sexta-feira, 13 de outubro de 2017





CÉLULA PEQUENINA



-Quero que o meu filho se orgulhe de mim, esta ideia persegue-me todos os dias e estou constantemente a pensar nisto- dizia com ênfase. As outras que a acompanhavam lá participavam também da conversa trivial, naquele início de manhã. Não pude deixar de ouvir. As mesas de alguns cafés têm tudo menos privacidade e as conversas podem acabar por ser tudo menos secretas. E muitas, davam teses de doutoramento. Não pensei logo nesta conversa específica. O meu cérebro centrou-se naquele pedacinho de tempo em que ali estive, meio anestesiada e cansada por este ritmo profissional louco que tenho vivido e que me suga até às entranhas, esgotando-me as energias. Senti-me assim como uma ameba, parada, com um corpo de camadas gelatinosas que me tiravam o movimento e a reação. Sim, lá no fundo estaria o meu cérebro, qual núcleo pensante, mas ali naquela hora, não fiz uso dele. Só gozei o sol que me dava na cara, pus um sorrisinho parvo e não pensei.
Mas a frase voltou depois às minhas sinapses e questionei-me depois sobre o que ouvi.
Nunca me dominou esta ideia de pensar se os meus filhos têm orgulho em mim, no pai, em nós. Claro que tenho esse desejo. Não sou alienada e penso como qualquer mãe, mas isso não me persegue. Nem determina nenhuma das minhas ações com eles, ou seja, não faço isto ou aquilo SÓ para que se orgulhem. Não. Faço isto ou aquilo porque acho que está certo e acredito que essa verdade emocional passará pelos póros e pela vida como um testemunho de autenticidade e disso gostava sim, que tivessem orgulho.
Eu tenho um orgulho enorme nos meus Pais. Tenho um orgulho enorme na célula pequenina onde nasci e onde cresci, onde me estruturei como pessoa e onde aprendi, por osmose e por isso sem grande esforço, como é viver em família, ter um pai e uma mãe que se amam e dois irmãos com quem se partilha um palco de afetos.
Hoje, por circunstâncias várias, tive oportunidade de constatar com força qual é o tipo de Pais que tenho, que referência foram um para o outro, que referência foram e são ainda, a tantos níveis, para nós e de que forma saudável me fizeram crescer, equilibrando afetos, amadurecendo capacidades, depurando defeitos e apurando qualidades. Este processo não se esgota, continua em andamento, afinal, temos a vida toda para isso, mas foi ali que começou. E começou tão bem!
Estariam os meus Pais (demasiadamente) preocupados em que tivéssemos orgulho neles? Seria esse um pensamento que os perseguia? Creio que não. Foram só eles próprios, autênticos, seguros e sinceros emocionalmente, entre eles e connosco.  E bastou, bastou só. E foi tão bom.
Quem sabe não se passará o mesmo por aqui? Deus queira que sim! Afinal, a história repete-se e as referências, tendem-se a imitar, não é o que se diz? 
P.S. Olha quem diria o que haveria de vir de uma conversa ouvida num café?