segunda-feira, 16 de dezembro de 2013



BARULHO DAS LUZES?


Hoje disse-lhes que os gestos falavam. Íamos fazer um jogo de gestos falantes, sem som.  - Oh Paula, tu dizes cada coisa, disse-me com ar resignado... É das mais velhas, inteligente e já experiente neste contexto escolar em que passa os dias. Tem uma inteligência prática apurada, um vocabulário rico e experiências de vida diversificadas que a ajudam a ser assim, crescida e a conseguir falar connosco, em muitos momentos, como se fosse um bocadinho como nós, adulta. Sei que é só um bocadinho, pois noutros momentos é a menina de 5 anos que é, mas há vezes em que me interpela assim, desta forma desafiante. Este jogo dos gestos falantes fez-me lembrar do poder do gesto, da força que lhe está implícita e da fonte de mensagens que o gesto pode ser. E lembrei-me de gestos cá de casa, assim simples, rotineiros, nossos, especiais...

Gosto de pôr velinhas no presépio e gosto de o ver iluminado, com um foco de luz ténue e suave que lhe realce as sombras e que à noite, quando a casa quase dorme, o faça parecer especial. Já se metem comigo cá em casa, porque esta é praticamente a única exigência que tenho para este cantinho de Natal que todos os anos compomos em família. Já tivemos o presépio de imensas maneiras e de muitos materiais. Vivo com um artista, eu sei, que gosta de criar, compôr, inventar e as coisas resultam-lhe sempre bem. Eu delego, admito, tenho um cariz muito mais prático e confesso que não tenho muita paciência para esses pormenores estéticos, sobretudo quando vivo com alguém tão criativo que me substitui muito bem nessa área. Mas velinhas, o presépio tem mesmo de ter, sem exageros, só para dar um apontamento de luz, brilho, leveza! Há alguns anos que não variamos muito... é um presépio composto por meia dúzia de bonecos gorduchos, com ar bonacheirão, cores suaves e ar simpático. À volta tem uma cabana de madeira e depois, pai e filha do meio (os artistas do domicílio...) compõem o enquadramento cénico. Algum verde a rodear, um céu pintado ao sabor da criatividade do momento, um tapete de musgo. O sítio onde ele fica é consensual: elevado, central, para que reine, imponente, como centro do Natal. 
Este mistério de amor de que fala o Natal, esta quadra maravilhosa que todos os anos nos é oferecida assim, desta forma gratuita, pode passar despercebida, tal é a força de tudo o que constela à sua volta e que tem som e outras luzes e outros barulhos e outras mensagens e outras vozes. Este mistério de amor que todos os anos se renova no Natal e que passa para nós com a força da família, da amizade e da fraternidade, pode ficar perdido no barulho das luzes e eu, tento que aqui, no nosso núcleo, na nossa casa, ao mesmo tempo que há bulício de gente barulhenta, numerosa e apressada, ao mesmo tempo que há pressas, correrias e logísticas para gerir, porque somos assim e vivemos num mundo assim, ao menos o presépio tenha, suavemente e sempre, um foco de luz. Este gesto, eu sei, tem uma mensagem, eles já a perceberam e há-de passar gerações!!