terça-feira, 11 de junho de 2013




FAROL NOTURNO


Não há explicação racional para esta compulsão que às vezes se sente para escrever... sente-se e pronto, tem que se escrever, com a diferença de que agora, "partilho" aqui na blogosfera, aquilo que escrevo. Não há acontecimentos específicos que façam desencadear este processo. Às vezes é um sentir, um pormenor, um episódio, uma frase e voilá, surge o click inspirador!! Foi assim, hoje...

Eram pouco mais que miúdos quando se encontraram pela primeira vez e nem gostaram muito um do outro, nessa ocasião. Suportaram-se, só isso! Hoje, relembra isso com uma ternura imensa, como se essas recordações estivessem impressas num quadro a óleo, daqueles valiosos que não nos cansamos de admirar. Tinham uma série de atividades em comum, centros de interesse e amigos, o que facilitou um caminho a dois que se ia definindo. A descoberta foi acontecendo e tecendo uma teia complexa, invisível, mas forte e resistente. Cresceram e experimentaram as primeiras e diversas descobertas, os primeiros confrontos, as primeiras crises, mas a ideia de projeto a dois ia-se mantendo, lá ao fundo, como se ele a continuasse a achar única e ela, no meio da multidão, olhasse de maneira diferente só para ele. Ainda indefinidamente e de forma difusa viam o futuro e imaginavam-se juntos. Era como se essa ideia fosse um farol que brilha à noite, no mar, com aquela luz teimosa e constante que guia os barcos e pescadores.
A vida foi acontecendo e foram experimentando juntos outras graças: as conquistas académicas e profissionais, os filhos, os desafios, os novos amigos, as novas formas que a vida lhes ia trazendo. Tudo isso iam vivendo os dois, sem perderem uma identidade única de cada um, que os distingue porque são diferentes, sabem disso. Dessa unicidade continuam a não querer abdicar e ainda bem... é uma diferença que às vezes provoca choques frontais e colisões que quase fazem descarrilar um trilho que se definiu, mas não consegue desarmar a tal luz teimosa, do tal farol noturno, que os guia na noite escura. A vida é pesada, apesar das inúmeras bençãos que sabem que têm. A vida também os moldou/transformou um pouco... estão um pouco diferentes, mais pesados também (!!!), talvez menos pacientes, mais previsíveis, com um encanto diferente daquele que tinham em miúdos, mas igualmente delicioso, estão mais amadurecidos e perspicazes perante a vida, pois a idade vai-lhes dando outra sabedoria, daquela que não vem nos livros.
O tal farol noturno, continua teimoso e continua a brilhar, intermitentemente, mas seguro, sempre presente, mesmo quando não o vêm, porque lhes parece que o nevoeiro é maior que a sua luz, sempre constante, guiando-os para um futuro que não conhecem, mas que querem partilhar. Sei que muita gente os conhece e sabe que é verdade aquilo de que falo. Eu também os conheço muito bem, com a força de uma verdade que é própria e pessoal. Sei também que muitos outros que conheço têm projetos assim, com faróis assim a iluminá-los e sinto-me bem com isso, pois estas grandezas ficam ainda maiores quando são sentidas por muitos... acredito que amar e ser amado será das maiores bençãos que podemos ter.

Estes dois protagonistas de que falo tiveram sempre alguma sorte? Talvez... acho que ela também faz parte da vida, assim como acho que às vezes a podemos procurar, mas, como dizia Winston Churchill, "a sorte não existe... aquilo a que se chama sorte, é apenas o cuidado com os pormenores!"