sábado, 14 de setembro de 2013



PONTARIA


É muito raro levantar-me da cama, especialmente num fim-de-semana, antes do meu mais-que-tudo... aqueles minutos, às vezes logos, de ronha pura e simples  em que o sono profundo já foi para não mais voltar e só nos acompanha o toque suave do edredon e umas voltas para cá e para lá, preguiçosas e dormentes, são das coisas que mais gosto e às quais me rendo sem compaixão. Mas hoje foi diferente... Um barulho secosuave ritmado, fez-me acordar e levantar-me... Ao meu lado alguém dormia profundamente e ouvia-lhe a respiração ritmada, sinal de que o sono era profundo. O que eu ouvia era um ping-ping constante e brincalhão (como diz a canção), que batia insistentemente na clarabóia do teto e me fez levantar!! No dia 14 de setembro, eu acordava com o barulho da chuva!! Não podia acreditar! Levantei-me e, de facto, chovia persistentemente, aquela primeira chuva dos finais de verão que nos leva a não acreditar muito nela, até porque se faz acompanhar de uma temperatura tépida e agradável. Vi logo que hoje estava uma humidade teimosa e chata... resquícios de África no meu ADN? Talvez, mas fui impulsionada por uma mola de despertina e fui a correr ver, da janela que tenho e que dá para o jardim... Era giro o contraste da chuva miúda, grossa e persistente, com um bikini estendido lá fora e mais uma toalha de praia e mais uns chinelos e tudo o resto, evocativo de um verão ainda tão presente!!
Não pude evitar o cheiro da terra! Inspirei profundamente e apeteceu-me, de repente, fazer um café com leite, bem quente e pão com manteiga... só, assim, puro e simples!! Fui acordar o mais-que-tudo... que disparate estar a dormir com uma alvorada destas! Então madruga todos os dias e hoje está a dormir?? Qual quê!!! O convite para um pequeno-almoço a dois, tão simples e caseiro como o que eu lhe propus, acabou por ser mais tentador que a preguiça e lá nos sentámos os dois, na cozinha, de frente para o jardim, a cheirar a caneca tão quente e fumegante, o pão tão caseiro, com manteiga, só manteiga!! Este momento foi tão pequeno, mas tão grande... a casa dormia, os miúdos, claro, nem se ouviam, o dia que começava adivinhava-se entediante, por uma serie de coisas que teríamos que fazer, mas este bocadinho, breve, foi o suficiente para me abrir a alma, ajudada por este bocadinho de chuva e pelo que ela trazia atrás de si, como se as coisas tivessem uma paleta invisível de outras coisas que as compõem e que as fazem ser o que são, sem mais nada... Por frações de segundos pensei no ano letivo que se iniciava para todos, na semana que começaria 2ª-feira e no que teria que fazer, nas urgências do fim-de-semana que estava a começar assim, desta forma tão inesperada e na sorte que tinha de poder estar ali, acompanhada do homem que escolhi para mim, ainda feliz, ainda realizada e como isso vem assim, sem avisos, com apontamentos de coisas tão simples... para quê complicar?... faz parte!!!
A caneca de leite foi chegando ao fim, acompanhada de alguns silêncios que nos absorviam aos dois, como se estivéssemos envolvidos demais naquele NADA tão grande, mas no final, talvez estivéssemos mesmo a falar das mesmas coisas, quem sabe? 
De repente, um... MÃE?? Este chamado preguiçoso e ensonado dava conta de que aquele momento mágico acompanhado da chávena de café com leite (a magia é sempre feita por nós, onde nos apetecer...) chegava ao fim... Lá fui... já estás acordada? Sim, é estranho, não é? E que voz é essa, filho?? Dói-me a garganta, custa-me muito a engolir e dói-me a cabeça.... E pronto, QUE PONTARIA... ao mesmo tempo que lhe punha os lábios experientes na testa, vi o filme do resto do fim-de-semana e vi a urgência de assegurar uma semana de aulas que agora começa, teimosa e certeira, imune a contrariedades que surjam, como estas, das crianças. O meu cérebro, a mil, rapidamente delineou estratégias de solução que, rápida, transmiti ao pai... As coisas entediantes do fim-de-semana, em segundos se transformaram noutras e noutras e noutras coisas a fazer e sítios onde ir e com uma pontaria minha, também teimosa e certeira, tudo se transformou de repente! Para quê complicar? Também faz parte!!