quinta-feira, 24 de julho de 2014




CARAMELO QUEIMADO


Costumávamos acampar naquele sítio com muita frequência e, embora fosse perto da minha casa, o acampamento era de alguns dias, o que nos exigiu alguma autonomia e desenrascanço. Lembro-me com uma ternura infinita desses tempos e desse acampamento em pormenor. Eu deveria ter uns 8, ou 10 anos, não teria mais e foi aí, nessa infância maravilhosa que me formou como pessoa (como costumo frequentemente referir) que frequentei a 1ª Companhia de Guias de Olhão. Era um grupo dinâmico, liderado por raparigas mais velhas que eu, naturalmente, mas que nos incluíam em atividades diversas e frequentes. Organizávamo-nos em patrulhas, umas de mais novas, as Guias, outras de mais velhas, as Júniores. Eu era da patrulha borboleta e ainda hoje tenho um saco de tecido, azul aos quadradinhos, com o meu nome e o desenho de uma borboleta bordados pela minha avó Lurdes. Servia para eu levar a comida e os acessórios das refeições, como os talheres, pratos, copos. Hoje está na gaveta das recordações importantes, imaculado e velhinho, mas lá, perto de mim e da minha intimidade mais querida. Nas Guias aprendi tanto, tanto. As primeiras vivências em grupo, as autonomias para arrumar as minhas coisas, a divisão de tarefas, a forma de fazer isto, ou aquilo, as primeiras conquistas emocionais, estando longe dos Pais alguns dias, os amigos, que sem saber, ficaram para a vida, as primeiras construções em campo, os nós disto ou daquilo que seguravam essas construções, a forma de apanhar e organizar a lenha para fazer o fogo, o cozinhar em campo com lenha mesmo, os primeiros socorros e a forma de arrumar um saco-cama, o bichinho do Escutismo que se me entrou pelo corpo dentro desta forma, para não mais sair, como uma doença crónica, mas esta boa, muito boa. Enfim, um mundo de coisas de que me recordo com um sorriso nos lábios.
E daquele acampamento então, recordo ainda com maior ternura.
O imaginário eram os índios e toda a sua mística e então, atribuíram-nos totens segundo as nossas características... Pois é... há coisas que ficam e que escolhemos não fazer DELETE da memória...

Já expliquei  aqui porquê que este blog tem este nome. Continuo a achar, quase dois anos depois, que continua a ser um nome muito bem escolhido e que não haveria melhor, mas, acho que há um outro que encaixaria neste espaço na perfeição e esse outro vem diretamente da recordação deste acampamento e dessa noite mágica em que encenámos um ritual índio. Eu, menina pequena, fiquei o caramelo queimado, porque muito teimosa como o doce que se cola aos dentes... 

34 anos depois (mais ou menos...), lembro-me deste acampamento como se fosse hoje e sei que o totén não poderia ter sido melhor escolhido.Foi sendo trazido pela vida fora e continua atual . Relembro-me disto constantemente, sempre que teimo em ser teimosa... Continuo teimosa, muito teimosa, mas quero crer que doce também, mesmo como aqueles caramelos antigos, sem artifícios, que comíamos sem fim... E com esta doçura, espero aligeirar a teimosia... será?
                                       
P.S. Bem, lá docinha era a carinha... acho eu!