segunda-feira, 4 de março de 2013



 CORAÇÃO ELÁSTICO E PAREDE DE ESPUMA


Hoje de manhã quando ia para o trabalho, levava, como habitualmente, o rádio do carro ligado e ouvia, um pouco distraidamente, uma das estações de eleição. Confesso que não sou fiel só a uma, vou mudando, entre duas ou três, um pouco ao sabor das músicas e também da minha disposição e hoje, ouvi qualquer coisa cerca dos pais e mães que têm vários filhos, sobre se gostariam mais de uns, ou de outros. Nem sei bem contextualizar em absoluto a conversa, porque de facto, o que retenho às vezes é muito pouco, centro-me mais na música, mas chamou-me a atenção a temática e de imediato pensei em cada um dos meus três filhos. Os meus flashes de pensamento foram "saltitando" entre eles, deixando a condução passar a ser aquele exercício autómato e mecânico que fazemos com gestos repetidos, como se não estivéssemos ali.... 
Lembrei-me da mais velha, da sua capacidade de organização, da sua responsabilidade e métodos de trabalho a nível escolar e outros, da sua simpatia para com os outros e preocupação em agradar e ser solícita; passaram-me pela cabeça as suas rabugices, os seus ares de sabedora, "sra. aborrescente", mas também a sua perspicácia e sensibilidade no relacionamento com as pessoas, a sua preocupação em ser autêntica e em não sentir as coisas "pela rama" e em como isso me faz sentir orgulhosa; lembrei-me da do meio, estouvada e deliciosa, uma "tempestade" em qualquer espaço, da sua determinação e rapidez, da sua pouca perfeição às vezes em fazer as coisas, mas também do seu lado artístico e ultra rápido, da sua capacidade de apreensão imediata de tudo, no ar, da sua desarrumação que me faz lembrar "outros caos organizados" de que já falei aqui e do seu espírito determinado e muito seguro; e depois, o meu pensamento flutuou para o mais novo, rapaz, endiabrado, louco por futebol, estouvado também (tem muito da irmã do meio...), determinado e muito teimoso, pouco beijoqueiro, mas meigo como ninguém, com uma meiguice só dele, diferente da de todos os outros,  teimoso, inteligente e senhor de si, preocupado com os mais novos e pequeninos... 
É incrível como o nosso cérebro terá sempre esta capacidade de se multiplicar assim por tantos pensamentos, ao mesmo tempo, enquanto conduzimos, comemos, bebemos, olhamos, ou fazemos qualquer outra coisa.... Tentei depois imaginar de qual dos meus filhos gosto mais, que pedacinho de pensamento gostei mais de ter, de que característica me deu mais prazer recordar e o meu pensamento navegou para uma parede de espuma que se desfez e me deu um vazio como se nunca tivesse existido. Foi para mim completamente impossível avançar em frente com este pensar, não dava em nada, não surgia nenhuma imagem, o cérebro não conectava com pensamentos elaborados, surgia um vazio branco, imenso, ôco, incolor, disforme! Calculo que seja normal assim! Calculo que tragamos para as nossas convicções o que sempre recebemos também de nossos Pais e nós, éramos três filhos também lá em casa, tão diferentes uns dos outros e todos, mas todos, a sentirmo-nos tão amados... por isso repito, que talvez seja normal eu sentir isto, ou talvez seja uma capacidade elástica que os corações dos pais e das mães adquirem, sem pedirmos, automaticamente, como a tal condução de todos os dias. Não sei!  Das conversas e vivências que vou tendo, com o universo de gente que "me compõe", presumo que haja exeções; presumo que haja outras maneiras de sentir e/ou de pensar, movidas pela vida, pelas amarguras, ou simplesmente, por maneiras diferentes de ser; mas, da parte que me toca, senti-me gratificada por ter cá dentro a pulsar, um coração elástico e por "esbarrar" numa parede de espuma, o que me fez sentir, a 1000% um amor igual e desmedido por cada um dos meus filhos!


E a mãe a todos amava, de todos cuidava..."

  LEITE DERRAMADO Já estou submersa, naquela fase do meu trabalho em que só vejo papéis à minha volta e em que sinto que tenho ...