julho de 2014



ZÁS TRÁS PÁS


- A máquina é muito cara, filha, mas olha, se conseguires juntar metade do dinheiro, nós damos-te o resto, pronto, mas tens que juntar pelo menos metade e isto é a sério, sabes que quando se quer muito qualquer coisa, isso sabe muito melhor se for conquistado... acho eu!
- A sério, mãe? Então posso começar a preparar tudo, é que sabes, é mesmo aquela que eu quero, é assim, assado, cozido, frito, faz isto e mais aquilo, as lentes assim e assado, o zoom não sei o quê, eu já vi o preço na Net e aqui e acoli, então vou fazer assim... 

E o discurso transformou-se num rol de intenções, prazos, esquemas de vontade e de organização, em ordem a angariar o dinheiro que precisaria para tal odisseia. Eu, confesso, duvidei um pouco, pois o ímpeto às vezes esmorece e também o custo não era assim tão mínimo... afinal, aos catorze anos, há mais marés que marinheiros e nem sempre o vento sopra de sul... Mas pronto, o caminho era agora dela e eu/nós, estaríamos aqui a ver o que dava...
E a minha/nossa casa transformou-se num palco, onde observávamos o que fotografava para o OLX para vender, o que editava, publicitava e vendia, o que amealhava de moedas e dinheirinhos que vêm dos avós, de quando em vez, o que somava e concluía que ainda faltava, ou já chegava
No meio da agitação dos dias, ia-a vendo e acompanhando e a minha certeza de que, muito mais cedo que o que eu previra, teria o dinheiro necessário, foi-se assumindo como certa e lembrei-me dela quando nasceu, apressada, num parto rápido e natural, de choro pronto e contínuo, que fazia aparecer à porta da sala do recobro as funcionárias a dizer-me que tinha génio mamã, esta é de fibra, sabe o que quer e está chateada porque não consegue mamar; lembrei-me dela bebézinha, muito determinada, mas encantadora, chorona até mais não, mas de sono fácil e pronto, lembrei-me dela após a primeira sopa, porque não mais quis mamar, como se tivesse agora descoberto um mundo muito melhor; lembrei-me dela cantora, pintora, dançarina e artista como é; lembrei-me dela generosa, mas teimosa, humilde, mas segura do que quer; lembrei-me dela e da sua rapidez quando faz qualquer coisa, num ZÁS-TRÁS-PÁS muitas vezes sem perfeição, mas com a alma toda lá e pensei que o mundo está à tua espera, minha doce Sofia, só te falta crescer mais um bocadinho, continuares a ser linda e verdadeira por dentro, a ouvir quem te quer bem e quem te cuida e depois, bem, depois o caminho é teu e eu acredito que mesmo de pernas para o ar, não te irás perder...