sexta-feira, 24 de maio de 2013



DUELOS FEROZES


Casou porque gostava dele, sim, não duvidaria disso. Acreditou num amor que sentia, mas que nunca questionou, nunca interrogou, nunca duvidou de alguns sinais que lhe pareciam autênticos. Agarrou-se a esse amor para fugir de um contexto familiar que a oprimia um pouco e esse amor soube-lhe a uma liberdade encantadora. Na altura, nunca admitiria isso, mas hoje, muitos anos depois, consegue analisar que sim, esse foi um fator primordial, mesmo que inconsciente. Não dizem os livros que o amor é isso, um calor, uma trepidação, umas borboletas na barriga, uma sensação de maravilhoso bem-estar, às vezes impulsionadora de aventuras, mesmo de olhos fechados?
A vida foi correndo e com ela os filhos e continuava sem questionar aquela coisa que sentia, porque àquela coisa chamava amor. O amor não se questiona. Sente-se forte e é só isso. Não se complica uma coisa que não tem complicação, porque às vezes, a lucidez traz complicação, a lucidez abre horizontes e perspetivas de análise diferentes daquelas tão cómodas que temos e então, para quê a lucidez? Só atrapalha... Por isso, não se questiona e pronto, vai-se vivendo... desenfreadamente, com as logísticas depois a sobreporem-se a tudo e até à tal lucidez, sempre tão necessária. Mesmo quando se adivinhava que se vivia em desequilíbrio, sob  jogos de compensação, balões de oxigénio que traziam euforia, logo seguidos de longos períodos de solidão interior e desânimo, nunca se achou estranho não haver cumplicidade e ter-se, por algumas vezes, abdicado do que era mais essencial, em prol daquilo que sentia, a que chamava amor. E era infeliz, consegue dizê-lo agora, à posteriori. Muito infeliz... os momentos bons que tinha eram ocasionais, descartáveis e imediatos, não atingiam uma profundidade que tudo preenche, como o fundo do oceano, onde calculo, tudo se preencha sem fim como uma mancha infinita... e por isso, ia vivendo, vazia, sabe-o agora... como sabe também que a projeção nos filhos não poderá ser solução, pois os filhos têm e deverão sempre ter, a sua própria vida.
Conseguiu, a certa altura tentar libertar-se desse amor que julgava certo... foi vendo que certo não era, que lhe fazia mal, que era descompensado. Respirou fundo e lá tentou. Vai conseguindo todos os dias um bocadinho, com muitos avanços e recuos, passos à frente e muitos atrás. A vida também é isso: temos metades emocionais que esgrimem com as racionais duelos ferozes de equilíbrio e, não havendo receitas para esta vitória, consegue-se, ora um vencedor, ora outro. 
Gostava só de dizer que julgo que é mesmo assim: não poderemos nunca meter a nossa vida numa equação de matemática, cujo resultado é absolutamente aquele e pronto! A nossa vida terá sempre a emoção a atrapalhar, ou a fazer pensar de outra forma melhor, quem sabe.
E disto me apelou a escrever hoje, porque sei de relações assim que acabaram, ou de outras assim que não acabaram ainda, mas já estão mortas, ou de outras, como à que me refiro, que vão a-ca-ban-do, porque tal é imperativo que aconteça para um equilíbrio pessoal que se procura. Mesmo que doa...
Sei de casos muito próximos de mim, de gente mais chegada e de outra gente, menos chegada, mas penso que para todos o diagnóstico será o mesmo, já que a massa de que somos feitos, é igualzinha (só a capa de fora é que muda depois...). 
Presumo que um divórcio/separação nunca será fácil, será sempre doloroso e árduo, tenha a relação tidos os contornos que tiver e seja o divórcio vivido da forma que for, mas presumo também, que às vezes poderá ser a porta para uma vida melhor... como um nascer de novo, quem sabe?

PARIS ( Post escrito na última noite em Paris) Estamos a deixar Paris. Esta é a nossa última noite nesta cidade maravilhosa. Já cá t...