quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014





PITADA DE SAL


Tem o choro fácil, é expressivo e quando se zanga, fala com gestos efusivos e grandes, acompanhando-os de uma voz rouca, como a da mãe. Zanga-se facilmente por sinal, mas também depressa lhe passa o génio, como um sopro que vem de repente e que também de repente se vai. É travesso e muito teimoso, exigindo um braço firme, assumido facilmente por mim sem grandes dramas. Afinal, acho, também sem dramas, que a Natureza é feminina e, por isso, prepara as mães, de antemão, com um radar supersónico que deteta coisas à distância e que lhes faz ter, para cada filho, a dose exata de tudo.  
E hoje, descontraído e travesso, este filho, vinha ao  meu encontro, já de carro quase em andamento. Deitou calmamente os papéis da fartura que comia, para o chão e, de esguelha, vi-o logo a fazer-lhe um reparo, enquanto passava. Percebi do que se tratava e percebi que quando reparou em mim, a mãe do infrator, corou e ficou muito atrapalhado. 
- Desculpe, não vi que o miúdo estava acompanhado... se tivesse reparado, não lhe teria dito nada, mas sabe, sou professor, estes reparos são impulsivos e, de facto...
Nunca o tinha visto mais gordo, era-me perfeitamente desconhecido, mas esta atrapalhação espontânea e um pouco desajeitada, misturada com uma certa cortesia, encantou-me, ao mesmo tempo que me apercebia do efeito que teve nele a minha sorridente resposta seguinte... - Sim, ora essa, também sou professora e mãe de três filhos! Agradeço-lhe o reparo, porque de facto, não se deitam papéis para o chão. Muito obrigada! O carro seguiu e vi, de esguelha, que ficou parado a olhar na nossa direção. Apostaria que estava espantado... 
Não faço ideia da resposta que estaria à espera que eu lhe desse, nem da surpresa que sentiu ao ver que eu reforçava o seu reparo, mas faço ideia das respostas que este professor, coitado, está habituado a ouvir na sua escola, dos seus alunos, dos pais e mães dos seus alunos. Daí o seu espanto e receio quando me viu, uma mãe que aparece, assim do nada, e agora? 
Sorri ao lembrar-me da cara e da ligeira atrapalhação e, de braço firme e dose exata de tudo, acompanhando um mini-sermão até casa, feito também de gestos grandes e efusivos e de voz rouca, agora em modo mãe, senti que é giro podermos receber de um desconhecido, assim de repente, uma pitada do nosso sal...