segunda-feira, 18 de março de 2013



REDUTOS SAGRADOS

Em criança dizem-me que era travesso e muito arisco. Tinha um cabelo loiro, quase branco e era o quarto de sete irmãos, todos seguidos e criados por uma família pobre em posses, mas muito rica em afetos e valores que transmitia. Tinham o mar "à porta de casa" e eu, em segredo, sempre achei que isso lhes moldara, a todos, os temperamentos e as maneiras de ser. Os relatos que o meu pai me fazia da sua infância e outras coisas que eu juntava de "pedacinhos" que as minhas tias acrescentavam, fizeram-me perceber que foi feliz e que teve, nas figuras de seus pais, referências fortes de autoridade, valores e muito afeto.
Na idade adulta, tornou-se num homem muito bonito: loiro, de olhos verdes, grandes, magro e atlético, quase tendo um "quê" de ator de cinema. Sentia isso sempre que via fotos que a minha mãe guarda das suas juventudes e do seu tempo de namoro. Em segredo também, sinto-me feliz por ver que o  meu filho mais novo é tão parecido com ele, quase um clone, dando à genética uma força, de facto, intransponível e tão visível.
Quem o conheceu sabe que era um homem íntegro e com um enorme sentido de justiça, para além de que procurava com uma eficácia naturalíssima exercer essa justiça com um grande sentido pedagógico. Tinha sempre uma mensagem a dizer, um reparo construtivo que nos deixava a pensar nas coisas, um toque de assertividade às vezes não imediatamente vista, mas muito presente. Era um homem determinado, mas não teimoso, autoritário, mas meigo, não muito caloroso no trato, mas tremendamente assertivo e muito seguro e inteligente, o que me deu sempre (e aos meus irmãos também...) uma sensação de "rede" que estava lá sempre, quase invisível, mas presente. A relação que tinha com a minha mãe e que a minha mãe tinha com ele, serviu-me, sem eu saber, de modelo para construir eu agora, ao longo dos meus dias e meses e anos, o meu próprio desenho de relação a dois: íntima (porque só dos dois, com verdades escondidas e partilhadas só nessa esfera tão pequenina e ao mesmo tempo tão grande que é dimensidão de duas pessoas que se amam), sagrada (porque intransponível e com redutos e "cantinhos fechados" ao que vem de fora), prioritária (porque com vida própria, às vezes exigente) e própria (porque única e irrepetível), com traços de afetividade, mimo, exteriorização do que se sente, valorização do que se quer, registos de atuação, formas de estar, únicos e relativos a cada PAR.
A sua forma de ser pai, serviu-me também, sem eu saber, para admirar muito o que fez por nós e a forma como era pai: firme, determinado, organizado, previdente e sempre presente, mesmo quando trabalhava muito, porque conseguia transmitir-nos que a cumplicidade que tinha com a minha mãe fazia com que estivesse sempre lá, como que ligado por uma rede invisível mas sentida, vista, como aquelas luzes de presença que fazem os meninos deixar de ter medo do escuro. Enquanto cresci, talvez estes efeitos fossem ficando marcados sem que me apercebesse. Enquanto crescemos, absorvemos de tal maneira tudo o que nos rodeia, nas várias frentes, que a maturidade não acompanha ainda o processamento que tem que se fazer de todas as informações, é tudo muito rápido. Quando cresci, abracei uma profissão e um projeto de vida, parece que todos os "imputs" que recebi dele, se manifestaram, como um efeito feliz de uma educação que resultou. 
Não sei porquê que hoje resolvi lembrar-me disto. O meu pai é uma presença tão forte na minha vida e um "cantinho" tão secreto, sagrado e saborosamente único, que nenhum blog do mundo lhe poderia prestar tributo. Esse, presto na vida de todos os dias e no testemunho que dele dou aos meus filhos, continuamente; mas sei lá, talvez por amanhã ser o dia do pai, talvez por gostar de explorar com os "meus" meninos dos meus grupos, a importância do pai nas nossas vidas, talvez porque é uma figura que lhes é essencial, talvez porque os nossos neurónios saltitem de vez em quando para aquilo que nos é importante e caro... não sei, apeteceu-me falar assim um bocadinho dele e dizer-lhe que foi o melhor pai do mundo e que foi crucial para eu ser a pessoa que sou hoje, tremendamente feliz!... MESMO!!!!!

BOLHA (Arejada de conforto emocional...) E quando o dia foi hiper cansativo e sentimos que isso, mais o calor insuportável ...