quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

BEATRIZ
 
O seu bisavô paterno terá sido um homem alto, loiro, muito culto, auto-didata e pai de uma família numerosa. Dizem-lhe as tias avós que era parecido com um ator de cinema... Provavelmente terá "bebido" desde cedo o espírito aventureiro dos pescadores, já que foi para além mar, muito pequenino, ao colo de sua mãe, fugindo com a família, de uma miséria sistémica no seu País. A sua bisavó paterna, doce menina, aos quinze anos, orfã de mãe e criada por uma irmã mais velha, também acabou de crescer num trópico quente, onde se fez mulher e onde conheceu o seu homem, marido e pai dos 7 filhos. Esta sua bisavó, conta-lhe a sua mãe, era muito calma, bem-disposta e divertida. Já viúva, vivia com uma das filhas, mas alternava as estadias mais ou menos prolongadas, na casa de cada um dos seus. Por isso, sua mãe a conheceu tão bem... já ela, a conheceu, mas era pouco mais de bebé quando a bisavó faleceu...
Do lado materno, tinha tido um bisavô alto, muito bonito, culto e bom orador. O nome "JOÃO", flutuou, depois dele, pelas gerações seguintes. Adorava ler e, sobretudo, conversar. Tinha estudado mais que os irmãos, talvez levado pela ânsia de um conhecimento que não lhes era dado como agora... Sua mãe diz-lhe que ele era conhecido na família por ter sempre assunto para conversar, por contar histórias da sua aldeia, por ser determinado e, às vezes, um bocadinho obstinado, levando-o a falar dos assuntos com muito ênfase, quase confundido com teimosia! Sabe que este bisavô minhoto, também nos trópicos, se perdeu   de amores por uma doce menina, algarvia, o que para sua mãe, sempre fora sinal de mistura importante de coisas, valores, energias, conhecimentos, costumes, todos eles misturados num calor de hemisfério sul, temperador e vibrante!
Do lado do seu pai, também bisavós lutadores, como quase todos dessa geração privada de tanto conforto e regalias como agora; gente que lutou contra condições de vida muito violentas, criando filhos e filhas com muito sacrifício, trabalho e, sobretudo, valores que queriam fazer perdurar. Gente que viveu sem uma liberdade de opinar, dizer, gritar, revoltar-se, negar-se a; mas que, mesmo assim soube dar valor à vida! Deste lado, recorda-se, ela própria, da doce "bisavó Xica", valorosa, crente e com uma lucidez desarmante, mesmo velhinha, velhinha...
Destes bisavós valorosos, resultaram os seus avós que tantas histórias têm para lhe contar e que, sendo tão diferentes entre si (do lado paterno e materno) a amam muito, lhe querem muito bem e a amparam, na ajuda que dão a seus Pais.  Seus avós, o elo da cadeia imediatamente anterior a seus Pais, serão sempre para ela, a linha de partida mais próxima e menos remota de uma rede de afetos tornada gente, pelos anos fora e tornada ainda mais próxima nas pessoas de seus Pais. Estes, terão tido a sorte de se conhecer cedo, partilhando uma fase da vida em que tudo parece explodir de alegria, crescendo juntos, afastando-se e tornando-se a unir sempre que o seu crescimento a isso os influenciava, mas acabando por ficar juntos, abraçando um projeto de vida e de amor que existe até hoje e que, acreditam, perdurará para sempre. Não é essa a base das histórias de amor?
A sua mãe, é uma romântica, tem da vida esta perceção adocicada, mas não se acha ingénua. Talvez esta doçura lhe dê uns olhos diferentes, só isso. Destes Pais que se amam, resultou ela própria e seus irmãos, rostos agora do amor  deste homem e desta mulher.
Dizem-lhe que o seu nome significa FELICIDADE (BEARE, aquela que traz felicidade...) e é assim, muito feliz que esta mãe hoje lhe fala, querendo dizer-lhe tudo isto, falando-lhe desta forma das suas raízes mais antigas, daquilo que caracterizou mais a fundo os seus progenitores e os outros antes deles, dizendo-lhe que hoje, que faz 15 aninhos e que, por isso, começa a deixar os olhos de menina e a ganhar uns de mulher, deverá sempre ter consciência daquilo que a antecedeu, de quem é, assumindo tudo o que herdou dos seus, mesmo aquilo que se herda e não se vê, pois a sua mãe (e seu pai também) acreditam que essas heranças serão sempre as mais importantes! É como se, ao falar-lhe assim, a ajudasse a perceber todos os genes que a compõem, nesse mosaico genético que nos torna tão ricos.
A FELICIDADE que o seu nome traduz é a maior prenda que seus PAIS lhe querem dar, sempre, sempre, mostrando-lhe o caminho, compondo-lhe as pedrinhas à sua passagem, mas acreditando muito que o conseguirá fazer sózinha, quase, quase a partir de agora...!
Parabéns, filhota!!!

PARIS ( Post escrito na última noite em Paris) Estamos a deixar Paris. Esta é a nossa última noite nesta cidade maravilhosa. Já cá t...