sexta-feira, 26 de julho de 2013





ERA UMA VEZ


Já falei aqui neles, direta ou indiretamente. Os meus avós fizeram parte da minha vida e a minha avó paterna conheceu ainda a minha filha mais velha, a Beatriz. Guardo com ternura num dos móveis do escritório, uma foto dela com a Beatriz ao colo, bebé de cerca de um ano, careca e gorducha, segura por aquelas mãos enrugadas, mas fortes da sua bisavó Luciana. 
Imagino-os num mundo muito diferente deste nosso mundo agora, mas sobreviventes, fortes e com qualquer coisa de mágico que não me canso de contar aos meus filhos. E assim começo a história, às vezes, soprada com ares de conto de fadas, personagens, enredos, tramas e fins felizes, como se quer e então, conto assim: 

Era um vez uns avós paternos que foram para África muito novos, ele bebé, ao colo da mãe, num barco à vela, filho de pescadores experientes que tentavam a sorte além-mar; ela, orfã de mãe numa adolescência que, à época, não tinha ainda direito a existir e a reivindicar, foi com uma irmã mais velha para África, onde, pelos acasos da vida o conheceu e com quem ficou, apaixonadamente. Ela contava que ele era alto, loiro, bonito, parecido com um ator de cinema, daqueles que povoavam o seu imaginário de jovem mãe, atenta às novidades que lhe chegavam do cinema, tão lindo e tão distante. Contava também que esse jovem pescador, dono já do seu coração, lia apaixonadamente (adorava os livros do Eça), era culto e auto-didata, embora os bancos da escola tivessem desaparecido cedo da sua vida, mas que era um encanto ouvi-lo falar de quase tudo e tão bem. Ela, suave, doce e determinada, criava-lhe os filhos que iam nascendo (foram sete!) e mantinha apertado o laço de amor que todos tinham uns com os outros, vendo no pai e na mãe referências importantes e amadas nas suas vidas e assim foi, até ao fim. Este avô loiro, alto e bonito, eu não conheci, mas envolvi-o sempre nesta aura de magia e é assim que o quero para mim e é assim que o partilho com os meus filhos! Esta avó suave e doce está apertadinha no meu coração, lembro-me dela com memórias já adultas e por isso, consistentes e reais!
Era uma vez também uns avós maternos que tinham a ligá-los um calor de trópico quente onde se conheceram. Foram ambos para África muito novinhos. Ele, oriundo de uma família rural do alto Minho, muito pobre como quase todas, queria estudar, queria aprender, era ávido de conhecimento e por isso, andou no seminário, que, era dos únicos sítios onde isso se podia fazer, na altura, embora uma vocação diferente da que esse sítio ditaria o tenha feito de lá sair, embarcando numa aventura de além-mar onde conheceu uma jovem linda e algarvia, morena de traços suaves e voz doce, por quem, claro, depressa se encantou. Escreveu aos Pais, dizendo que se ia casar com uma algarvia e contava com graça o espanto que deles recebeu pelo casamento pretendido com uma "cachopa dessas ilhas distantes!!!". Era determinado e teimoso, bom orador e persistente, adorava caminhar a pé e falava do seu Minho com uma saudade que até hoje recordo. Dela me lembro também com uma nitidez que a pós-infância também traz e hoje revejo-a, em tantos sorrisos e expressões, através da minha mãe. Este avô minhoto e esta avó algarvia compõem também, juntamente com os outros dois, o meu mapa genético e costumo dizer, por graça, que estes pontos geográficos distantes, unidos numa África longínqua e com amores fortes assim, fazem com que eu tenha esta faceta assim sonhadora e com que possa contar aos meus filhos esta história de família, começada por um maravilhoso ERA UMA VEZ...
Este dia dos avós pode ter o peso e a forma que cada um quiser, pode ser lembrado e vivido mais enfaticamente hoje, ou sempre, pode refletir a importância que uns e outros têm na vida de cada um, ou até pode passar despercebido porque não se liga a isso, mas eu, pela parte que me toca, hoje lembrei-me deles e sinto-me feliz por terem sido assim tão maravilhosos e por achar que dariam umas personagens tão boas de um belo conto de fadas.

E quem não gosta de um conto de fadas?