quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

 
 
 
TRISTEZA FUNDA
 
 
Nesse ano tive um grupo muito giro, com crianças maioritariamente de quatro anos, mais pequeninas portanto, que o normal. Eram mais meninas que meninos e a maioria delas muito coquete, lembro-me bem. Muito extrovertidas, amiguinhas algumas desde a creche, "despachadas" e muito autónomas. ELA ERA UMA DELAS. Lembro-me em especial dela porque era mesmo das mais novinhas, já entrou tarde, tinha acabado de fazer quatro aninhos. Tinha o cabelo escuro, liso, cortado a direito com uma franjinha; usava sempre um ganchinho de cada lado e era muito feminina: trazia muitas vezes bandoletes diferentes, casaquinhos a condizer, era uma bonequinha. Fazia algumas birras, lembro-me que era das mais mimadas, talvez por ser das mais pequeninas do grupo e por nunca ter frequentado Jardim-de-Infância nenhum. Os Pais eram muito ocupados, mas presentes, preocupados. Apesar de não aparecerem muito por lá, (tinham um negócio por conta própria) mostravam-se presentes, faziam-se sentir e notar e eu simpatizava com eles. Eram práticos e dinâmicos. Ela tinha um irmão bebé que aparecia na cadeirinha, ou ao colo da mãe, sempre à pressa.  Esta menina ficou inscrita na minha memória, não por nada em particular, mas porque estava inserida num grupo que me disse muito, com o qual estive três anos, num Jardim-de-Infância e escola onde me senti sempre muito bem e onde conheci colegas para a vida! (lá está, a "variedade forçada" do meu percurso profissional, vai-me dando estes apontamentos de cor, como já tenho referido por aqui...)
Essas minhas voltas profissionais, levaram-me dali e perdi o contacto diário com estes meninos e meninas, embora, curiosamente, desses anos tenham ficado outras ligações consequentes extra vida profissional: a cabeleireira, a esteticista e outras pessoas desses tempos... que ficaram! Soube mais tarde, e já noutra escola que ELA tinha sido atropelada violentamente e que esteve em coma muito tempo. Lembro-me que na altura senti um choque,  - Meu Deus, que horror, coitadinha da miúda e dos Pais, mas que coisa, como foi? Esse choque, que adveio da brutalidade do que me contaram, foi no entanto filtrado pela distância a que estava... tinham passado alguns anos, lembrava-me perfeitamente dela e dos Pais, mas parecia-me despropositado ligar, dizer alguma coisa, parecia que a "lonjura" de tempo em que tinha estado com ela, me afastava de um propósito que poderia, noutras circunstâncias, parecer normal. E nunca telefonei... Ía sabendo dela por colegas dessa cidade (o mundo é tão pequenino!) e continuava a pensar muito, sobretudo, nos Pais, mas nunca telefonei! A mãe "passava-me" no pensamento, muito esporadicamente e acho que essa "passagem" era sempre de ternura, mas nunca parava muito para pensar nisso...
Hoje, sentada numa esplanada da minha cidade, vi passar a mãe, com o irmão, que já não é bebé e que já não vem na cadeirinha, ou ao colo. Reconheci-o logo, tem as mesmas bochechas gorduchas e a mãe, bonita e bem arranjada, olhou-me com um sorriso tão largo e espontâneo que soube instantaneamente ser verdadeiro! Desviou-se da sua rota e veio ao meu encontro. Abraçou-me e o "neurónio paralelo" do meu cérebro, ao mesmo tempo daquele abraço, pensou,  - que curioso, não a imaginara nunca tão efusiva, parecera-me sempre uma mãe relativamente distante!!! Sorria quando falava comigo e, mais ou menos 10 segundos depois da conversa ter começado, com aquelas frases de circunstância inevitáveis, do como está?, há tantos anos!!!, então?... escorreram-lhe duas grossas lágrimas daqueles olhos brilhantes, vindas do fundo de uma tristeza sem medida, assim que começou a falar DELA. Que sim, saíra há tempos de um coma prolongado, que sim, já vai falando, reconhece os mais chegados, às vezes parece que fala mesmo para percebermos o que quer dizer, mas o andar, Paula, esse está difícil, nunca mais será a mesma... Ao mesmo tempo que a ía ouvindo, apetecia-me perguntar-lhe como fora, em que fase está o processo do atropelamento, como aguentaram tudo isto, como reagia o irmão, como não percebia eu própria o porquê de nunca lhe ter ligado... mas não consegui... fixei-me nas outras e outras e outras lágrimas que lhe saíam, mas no sorriso ao mesmo tempo e fiquei esmagada quando me disse, do alto do seu coração de mãe que se lembravam muito dos meus tempos de Educadora da filha e que ELA gostava muito de mim. Esta mãe, do fundo da sua tristeza conseguiu dizer-me isto e eu ali, sem ela saber, prometi a mim mesma que nunca mais,  apesar das distâncias em tempo e em espaço, ficaria com alguma coisa para dizer!
É para ELA e seus Pais que me apetece GRITAR hoje, FELIZ NATAL e muito obrigado por me mostrarem que há gente tão corajosa, apesar da tristeza!