segunda-feira, 8 de janeiro de 2018






DE ENFIADA

Falava-lhes de quando fugiram da guerra e do privilégio que foi terem cá família que os recebeu. Falava-lhes de cenários de guerra que viveu, como aquele que vêm agora nos filmes. Falava-lhe do trabalho de campo, puro e duro de Assistente Social em cenário de refugiados. Falava-lhes do que viveram nos primeiros tempos em que a mãe e o tio mais velho eram pequeninos. Num almoço de domingo, sem regra, a conversa surgiu e, como as cerejas, foi durando...
Gosto que a oiçam falar, como eu gosto também de a ouvir e como me lembro de gostar de ouvir os mais velhos falarem, das histórias que contavam, das coisas que diziam.  -Oh mãe, conta-lhes lá aquilo - digo. Ainda hoje, adoro estar com os mais velhos a ouvir-lhes histórias. E gosto, quero, acho importante que os miúdos cuidem deste ouvir. Acho importante que encontrem espaço em si para estas coisas que não vêm nos livros, porque são nossas e nos dão raízes e história. Gosto que imaginem que têm um gene daqui, desta história. Gosto de imaginar que esse gene vai passar, de geração em geração e assim, talvez não deixe a história morrer de todo. - E não tiveste pena, avó, de deixar lá tudo? 
Esta pergunta fez ligação direta a uma minha sinapse cerebral, enquanto a resposta foi sendo dada. O que é o tudo? Que medida tem? Que forma, que quantidade, que volume? Podemos quantificá-lo? Onde entra o relativizar? Aprende-se (também) assim? O que nos dão essas provações?
Acho que foi também a estas perguntas que os meus Pais responderam, ao vivo e a cores. Acho que foi isso que aprenderam e que nos deram, essas lições, essas conclusões mais ou menos definitivas que se criam como regra lá de casa e se passam depois, pelos póros.  E é isso que lhes quero dar. Essa regra. De conceberem um TUDO que valha a pena e que seja mesmo o que importa. De terem um TUDO onde está o que é mesmo importante. E que esse IMPORTANTE os faça sacudir tanto pó que não presta, tanta coisa que não contribui, tanta energia que se desperdiça.
-Já sei mãe, já sei... a maior e única herança vai ser a de nos termos uns aos outros, já sei... 
O ar foi assim meio desdenhoso-de-gozo-de-adolescente-leia-se-aborrescente-que-não-leva-estas-coisas-muito-a-sério, mas o que é certo é que disse de enfiada.
E a enfiada fez-me crer que a coisa já pegou e que esta lição, esta conclusão assim meio definitiva vai criar regra cá em casa. 
Assim seja!




P.S. Este TUDO é o único que importa...