segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013




SORRIR COM O FÍGADO...



"Um dia sem rir é um dia desperdiçado"
 
- Charles Chaplin - 

Nunca gostei particularmente do Carnaval. Lembro-me que quando era miúda também não tinha um especial gosto, mascarava-me na escola, normalmente para marcar o dia festivo e pouco mais. Lembro-me que também na minha casa, esta quadra não era particularmente vivida. Não por nada em especial, talvez até por acaso, foi sempre assim e pronto! E assim crescemos lá em casa, "herdando" esta certa indiferença ... Talvez por isso nunca cultivei o hábito de me mascarar, de ir a festas, bailes e afins, alusivos à quadra. Já mais velhinha, na adolescência e juventude, o Carnaval era mais uma oportunidade para nos juntarmos todos em grupo, às vezes mascararmo-nos, sairmos, mas sempre num espiríto mais ou menos distante para mim... achava sempre alguma piada, ao longe, à forma como alguns amigos e amigas viviam tão INTENSAMENTE, esta data... era engraçado ver isso, mas nada mais em especial, não me envolvia particularmente. Hoje, adulta, acabo por viver o Carnaval na escola, com os miúdos e envolvo-me com eles nesses curtos dias e no dia da festa em si e procuro centrar-me na ALEGRIA, dando-lhe o papel central de uma quadra. Assim, os palhaços, a folia, as partidas, as brincadeiras, o riso, aparecem na minha sala como "reis e senhores" de uma festa que nos "entra pela porta sem pedir licença" e fica, fica por aquelas breves horas e enquanto duram, envolvo-me e brinco e canto e danço com os miúdos, sentindo que eles têm mesmo aquele efeito avassalador de contágio daquilo que sentem, como se não conseguissemos, ou pudessemos ficar imunes a isso.
Para mim o CARNAVAL resume-se a isto e tem sempre, nos "bastidores" disto, alguma impaciência que me assalta e que marca a quadra.
Hoje, sentindo esta impaciência miudinha, tive uma tarde de cinema em casa, longe dos "Carnavais borbulhantes" que andam por aí, com chá quentinho, edredon, sofá e lareira acesa e tive oportunidade de rever um filme que já tinha visto no cinema ("Comer, rezar e amar", 2010). Não o acho um filme exuberante, daqueles que nos marcam para a vida, é um filme light, mas interessante, que relata o percurso pessoal de alguém que parte, em busca de si própria, através de uma viagem por alguns países, onde descobre pequenos pedaços de prazer e equilíbrio que, juntos, contribuirão para o equilíbrio total. É com a Julia Roberts, de quem gosto muito e hoje, nesta tarde de impaciência carnavalesca miudinha, retive uma frase de um dos personagens: ..."tem que se sorrir com a boca, com a mente, com o coração, com o fígado...", como se o sorriso nos tivesse que vir das entranhas mais viscerais de nós próprios e como se servisse, sempre, de antídoto para tudo!
Hoje, ao contrário da primeira vez em que vi o filme, esta frase chamou-me a atenção e fez uma ligação direta com a alegria e riso carnavalescos!
Mesmo que o riso mostrado nas festas e desfiles seja ôco e esconda grandes tristezas que voltarão à tona após a anestesia festiva, mesmo que se sinta que tudo é vivido de forma tão exuberante, exagerada, excitada, que torna tudo relativamente falso, mesmo que se goste de assumir, por momentos, outras personagens/figuras tão distantes de nós próprios (os verdadeiros), tão distantes, tão distantes que nos descaracterizam,  valha-nos o riso, valha-nos a alegria que devemos tentar sentir no Carnaval e também em todos os outros dias, forçando às vezes um sorriso que é exteriorizado pela boca, mas que deve vir do coração, da mente, do gesto, da expressão, do olhar, e também das entranhas mais profundas, como o "fígado". Quem sabe se assim, insistindo nos sorrisos diários, estes vão sendo cada vez mais terapêuticos?

  LEITE DERRAMADO Já estou submersa, naquela fase do meu trabalho em que só vejo papéis à minha volta e em que sinto que tenho ...