quinta-feira, 7 de março de 2013

 
 
MENSAGEM ENVIADA
 
 
 
Eu e o Nuno íamos pelo caminho, no banco de trás e, entre outras coisas que fazíamos, algumas exasperantes para os meus Pais que seguiam nos bancos da frente, um deles a conduzir, era o contar as árvores da estrada. Era como uma pausa mais calma, entre as "diabrices" de duas crianças, cansadas de viagens longas de carro. Ele tinha sempre mais paciência do que eu, que me fartava depressa daquela brincadeira parada de mais para o meu gosto. Ganhava-me sempre, não havia hipóteses. Lembro-me que durante este jogo infantil, eu pensava (infantilmente também...) que as árvores andavam, corriam, acompanhando o andar do carro. Dizia-lhe isso e ele ria muito, chamando-me palerma. Lembro-me depois, mais tarde, de sorrir ao pensar na minha ingenuidade tão infantil... imagina, achar que as árvores andavam! Realmente!! Mas estas viagens de carro, num Toyota branco, antigo, tipo station, que os meus Pais tinham, ficaram marcadas na minha memória, como um selo antigo que se quer guardar, porque é de uma coleção preciosa. Isso e as merendas que fazíamos a meio do caminho (a viagem mesmo para Lisboa, era infinitamente longa!!!), as pausas, os jogos de mímicas, os despiques das canções "à solta" (aí eu ganhava sempre, não havia hipótese!!!), o inventar de histórias para ver a mais "mirabolante", os campeonatos de caretas para ver quem aguentava mais tempo sem rir, olhando de frente, fixamente para o outro (mais outra prova em que eu era "batidinha" pelo Nuno, campeão da resistência séria!!!). Enfim, "selos" e mais "selos" de uma coleção de memórias sem fim, de apontamentos soltos de uma infância tão feliz!
Hoje, não poderia pedir a nenhum dos meus filhos que fizessem viagens de carro assim, entretendo-se mutuamente com este tipo de distrações. Não consigo competir com os Nintendos, Hipads, Playstations e afins que nos "invadiram"... O mundo está diferente e os centros de interesse, ou as distrações, são também diferentes, a própria ingenuidade das crianças é proporcional às vivências e experiências que têm. Duvido que haja crianças de 5, ou 6 anos, hoje em dia, que achem que as árvores andam, acompanhando a velocidade dos carros; mas há coisas em que sou absolutamente intransigente, muito a contra gosto das minhas filhas "aborrescentes" (deve ler-se, "adolescentes"...) e uma dessas coisas é não as deixar que transformem o telemóvel, numa extensão amovível das suas mãos! Não admito e pronto, enquanto for eu a mandar...
É fácil "falar" virtualmente, é menos exigente, mais rápido, mais egoísta e, por isso, mais cómodo... Eu própria sou fã dos SMS: poupam tempo, facilitam logistícas, aceleram procedimentos. Também sou fã das redes sociais, acho sinceramente que se transformaram em meios ao nosso dispor para comunicar, interagir; considero-os "caminhos irreversíveis" que podem ser altamente postos a nosso favor, desde que os saibamos utilizar e desde que não os deixemos "tomar conta de nós". Por isso, terá que continuar a haver espaço e tempo e contexto próprio para conversar "olho no olho", sentindo ao vivo a reação do OUTRO, vendo a expressão do olhar, o ruborizar, o reagir, atrevendo-nos ao toque, à ternura que só é possível ao vivo, obrigando-nos a enfrentar "no direto" as pessoas, as coisas, as conversas, as consequências. Isso é muito importante para o equilíbrio emocional, sobretudo e com maioria de razão para quem está, ainda, a crescer! Tem que continuar a haver espaço para os jantares de família (qualquer que ela seja, na sua forma, tipo, contexto, ou maneira...), para os livros, para a música, para as conversas deliciosas jogadas fora e maravilhosas só porque existiram, mesmo que não sejam de nenhum assunto em especial, para o olhar em volta, para o sentir das ruas, das pessoas, dos cheiros, dos movimentos, dos barulhos, dos silêncios, dos ruídos, dos sinais, dos fellings, das intuições; para a liberdade do nos darmos ao direito de não querermos estar com o telemóvel, com a mensagem pendente, com o chat ligado... Mesmo que não gostem que lhes imponhamos isso (eu e o pai), sinto/sentimos que isso, essa gestão dessa liberdade, é absolutamente essencial para o seu crescimento e quem sabe, no futuro, não saibam fazer já, de olhos fechados, com a mesma rapidez com que teclam, essa gestão, dessa liberdade tão fundamental e dêm tempo e espaço e gosto a outras coisas que compõem a vida! 
Não quereria correr o risco de, como o Einstein dizia, virmos a ter a "generation of idiots"...
E posto isto... "mensagem enviada!"...  
 
 
 


  LEITE DERRAMADO Já estou submersa, naquela fase do meu trabalho em que só vejo papéis à minha volta e em que sinto que tenho ...