domingo, 9 de fevereiro de 2014




PINO MIRABÓLICO


Diziam-me que  - agora, ser bissexual está na moda, é o que está a dar Paula, a sério... Risos, gracejos...  
- O quê? A sério? Porquê que dizem isso? - perguntei, enquanto me lembrava de relatos esporádicos que as minhas filhas fazem relativamente a este assunto e àquilo que vêm na escola... - sim mãe, aquela (ou aquele), estava com uma, ou com um, a sério!! 
Ok, pronto, então 'bora lá falar sobre isso, digam-me o que acham, o que pensam, não será difícil ter um posicionamento crítico, não acham?

São muitos, ruidosos e distraídos. Têm todos entre os 14 e os 16 anos e estão comigo uma vez por semana, num contexto extra-escola. Conheço-os a muitos, desde miúdos pequenos e muitos são colegas de escola das minhas filhas mais velhas e têm, por isso, hábitos parecidos, maneiras de falar, expressar-se, vestir, parecidas...(estão naquela fase desenxabida em que se vestem todos de igual...); conheço-lhes a alguns, os pais e as mães e os contextos em que vivem e se movem e isso dá-me, naturalmente, algum ascendente para conduzir uma conversa agitada e com tudo para correr mal, porque gracejam muito, dizem disparates, perturbam, não estão com atenção, bichanam constantemente segredinhos ao ouvido de quem está ao lado, abraçam-se muito, sentem as coisas assim elevadas ao expoente máximo, enfim; reconheço que às vezes me sinto no meio de uma maratona, ou a fazer um pino mirabólico para que me oiçam, ou para que digam qualquer coisa de produtivo e não se destrua a intenção da COISA, mas consegui!
A conversa foi fluindo, com algumas dinâmicas a ajudar e foram falando disto tudo, do que vêm na escola, do que acham disto, da opinião dos Pais, das suas próprias opiniões e fomos girando num círculo apertado (eu ainda, num esforço hercúleo, de cabeça para baixo e pernas para o ar...) e chegámos aos afetos...  - é porque está tudo trocado, confunde-se tudo facilmente - disse ela.  - Há uma amiga mais especial, uma cumplicidade mais marcada e pronto, acha-se logo que é amor, desse amor, daquele assim entre um casal... 
- E tu, o que achas disso?   
- Não sei Paula, mas é o que é, digo-te eu...

Tem 14 anos e sintetizou quase tudo! Também acho que tem razão, independentemente da minha posição mais adulta, com mais lentes de análise e mais variações de perspetiva. Isso ali não interessava nada, naquele momento. De tudo o resto que se falou ali e se disse, do que se discutiu, partilhou e concluiu, retenho o ar conformado e seguro que me fez quando disse aquilo, como se fosse tudo tão simples que justificasse os danos (quase) irreparáveis que a falta de afeto traz e a confusão de carrossel que essa falta também traz a alguns sentimentos, porque não se questiona, não se pensa, não se posiciona criticamente, engole-se, sorve-se de imediato, como se o mundo fosse acabar e nos levasse com ele...
Mesmo ainda a fazer o pino, a respirar de pernas para o ar e com mais quase três dezenas de anos que ela, achei que ela estava cheia de razão...

  LEITE DERRAMADO Já estou submersa, naquela fase do meu trabalho em que só vejo papéis à minha volta e em que sinto que tenho ...