sexta-feira, 28 de junho de 2013




 A OUTRA IRMÃ





O meu irmão mais novo quando nasceu, eu tinha 8 anos e por isso, lembro-me muito bem de tudo o que se passava na minha vida nessa altura. Vivíamos numa casa de rés-do-chão, num bairro que para mim era maravilhoso, onde tinha muitos amigos e amigas com quem brincar, na rua e nas casas uns dos outros. http://agridoceedoce.blogspot.pt/2012/11/bairro-da-cavalinha-nao-tenho-duvidas.html .
A minha avó materna enviuvara recentemente e vivia connosco. Lembro-me perfeitamente quando a minha mãe nos disse (a mim e ao Nuno) que íamos ter uma irmão, ou irmã, lembro-me de viver a gravidez da minha mãe, num "despique" saudável com o Nuno, porque eu queria uma irmã e ele, naturalmente, queria um irmão. Fizemos uma lista de nomes possíveis e, embora a minha mãe não abdicasse do "João", lá escolhemos um outro nome para se juntar a esse e o consenso resultou em "João Pedro", que para mim, até hoje, é um nome lindo...
Lembro-me perfeitamente, com uma nitidez translúcida da noite em que o João nasceu. O meu pai foi dar-nos um beijinho à cama, dizendo que ia acompanhar a mamã ao hospital, porque o bebé "estava aí"... não dormimos mais! A minha avó tentava acalmar-nos, mas nos nossos corações de meninos pequenos, a espetativa, curiosidade e grandiosidade de irmos ter um irmão, falava mais alto e eu lembro-me disso tudo!
Na manhã seguinte, fui para a janela e fui abordada por toda a vizinhança: -"Parabéns Paulinha, pelo maninho"... eu sorria e dizia, de boca rasgada de felicidade: -"Perdi a batalha, perdi a batalha!"... Na inocência dos meus 8 anos, ria com o facto de ter nascido um irmão, em vez de uma irmã e dizia que esta "batalha" fora perdida!
Amo os meus irmãos como à vida e este meu "irmão pequeno" que hoje é um homem, é uma das preciosidades que tenho na minha existência e sei que ele sabe disso, mas gostaria de ter tido uma irmã... a ideia de duas irmãs confidentes e próximas era mágica para mim e por isso, fiquei tão contente quando a minha segunda gravidez (tão próxima da primeira) me/nos confirmou que esperávamos uma menina! Íamos dar uma irmã à Beatriz e essa ideia encheu-me de felicidade!
Hoje sou adulta e sei que há irmãs que não são próximas, ou muito menos, confidentes; hoje sou adulta e sei que este nó de afeto que eu em menina projetava para aí, pode ser dado com outras pessoas a quem também podemos passar a chamar de irmãs e irmãos... sei que é assim e por isso, não 
sinto nostalgia nenhuma por não ter ESSA IRMÃ... tenho uma vida tão preenchida de afetos, de amor, de tudo o que acho importante (onde cabem nuns dos primeiros lugares os meus irmãos homens!) que fui apertando esse nó noutras pessoas! Tenho algumas boas amigas que sei que o são e de quem gosto tanto, tanto (estou a lembrar-me agora de uma e de outra e de outra...) e depois, tenho-a também a ela. É uma amiga especial, especialíssima por quem sinto uma ternura sem fim, com quem gosto de estar, conversar, ouvir, desabafar, confidenciar. Sinto-me privilegiada por tê-la na minha vida. Não temos a mesma idade, embora seja uma idade próxima, não nos vemos todos os dias, temos ambas uma vida de loucura hiper, mega louca mesmo, mesmo, mas estamos sempre lá uma para a outra e é tão bom quando isso acontece! É como um bálsamo fresquinho... Às vezes não é preciso dizermos muito, a sintonia que sentimos sente-se pelo olhar, pela confidência que fica pela metade, mas da qual se adivinha o resto, pelo que se conta daquele lado e que é parecido com o que se vive deste lado, pelo que se defende, pela forma como se priorizam as coisas, pela maternidade assumida assim, desassombradamente, pelo papel que damos à nossa cara-metade na nossa vida e o efeito que isso tem em nós de tranquilidade, segurança, amor, equilíbrio, pelo esquema de valores, pelo afeto, sempre o afeto que nos norteia às duas! Acredito que ter uma amiga assim é como ter um tesouro que não andamos a mostar ostensivamente, que não precisa de alaridos, que brilha só para nós num santuário de ternura que se mostra suavemente... 
Minha querida, em segredo, este post é para ti e olha, parece-me que o nosso nó é daqueles duplos, que, de tão apertado, não sai mais!
Um beijinho...

  LEITE DERRAMADO Já estou submersa, naquela fase do meu trabalho em que só vejo papéis à minha volta e em que sinto que tenho ...