sexta-feira, 3 de janeiro de 2014


ILHA DO FAROL





Existe desde 1851, é antigo, portanto e povoou a minha infância, não só porque era presença imponente numa das minhas praias de eleição, como também porque estava sempre lá, assim, dessa forma indiscreta, em quase todos os ângulos de visão para onde olhássemos, nas terras costeiras onde vivíamos. Depois, a presença assídua, constante e natural, tornou-o quase banal, como banais já parecem ser aquelas coisas que vemos todos os dias e que já nos desabituámos de contemplar. Às vezes, quando penso nos faróis de forma humana que orientaram (e orientam) a minha vida, penso que são de facto assim, imponentes e sempre presentes de qualquer ângulo de visão, análise, sentimento. Parece que nunca deixamos de os ver e ainda bem, porque nos dão uma segurança estrondosa.

Continuou sempre a ser, ao longo da vida, a praia preferida, o areal preferido, o bar de praia de eleição... afortunadamente, temos a sorte de lá poder ir, por modo próprio, muitas vezes, o que reforça o gosto e o prazer que nos dá aquela praia... Afortunadamente também, é roteiro certo em passeios de inverno, o que reforça a sua beleza, o seu quê de não-sei-o-quê que o torna destino único, tão fácil, tão próximo, tão banal, tão bom...

Surgiu assim, do nada, a ideia de lá irmos passar a passagem de ano. Uma série de coincidências felizes, oportunidades que se conjugaram, gentes felizes que se juntaram, porque juntas são assim, muitas, ruidosas e amigas. E assim, num afortunado dia do princípio de janeiro, lá quis subir eu os duzentos e tal degraus, dos mais de 50 metros de altura deste conhecido farol. Nunca se tinha proporcionado e nesse dia aconteceu. Não fui sozinha. Acompanhou-me um pequeno séquito que não quis ficar atrás, mas consegui, no meio de todos eles, ficar um bocadinho presa a mim e às minhas coisas, como se esta mania que tenho de introspetivar (*) teimasse em se colar a mim, como se achasse sempre que a FELICIDADE talvez seja assim, feita destes pequenos nadas que só a nós nos dizem tanto. E lá em cima, foi comigo própria que falei... Num varadim pequenino, de forma circular, rodeada de uma paisagem magnífica, fiquei pequenina e silenciosa, apesar do frenesim de quem me acompanhava. Foram silêncios de segundos, imediatos e que calei só para mim. Foram silêncios que seguiram obedientemente o movimento de uma longa inspiração daquela maresia tão gelada e tão maravilhosa e, apesar de nunca ter tido muita paciência para balanços e elencagens exaustivas de propósitos a seguir, pois o  meu espírito prático dita outra pressa e outro sentir, acredito que todos os desejos para 2014 tenham ficado presos bem lá no fundo, com a força daquele inspirar.

(*) não sei se esta palavra existe, mas pronto, senti-a assim!

  LEITE DERRAMADO Já estou submersa, naquela fase do meu trabalho em que só vejo papéis à minha volta e em que sinto que tenho ...