sexta-feira, 11 de abril de 2014

ONDAS RÁDIO



ONDAS RÁDIO

(serei sempre uma romântica, não há nada a fazer...)

-Tenho saudades de falar contigo, sem pressas, vá lá, vem lá ter comigo, preciso de saber o que achas disto, hoje ainda não consegui falar contigo nada de jeito...
-Ok, então já lá vou ter, vá, mas não fiques assim preocupada, isso resolve-se!

Sentei-me na esplanada à espera dele. Estava cheia de gente e enterneceu-me a gentileza do empregado, de cuja filha fui Educadora. Veio limpar a mesa com muita prontidão, verificou insistentemente se o meu pedido já tinha saído, não quis receber logo, o que contraria os hábitos ali, eu sei... Achei piada. Via-o tão pouco naqueles anos longínquos em que tive a filha aos meus cuidados, mas sei lá, se calhar fiquei-lhe um pedacinho, só podia ser, ou então é o homem que é mesmo simpático e eu nunca percebi, é isso de certeza!
Veio o pedido que fizera, olhei à volta, risos, conversas, descontração. Pensei nos tremoços, mas no resclado da má disposição do dia anterior, nem me atrevi e fiquei-me pela torrada, que comi metade. Ainda sentia o estomâgo meio agoniado.
Ele lá chegou e falámos muito, descontraidamente e com tempo. Ouvi-lo falar assim, quando eu estou em modo agitação-interior-de-qualquer-coisa-que-não-sei-explicar-muito-bem-o-que-é, dá-me sempre tranquilidade, como se as palavras dele fossem o pragmatismo que preciso. Às vezes é preciso ser-se pragmático, eu sei e eu muitas vezes não sou. Fui sossegando e realmente vendo as coisas com outros olhos, como se a calma fosse chegando, devagarinho, mas firmemente. E ele, terá sempre este poder em mim...

Não quis enfrentar uma ida ao supermercado antes de ir para casa. - A esta hora? Que loucura, nem penses! Dei-me ao privilégio de ficar no carro e um - opá, resolve lá tu isso do jantar, foi suficiente. Não mudei a estação do rádio. De um VAIA COM DIOS maravilhoso ( retro?... não faz mal...), passaram para aquela música do João Só com a Lúcia Moniz e aí achei que era para mim. Fechei os olhos e ouvi... e o e eu cá vou, gozando os louros deste achado, contigo de braço dado, pra todo o lado e se o chão desabar, que nos leve aos dois, vou agarrado a ti, pois olha lá, por mais que passem os anos, por muito que faça planos, sais-me sempre a sorte grande... 

Eh pá, aí achei que alguma verdade cósmica estava a conspirar a meu favor através daquelas ondas rádio e achei giro como de uma agitação-interior-de-qualquer-coisa-que-não-sei-explicar-muito-bem-o-que-é, se passa para uma sensação de quase indiferença perto de alguns precipícios que se avizinham... é que, se o chão desabar... vou agarrada a ti!