sexta-feira, 10 de outubro de 2014





AQUELE SÍTIO...


Ela é uma dessas pessoas.
Conheci-a há muitos anos, porque fui Educadora da filha mais nova. Simpatizei sempre com ela, mas o nosso contacto desvaneceu-se com o tempo, levado pela vida de uma e de outra, embora as memórias desse tempo fossem ternurentas, como a filha dela, então pequenina. Víamo-nos de vez em quando, mas não tínhamos um contacto regular e um dia, há poucos anos atrás, acedeu simpaticamente a um convite meu para que falasse a um grupo de Pais sobre um tema relacionado com o seu trabalho. Lembro-me que foi um sucesso, porque falou com emoção, com experiência, com ênfase e lembro-me que poderia (poderíamos) ter ficado horas a ouvi-la. Depois disto, a vida profissional tem feito com que nos vejamos ocasionalmente e sempre que estou com ela, tenho esta sensação... a de poder ficar horas a ouvi-la...
Hoje, encontrámo-nos mais uma vez. Em poucos minutos falámos de muitas coisas e a sintonia que sinto é sempre imediata. Dizia, entre outras coisas que a família sempre foi o seu porto seguro, o seu chão, aquele palco onde todas as vertentes do seu ser se assumem e transformam ao sabor dos dias e da vida. Como concordei com ela!
Lembrei-me logo das várias opções profissionais que fui tomando, em favor da família, do estarmos juntos, do vermo-nos todos os dias, verdade intransponível para mim, quase oxigénio, ou vitamina diária, se quiserem... Lembrei-me das opções pessoais que fui tomando ao longo do tempo, moldadas a esse projeto de vida que assumi com o mais-que-tudo e de como isso me afastou de algumas etapas profissionais, que poderiam ter sido conquistadas mais cedo. Lembrei-me de como ganhei tantas outras coisas pessoais, trazidas por essa menor sorte profissional. Lembrei-me da necessidade que tenho do toque de todos, da voz de todos, do caos que às vezes impera cá em casa, da pressa, da agitação, mas também dos afetos divididos, dos segredos partilhados, dos projetos sonhados e das memórias guardadas e construídas. Lembrei-me que sim, que também tenho este chão chamado família e este chão, será sempre seguro e valioso para mim, será sempre AQUELE sítio, o TAL para onde vou querer sempre fugir depois de tudo.
Obrigada minha querida por me teres feito sentir tudo isto hoje, enquanto te ouvia falar...




  LEITE DERRAMADO Já estou submersa, naquela fase do meu trabalho em que só vejo papéis à minha volta e em que sinto que tenho ...