terça-feira, 21 de janeiro de 2014




É FÁCIL...


Eu e filha do meio para programa de supermercado ao meio da tarde. Compras de circunstância, que esta casa de gente tem sempre falta de coisas, cafezito pelo meio, conversa diária informal a fluir. Tempo, antes de ir buscar os outros dois e de iniciar a outra parte do dia. Como tenho sempre azar nas caixas do supermercado, hoje não foi exeção, claro. Aquela caixa não tinha ninguém, para além de um casal simpático de meia idade. Muito serenos, muito cúmplices e lá fiquei eu, animada, que desta vez é que seria, um pagamento ligeiro, sem azares e demoras! Eis quando a senhora se lembra de uma e de outra e de outra coisa que, afinal, precisava! E sai da caixa uma e outra e outra vez, desculpando-se enquanto me pede licença para passar. Ele, paciente, ficava à espera que ela voltasse. Eu desviava-me para lhe dar espaço, a ela e lá sorria, condescendente... afinal, até nem estava com pressa. De esguelha, via a impaciência da minha do meio e o olhar meio atrapalhado da funcionária e lá sorria eu outra vez, também condescendente... nem sempre tenho esta calma, hoje seria de aproveitar. Por fim, a minha senhora da frente lá passa uma última vez e diz-me qualquer coisa que me soou a desculpas, pelo que percebi pela expressão da voz e gesto... Sorri outra vez e anuí, correspondendo afirmativamente àquilo que julgava ter-me sido dito. A minha perspicaz descendente, não perdoou... -oh mãe, percebeste alguma coisa do que a senhora disse? - murmurou-me. -Não querida, nada de nada, mas sorri, deixa, e isso bastou-lhe... 
De facto, tenho um sorriso fácil, é uma coisa que me sai naturalmente e quase sempre (quase, que também não tenho sangue de barata....) é sincero e vem-me de dentro. Acho mesmo que é uma arma poderosa que tem poderes que vão para além de quem o emite, entram na esfera de quem o recebe e produz efeitos que ultrapassam ambos, assim como se atuasse a longo prazo, como uma profilaxia terapêutica que fica nas entranhas, sem sabermos.

Eu não deveria ter mais de sete, ou oito anos e lembro-me de um jantar na casa de uns amigos dos meus Pais, coisa que era comum entre os casais amigos, com filhos da nossa idade. Eram sempre animados e informais e nesse dia, já não sei porquê, as meninas viram-se todas a participar num desfile de moda. Lembro-me que fiquei muito contrariada com o vestido que me deram, era horroroso, azul e amarelo e contribuiu para agravar mais ainda a minha grandessíssima aversão a vestidos! Ainda hoje, de cada vez que me lembro do vestido!!! Nossa Senhora!!!! O meu prémio foi o do sorriso mais bonito e fiquei tristíssima! Queria ter ganho o melhor vestido, o mais vistoso, o mais original... o melhor sorriso!! Senti-me infelicíssima....
Às vezes lembro-me deste episódio e hoje, particularmente, a minha memória viajou estes anos todos para trás! Não sei se a velhinha do supermercado achou o meu sorriso bonito, mas fiquei contente com o efeito que ele teve nela... Afinal, é mesmo fácil!!!