terça-feira, 9 de junho de 2015




PAPPY

Lembro-me das conversas que mantinha, do grau de cultura e conhecimento que mostrava, um pouco de todos os assuntos. Lembro-me dos valores que mostrava estarem sempre por trás daquilo que fazia. Lembro-me do que nos transmitia da sua vida de trabalho. Lembro-me do efeito que a sua integridade tinha e tem em mim. Lembro-me que isso me edificou como pessoa. Lembro-me da solidez que sentia entre ele e a minha mãe. Lembro-me dos assuntos sérios que abordava connosco quando achava que sim. Lembro-me da seriedade que também púnhamos quando o ouvíamos. Lembro-me do que contava do seu pai e mãe e irmãos e irmãs e África e mar e deserto e sol. Lembro-me do sentido que a palavra família tinha para ele. Lembro-me da sintonia que agora adulta sinto, por tanta coisa que me dizia e que, quando era miúda, talvez ainda não entendesse. Lembro-me do seu pragmatismo e sentido prático que sinto que também herdei. Lembro-me do bálsamo que era para mim o saber que ele estava sempre ali, forte e seguro como um farol. Lembro-me da sensação de colo que sentia, como já tenho dito aqui. Lembro-me da dignidade que mostrou até ao fim, mesmo quando estava a morrer. Lembro-me da tranquilidade que nos passou, de que tudo iria ficar bem. Lembro-me que era sempre isso que eu sentia quando ele falava. Lembro-me de uma e de outra e de outra vez que lhe falei, em lágrimas, disto ou daquilo e do efeito que as suas palavras tinham em mim.

E hoje, tudo isto veio assim ao de cima, como uma ferida que eclode do cascarrão quando se dobra a pele. Sim, porque há dias em que estamos mais frágeis e sim, porque a vida não é cor-de-rosa como se vê em tantos touch screens.
A minha é de todas as cores...
E é assim, pappy...  Como um teorema matemático, infalível e dos mais absolutos que há, sei que nos dias mais escuros, me vai apetecer sempre o teu colo. Mesmo que já não estejas aqui comigo e mesmo que eu tenha este tamanhão todo!
É que as saudades doem mesmo, a sério e não passam...