terça-feira, 11 de março de 2014






CORDA E SOPRO


Às vezes lembro-me da minha mãe quando tinha a idade que eu tenho agora. Era uma mãe desempoeirada, mas atenta e muito firme nas suas convicções. Tinha qualquer coisa de irreverente que na altura eu não sabia explicar o que era e que agora sei que era aquilo a que posso chamar HOJE de determinação e autonomia de pensamento, de ideias próprias e convicções pessoais trabalhadas e processadas. Gostava de nos dizer que a confiança em nós era o principal pilar da nossa relação e que deveríamos ser dignos dessa confiança. E nós levávamos aquilo a sério e queríamos mesmo ser dignos dessa confiança. Havia coisas das quais ela não abdicava, mas acho que era uma mãe descontraída e relativamente informal. Sentíamos no ar a sintonia com o meu pai, a cumplicidade que os unia, mesmo sem ser preciso dizerem-nos nada. Já sabíamos que se a mamã dizia assim, o papá não ia dizer assado e vice-versa. Hoje, agradeço-lhes de coração essa sintonia, pois orquestrou a minha vida... 
E é mesmo assim, como um maestro de uma orquestra que me vejo agora também no papel de mãe, é mesmo assim, como um maestro, que oriento ora uma, ora outra, para que não desafinem e continuem fiéis a si próprias, sabendo respeitar e respeitar-se, sabendo concordar ou discordar, fazer, ou não fazer, decidir, ou só seguir. Às vezes, tenho que me afastar e deixá-las tocar sozinhas, mas estou sempre lá, atenta e vigilante, mesmo que elas não vejam... E assim vou vivendo e orquestrando e deixando tocar e assistindo e agindo e intervindo e opinando e silenciando e acompanhando e sorrindo e sentindo...
Não é fácil, isto, o orquestrar das cordas e dos sopros, tão diferentes entre si, mas também não é nada do outro mundo. Vou descobrindo aos bocadinhos pequeninos que o segredo está na naturalidade e autenticidade e sobretudo, na firmeza perante as convicções, perante aquilo em que se acredita e é essencial. Assim, seremos sempre mais completos e verdadeiros e quem sabe, no futuro, quando forem elas as mães, não vão copiar, mesmo sem saber, este modelo? Teria valido a pena...


PARIS ( Post escrito na última noite em Paris) Estamos a deixar Paris. Esta é a nossa última noite nesta cidade maravilhosa. Já cá t...