quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017





IMPACIÊNCIA (quase) CRÓNICA

Eu estava sentada no carro, prestes a sair para ir beber um café, numa daquelas meias horas paradas entre uma coisa e outra. Passou com o filho pela mão. O miúdo teria 4, 5 anos, por aí e ele era novo, engravatado, estilo yuppie. Vestiu-lhe o casaco, falou-lhe suavemente e reparei que tinha qualquer coisa na mão. Parou com o miúdo mesmo em frente ao meu carro e não pude deixar de observar. Estava muito frio nessa manhã e o que tinha na mão era um frasquinho pequeno, de creme com o qual rodeou cuidadosamente a boca e queixo do miúdo. Reparei que o fez com cuidado. Passou-lhe a mão com muita calma, repetindo os movimentos, quase acariciando e no fim deu-lhe um beijinho e compôs-lhe a gola do casaco. Lá seguiram de mão dada para uma escola ali ao lado. Percebi logo que ia levar o miúdo (filho?) à escola àquela hora da manhã.
Ando impaciente, irascível quase... E depois, como sou mais prática do que estética (expressão minha que costumo utilizar para justificar a minha falta de paciência para pormenores lindos, mas completamente fúteis e inúteis), que é o mesmo que dizer impaciente para certos pormenores que só atrapalham e não nos facilitam a vida, deparo-me muitas vezes com a circunstância de achar que há tanta coisa que não faz sentido e na qual todos investimos, investimos, investimos sem fim...
E então é como se me visse ali ao lado, num filme, muitas vezes. É como se a película se desenrolasse ao meu lado e eu estivesse de fora, a ver todos os intervenientes e a achar que tantas vezes é um desperdício determo-nos em tanta coisa sem sentido. Não há paciência para certas coisas, não há mesmo e ultimamente tenho-me sentido assim. Com uma sensação de impaciência crónica, visceral, endémica...
De facto, o espírito prático acelera procedimentos e simplifica questões. Apressa decisões e agiliza aqueles-durante-que-nunca-mais-acabam. E faz-nos (faz-me) lidar tantas vezes com a impaciência, devolvendo-me uma humildade de que também preciso quando lido com outros diferentes de mim.
E então, a lembrança daquele pai a fazer aquele gesto àquele filho, fez-me lembrar um post velhinho, velhinho, de 2012 e quase senti ali o cheiro a Mustela, ou outro creme que tal. É que sim, eu sei que na verdade e apesar de tudo, não são só as mães que fazem isto e aquele gesto, visto do banco do meu carro, na pressa, minha e deles, da manhã, eterneceu-me. E desejei, a sério, desejei mesmo que a impaciência de que se tem povoado a minha existência nos últimos tempos, não me faça perder a capacidade de me continuar a encantar com gestos destes que tais. Todos, com cheiro a Mustela.








*Yuppies é uma expressão inglesa que significa "Young Urban Professional", ou seja, Jovem Profissional Urbano. É um termo usado para se referir a jovens profissionais entre os 20 e os 40 anos de idade, geralmente de situação financeira intermediária entre a classe média e a classe alta.
in - www.significados.com


terça-feira, 14 de fevereiro de 2017





QUERES NAMORAR COMIGO?


Fogo, sou mesmo foleira. Com esta idade e ainda a ligar a estas coisas de Dia de São Valentim e tal... Paciência. Corro o risco. 
Na realidade, não ligo muito e sabes que te (nos) faço dedicatórias quando me apetece, sem datas de calendário. De impulso. Para mim, estas marcações de calendário servem para aquilo que nos apetecer, mais nada. A sério. Mas pronto, achei piada a este cartoon. E apeteceu-me.
O que pode haver de romântico nas idas ao supermercado de todos os dias? Nada... 
Nas logísticas de horário? No stress? Nos problemas? No desgaste? No cansaço? No feitio insuportável de um e de outro, às vezes? Na saturação? 
Nada, absolutamente nada...
Mas e se for tudo isso que testa? Que põe à prova? Que arrisca o passar do tempo? Que experimenta o desgaste para ver se resiste? Se mescla com outras, tantas, tantas, tantas, coisas boas e no fim resulta numa coisa super fixe?
E se no fim se vir que sim? Que afinal se passa no teste, se passa na prova, se ganha o risco? Se resiste? Se continua a encantar? Se continua a ter um brilhozinho nos olhos? Um friozinho na barriga? Se se ocupa um espaço só dos dois tantas vezes? Sem filhos? Sem mais nada? E se vê que isso é tão bom e tão importante? Com tranquilidade e segurança ali metidas, dadas pelos anos passados, pelo projeto, pelo futuro e assumidas assim como que pilares de felicidade também? E isto mesmo com cabelo a menos, peso a mais, feitio mais rebuscado...
Pois é, não é fácil isto, mas pode ser maravilhoso. Aliás, é maravilhoso, acho...
Queres  namorar comigo?
Luv U!!



quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017





AFETOS, SÓ AFETOS...

(conscientes e lúcidos, construtivos e firmes...)

É mal disposto e às vezes agressivo, não gosta de (quase) nada e gere muito mal as frustrações, lê mal, escreve pior e não se interessa por nada que a escola lhe pode dar. Os centros de interesse são mínimos e muito fugazes. É uma complicação levá-lo a fazer o que quer que seja e é uma complicação transformar-lhe esta escola, tão formatada. Os seus comprometimentos cognitivos traçam-lhe um perfil próprio do qual pouco se pode fugir.
Estava hoje com ele em contexto de grandessíssimo grupo. Senti que não estava ali, distante de tudo o que ia sendo dito. Perguntou várias vezes se podia sair. Que não, que tinha que estar, que era importante ouvir o que lhe dizem, que a vida é mesmo assim, que não podemos fazer só o que queremos. Suspirava e resmungava baixinho. Às tantas, encosta a cabeça no meu ombro e vai ficando. Deixei, pois já percebi que com ele não posso bater de frente. A afetividade ainda o vai levando, em progressos mínimos, coisinha aqui, coisinha ali, levando uma doçura muito firme a auxiliar-me nesta luta para a SUA aprendizagem.

Ao final da manhã veio ter comigo. Puxava-me pelo braço, interrompendo o que eu falava, tentando virar a minha cara para si. - Professora, professora, por favor... Queria que o ajudasse a escolher uma frase secreta, de amor, para ela, professora, queres ver a cara? Mostrou-me a foto no telemóvel e os olhos brilharam-lhe. - Isto não tem forma, nem tempo, nem regra- pensei. - Cabe em qualquer coração, seja o cérebro de que forma for.  - É gira, ela, e como se chama? - perguntei - Ajuda-me, professora, quero escrever uma coisa bonita. 
Agarrei a oportunidade e juntei computador, pesquisa, leitura, escrita, cópia, dobragem, colagem e composição em prol da mensagem secreta que queria construir. Minutos breves, fugazes, mas sugados até ao tutano e transformados em oportunidade. - Ainda bem que estamos aqui sozinhos, professora. Não contas a ninguém, ok?
- Fica descansado -  prometi-  É um segredo nosso.
O meu coração viajou logo para aqui. , hoje com outra cara, outro corpo.
Pois é... Não há aprendizagens (quase nenhumas) que ainda sejam possíveis aqui. Não há metas, descritores, programas. Não há currículos formais que auxiliem atividades, na sombra como orientadores de práticas.
Há afetos, só. 
E com eles, vamos avançando... e bem, acho eu.



  P.S. E nestes episódios assim, é sempre da voz de uma colega querida que me lembro, quando lhe abria o coração e       perguntava, - "Mas o que faço? o que ensinarei? achas que...? Devo mesmo ir por aí? E ela me respondia... -"Paula querida, esquece as aprendizagens, esquece... Afetos, só afetos, conscientes e lúcidos, construtivos e firmes e por aí, conseguirás tanto!"









LUZ E SOMBRAS


Disse-me, com a lágrima no olho, que não se imaginaria sozinha, que são casados há 49 anos, que isso é uma vida. Como se aprende a viver sozinho, depois de 49 anos em comum? Também não sei. Não consigo imaginar. Calculo que seja mais ou menos como perder-se um pedaço, mesmo cortadinho ao meio, que nos deixe assim incompletos e difusos numa realidade nova.
Lembrei-me e disse-lhe que é uma graça viver-se um casamento assim, ser a solidez um do outro, construir uma história, abraçar um projeto a meias com alguém. Lembrei-me que todas estas histórias longas de amor terão luz e sombras. (Gostei desta expressão, luz e sombras, desde há pouco, quando a li, a propósito do casamento). Disse-lhe que era uma sorte ter um companheiro assim, ter essa referência e tê-la passado para os filhos e neto. Sei que assim é com as mensagens mais profundas: passam pelos poros, mesmo sem ser preciso dizermos nada. Passam e pronto, subtis, à boleia dos afetos e das redes familiares que são as únicas que nos constroem, porque são as únicas onde nos mostramos de verdade. Um palco gigante, onde somos os mestres de cena. Mesmo que sejam redes, ou palcos grandes e barulhentos, agitados e um pouco loucos. 
Fez-me bem aquele pedacinho com ela, mesmo naquele sítio cheio de gente, ruidoso e impessoal. Acho que recebi muito mais do que dei. É assim, quando estamos de frente para qualquer coisa grande, muito grande e tão simples, ao mesmo tempo.
E percebi que os grandes amores têm sombras, muitas sombras, daquelas que às vezes nos puxam a lágrima e embargam a voz, lembrei-me que às vezes não poderemos fugir delas, porque nos chegam pela vida de todos os dias, pelo desgaste, pelos problemas, pelo desânimo e preocupações, mas percebi também, enquanto a ouvia naqueles breves minutos, que esses grandes amores terão, se calhar, uma luz infinitamente maior.
Sei que ela não deu por nada, mas hoje, gostava de lhe agradecer.


P.S. A foto não é das melhores, mas e tempo para renovar o reportório? Pois...

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017




PORQUE NÃO GOSTO DO TRUMP

(Fortemente...)

De facto, não sou americana, sou portuguesa e, de facto, não sou acutilante com as questões políticas como outros, o que faz com que tenham opiniões hiper fundamentadas sobre as coisas que sustentam os líderes políticos na base e retaguarda e que vão para além da imagem e de algum eventual (pouco) conhecimento. 
Sim, de facto não sou assim. Mas sou sensível à imagem que as pessoas me transmitem e, sobretudo, à simpatia que me inspiram. Esta, a simpatia, servirá sempre de barómetro para eu "avançar" (ou não), por elas "adentro".
E não simpatizo com o Donald Trump. Pronto! Isto é ponto assente para mim.
Não simpatizo com o seu discurso primário, nem com a sua propaganda. Reconheço que uma hiper globalização pode descaracterizar, tirando identidade, sobretudo a quem é inseguro e tem alicerces frágeis. Reconheço que, talvez por isso, o seu discurso "caia como uma luva" numa franja muito grande de gente que gosta daquilo que ele diz e se ilude com uma causa nacional, que de CAUSA acho que tem pouco. Mas mesmo assim, dando-lhes esses benefícios todos de dúvida, não consigo gostar dele. 
É que, por mais que palavras como instruçãoculturaliberdadefraternidadeacolhimentoabertura/ ajuda/ humanidade  (e outras) possam parecer clichés fora de moda, acredito que só assentes nelas seremos melhores e acredito mesmo que o maior desafio seja esse: sustentarmo-nos nesses valores e avançarmos na mesma, modernizando-nos e aprendendo sempre connosco e com outros. Há líderes perfeitos? Se calhar não há, mas tenho dúvidas que um líder primário, com um discurso protecionista e fechado ao mundo, violento e (quase) boçal consiga fazê-lo.
Cá por mim, mesmo que me venham dizer que ele ," ah e tal, mas assim e mas assado", continuo a não gostar dele... 
Fortemente!



P..S Cartoon retirado de PINTEREST
poilitcalcartoons.com

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017







CARTILHA





Descomplicar procedimentos, sem lhes retirar rigor ou importância. Ter a certeza de que isto, no trabalho, é essencial. Conseguir dar essência, sem cair no exagero que afasta. Interagir com pares e integrá-los nos processos. Ter no cérebro compartimentos para cada coisa e que aciono e ligo, desligo, ou adio quando quero, ou necessito. Gozar dessa gestão só feita por mim. Ter no meu dia espaços e horas para cada coisa que aparece. Não abdicar daquilo que me equilibra e estrutura. Fazer frente às tarefas que surgem imperiosas. Resolvê-las de pronto e dar-lhes seguimento. Processar informação, retirando conteúdo. Lembrar-me do pormenor com este ou com aquela. Fazer com isso, toda a diferença. Fazê-lo porque sim e porque daí se fica especial. Pôr esse especial ao serviço dos outros. Não abdicar do que me é mesmo essencial. Filtrar o acessório e até dele me rir. Servir-me do humor para elevar o espírito. Refilar q.b daquilo que me irrita. Dosear o génio com os que me rodeiam. Sorrir, sorrir muito e assim lavar a alma. Cultivar a paciência como via para crescer. Conseguir fazer isto, um pedacinho de cada vez. Gozar da sensação de se ir conseguindo. Ter dias de caos em que não se faz nada disto. Ter outros em que até se consegue um pedaço
Saber, enfim, que a vida é isto: para a frente e para trás, traçando caminho.
Ter esta cartilha e às vezes repeti-la. Escrevê-la. Dizê-la. Até decorar. Mal não fará e purga o pessimismo.
Tenho dito.



quarta-feira, 25 de janeiro de 2017




MÃES DE TRÊS




Tenho várias amigas que também têm 3 filhos, como eu. Sentem, como eu, a elasticidade do coração, parecendo que estica, estica, estica como um balão e alcança todas as pontinhas afastadas, onde estão cada um dos seus filhos. Sentem que para cada um têm de ter um suporte de amor e ternura igual, mas uma forma, estratégia, alcance diferente, pois sabem que cada um é diferente do outro. Sentem, como eu, o esgotamento ao final do dia. Têm, como eu, o espírito prático que lhes devolve a rapidez de atuação e lhes dá uma descontração natural para coisas que poderiam parecer mais complicadas a outros olhos. Fazem, como eu, trinta coisas ao mesmo tempo, exercitando uma capacidade dada pelos anos e por três filhos seguidos e (muitos) anos de fraldas em casa. Desdobram-se, como eu, em atenções e prioridades, gerindo um equilíbrio nem sempre fácil entre logísticas, afazeres, prazeres, hobbies e calendários e filhos, mimo e atenção. Sentem, tal como eu, que mesmo que mais crescidos, os filhos, serão sempre mestres na absorvência que fazem da atenção da mãe. Exasperam, como eu, quando lhe sugam o tutano e reclamam para si próprias, mães normais, uma vida pessoal equilibrada e preenchida. (Esta, devolve-lhes também a paz de que precisam). Têm, tal como eu, companheiros de projeto de vida, com quem partilham, vivem, dividem, amam e sofrem. Sentem, como eu, o amor partilhado e o bem que isso faz à pele, ao corpo, à disposição, à alma.
Estas minha amigas são mestres na maternidade vivida e dividida por três, como se os seus corações fosses elásticos, como digo às vezes, nesta viagem vitalícia de ser mãe para sempre.
E depois tenho outras que só têm um filho, ou dois, ou nenhum. E são maravilhosas também, com sintonias comigo que as trazem para mim, gerando um cumplicidade boa de gente que se gosta.
Mas de facto, na correria de vida que temos, com trabalhos esgotantes e absorventes, com solicitações que nos agendam os dias, com preocupações pendentes e com logísticas para gerir, equilibrar os afetos dos (vários) filhos com qualidade, fazê-los crescer completos e verdadeiros, será certamente o maior desafio. Tenham eles a idade que tenham. Por isso, acho mesmo que a natureza é feminina, do mais feminina que há, ehehe...
E hoje, podendo este post ser sobre amigas do peito, quis torná-lo sobre mães. De três... 

PS. É avassalador o "baque" que me dá quando vejo fotos como esta. É que o tempo passa, de facto, sem contemplações e tão rápido que nos atordoa, às vezes...

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017


LET'S GO MOVIES!


Os livros e os filmes serão sempre do agrado, ou desagrado mais íntimo de cada um. Quero com isto dizer que a mensagem desses livros, ou desses filmes, será lida individualmente por cada um, traduzindo-a segundo os códigos de análise próprios que temos, ou devemos ter e segundo os estilos de que cada um gosta. E acho mesmo que é um exercício de inteligência filtrar/processar o que lemos/vemos à luz dos nossos códigos de análise. 
E isto é absolutamente livre.

Foi isso que me aconteceu ontem quando vi o filme  SILÊNCIO, de Martin Scorsese, adaptado do romance homónimo do escritor japonês, católico, Shusaku Endo. 
É um thriller espiritual que relata um período da história do Japão, chamado período de Edo (de 1603 a 1868) onde, entre outras coisas, se baniu o Cristianismo do território, usando uma variedade enorme de mecanismos violentos de controle sobre a população.
Através da busca do Padre Cristovão Ferreira, acusado de ter apostatado, (renegado a sua fé) dois seus antigos alunos (Sebastião Rodrigues e Francisco Garupe), seguem para o Japão, duvidando de tal ato e procuram-no, confrontando-se com uma realidade muito cruel para com as pequenas comunidades cristãs ainda existentes e também com a verdade de tal acusação. Um deles, acaba também por apostatar quando, mais tarde, perante um sofrimento atroz que poderia ser infligido a outras pessoas, opta por renegar as suas convicções mais profundas.

Gostei do relato dos episódios históricos, ou não gostasse eu de História. Gostei da interpretação de todos, mas especialmente de  Andrew Garfield, no papel do Padre Sebastião Rodrigues. Gostei da forma como se desenlaça o dilema fé/apostasia. Gostei do percurso interior e denso das personagens. Gostei da interpelação/busca das pretensas respostas de Deus que todos temos, tantas vezes. Onde Estás? Porque não Te manifestas? Gostei da constatação de que Deus está e fala tantas outras vezes no SILÊNCIO (e esta já é a minha interpetação). Gostei de ter concluído (outra interpretação) que houve uma vitória secreta e íntima da fé cristã. Gostei de ver que a fé não tem, muitas vezes, um caminho triunfante e épico, mas que cresce sim, em linhas curvas, nos pontos de rutura, onde nos restam poucas certezas (-José Maria Brito, in Jornal OBSERVADOR, crónica de 3/12/2016.) Gostei de entrar nas sombras mais profundas da fragilidade humana e recordar que a última palavra é de Deus. (-José Maria Brito, in Jornal OBSERVADOR, , crónica de 3/12/2016.).
Gostei enfim, do poder sublime do cinema que nos leva para fora de nós, às vezes.
Por isso, um livro, ou um filme, melhores, ou piores, serão sempre um bom exercício: livre e (quase) terapêutico. Experimentem!

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017




O BLOGUE É MEU
(e agora?)


- Há amigas minhas, mãe, que estão sempre à espera de um post teu...
- A sério? Vê lá e tu às vezes nem os lês, já viste?
- Oh, leio alguns, aqueles que têm uns títulos mais apelativos...
- Ah, então é uma questão de título, é?
Sim, sei que há pessoas que me lêem assiduamente. Muitas me têm dito isso, o que não deixa de me causar surpresa, na minha humilde e relativamente recente descoberta da blogosfera, que é o mesmo que dizer, da partilha pública do que escrevo. 
Já o disse muitas vezes. Escrevo porque escrevo, escrevo porque sim. Sem pretensões. Só mudei agora o suporte, porque caderninhos pretos, sem linhas, sempre tive e desabafos de alma para o papel também.
E por isso escrevo sobre ti, muitas vezes, embora saiba que não gostas muito. Mas pronto, o blogue não deixa de ser meu e tenho eu também o último e decisivo feeling. Sei que não gostas, mas não te opões, o que legitima em absoluto que eu o faça. Respeitas, vá lá...
E é com todo o respeito que o faço, pois escrever sobre ti ou sobre os miúdos, é escrever sobre mim, as minhas coisas e o que sinto no mais fundo de mim.
E é por isso que o faço sem razão nenhuma especial para que aconteça. Só porque sim, porque me apetece e na maior parte das vezes à primeira, sem correções. Num impulso.
E hoje assim foi. Apetite, impulso, click.
E é assim, meu amor. Não gosto de dormir abraçadinha, em conchinha, como se vê nos filmes. Não acordo deslumbrante e dengosa, como nos filmes. Sou sempre mal disposta de manhã, preguiçosa e irascível. Muitas vezes não te digo palavras maravilhosas na altura certa. Grito, barafusto, fecho a cara em impulsos de génio que passam logo a seguir. Sou emotiva, temperamental e descontrolada, às vezes. Mas amo-te no mais profundo de mim e penso em ti muitas vezes durante o dia. Gosto da segurança que construí contigo e da sensação que me dá pensar em nós. Um nós seguro, calmo, equilibrado e completo. Um nós antigo e denso, com história e futuro. Um nós que persiste, à parte do que temos para lá de nós. Um nós que continua a atrair-me, apesar do peso dos dias e da vida que é real e não virtual e que, por isso, traz a reboque um pack de problemas triviais. Um nós que é como é, sem filtros cor-de-rosa, ou imagens de revista. Um nós que é nosso e pronto.
E é isto, sem mais nada de especial. 
E escrevo-o aqui, porque me apeteceu e agora?
Afinal, este blogue é meu, certo? 




P.S. E adoro esta foto...

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017





PROFUNDEZAS DA ALMA


Quando li este post, deste blogue, lembrei-me do momento em que assisti, em direto, às cerimónias fúnebres de Mário Soares. Naquele momento davam em todas as televisões e era difícil não se assistir ao momento. Lembro-me de ter apreciado o peso do protocolo e de pensar o tão pouco que estamos habituados a vê-lo, ao protocolo, assim tão imiscuído em cerimónias a que assistimos. Lembro-me de ter apreciado genericamente os discursos que ouvi das figuras de Estado. Lembro-me de ter achado a intervenção do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, tão bonita, tão evocativa da beleza da portugalidade, mas se calhar algo afastada, em termos de vocabulário empregue, do português médio. Lembro-me de ter gostado muito da intervenção dos filhos, que falaram ali de um pai rochedo-farol-pilar, como teria que ser e como isso me fez lembrar do meu pai-rochedo-farol-pilar. Lembro-me de me ter comovido com a voz que tremeu da filha e de ter pensado que o que nos está nas profundezas da alma nos fará sempre tremer a voz e lembro-me de ter ouvido este poema na voz de Maria Barroso, já falecida e de ter eu ficado comovida.
Achei o poema de Álvaro Feijó deslumbrantemente bonito e super bem entoado. Achei a declamação uma homenagem profunda a duas pessoas que se amam. Achei-o um legado de amor deixado por aquele que morre primeiro. Achei que a morte, ao invés de feia e triste, pode trazer assim, atrás de si, momentos profundos, verdadeiros e bonitos. Achei que não estamos habituados à morte e que fugimos do tema, da cor e da lembrança. Achei que vê-la, à morte, ser, assim, um mote para um momento bonito, pode ser interpelador.
E achei, com o post deste blog, que não sou (fui) a única a pensar assim.


 P.S. Pois... e agora para o meu mais-que-tudo, é verdade, verdadinha que quando eu morrer, se for primeiro que tu, gostava mesmo que te lessem uma coisa assim... é que também acho que o amor (verdadeiro) não morre, apesar da morte.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017





BIG BROTHER






O blog da Rita Ferro Alvim, SOCORRO SOU MÃE, falava nisto, neste post http://www.ritaferroalvim.com/2017/01/os-controlos-dos-tempos-modernos.html#.WG-Rf1OLTIU.


Isto fez-me pensar... pode ser tentador, mas acho que é altamente preverso. Ter um aplicação no Smarthphone para controlar os filhos a toda a hora? Minuto a minuto? Com quem estão? Onde estão? O que comem, o que bebem? Céus, para além de me parecer horrivelmente chato, acho que é de uma falta de... (até me falta a palavra certa aqui)  concessão de espaço? Privacidade? Ética?
Resolve um problema aos Pais? Não me parece... se calhar arranjam mil outros problemas a seguir. Como farão depois a gestão da ansiedade?
Enfim, a mim parece-me que se deve responsabilizar os filhos sim, por dizer, relatar, dar contas do que fazem (é aliás, a sua obrigação), mas autonomamente, sendo sempre os primeiros agentes daquilo em que se envolvem, sentindo que os Pais supervisionam, cuidam, zelam por..., mas não os substituem, não controlam retirando o ar que se respira, ou o espaço que se pisa. Se assim não for, como se tornarão autónomos? Como crescerão devidamente, ao lado de tudo aquilo que os rodeia e que nem TUDO É BOM?
Pois... Como manterão a capacidade crítica e de filtro? Como equilibrarão responsabilidades e ações?
Pois é, pois é... haja filtro então, e muito! É que senão, perdemos mesmo o norte...

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017






BABOSO CORAÇÃO DE MÃE


São diferentes como a água do vinho. De uma, lembro o parto provocado, porque não se decidia a nascer. Da outra, o dia certo previsto e a pressa já desde aí. De uma, lembro a calmaria que era e o tempo que ficava sentada a brincar numa manta de chão com tampas de tupperwares, tampas de panelas e molas da roupa. De outra, lembro o vendaval que provocava e a fila de coisas que ia deitando propositadamente ao chão, à medida que ia passando e do dia em que (quase) se enfiou na máquina da roupa. De uma lembro que tinha que acordar para mamar. De outra, lembro-me os choros cheios de génio irado quando se atrasava para comer. De uma lembro o cedo que começou a falar e o bem que se expressava. De outra, lembro o super cedo que começou a andar e o super cedo que começou a trepar por tudo também. De uma lembro a simpatia imediata que provocava e que recebia. Da outra, lembro o olhar mais fechado, medindo o que a rodeava, auscultando primeiro, para dignar-se a um sorriso depois. De uma lembro o gosto pelo estudo, o método e a organização. Da outra, lembro a rapidez de aquisição, a facilidade, mas o não tão rigoroso primor. De uma lembro a capacidade de análise e ponderação. De outra, lembro as escolhas rápidas, decididas e às vezes impacientes para o que não (lhe) interessa.
Sim, são diferentes como a água do vinho, a doce e a agridoce, disse-me uma vez alguém. Sim, daí o nome deste blogue, como já dizia aqui.
E sem razão nenhuma de especial, apeteceu-me hoje escrever isto, só de olhar para estas fotos...





É que às vezes, os clicks surgem assim, do nada.
Que a maravilhosa diferença que vos distingue nunca vos separe. E à vossa maravilhosa diferença e ao meu baboso coração de mãe, posso juntar mais o vosso irmão. A pitada de canela que me faltava, como esse alguém me disse também. 
Mas para esse, só para esse, valerá outro post... Inteirinho!

sábado, 31 de dezembro de 2016





12 PASSAS


Acho que o meu sentido prático de todos os dias, faz-me viver as datas e as coisas com isso mesmo, um sentido prático, despido de pompas e circunstâncias que às vezes só atrapalham. Assim, tenho alguma dificuldade em encher de solenidade datas como as de hoje, fazendo retrospetivas exaustivas do que foram os dias para trás deste (esquercer-me-ia decerto de alguma coisa importante e que chato seria isso...) e elencando desejos e anseios para os dias que se lhe seguirão. Vivo o dia de hoje e pronto. Confesso até que o início de cada ano letivo, 1 de setembro, é para mim esse sim, o início de um verdadeiro novo ciclo de rotinas, movimentos, ritmos e atividades depois da longa e deliciosa anestesia de férias.
Mas pronto, não retiro completamente ao dia de hoje a carga que o calendário civil lhe dá e procuro vivê-lo com a festividade possível e rotineira. Até levo as 12 passas e beberico o espumante como manda a tradição. 
E assim, rodeada de amigos, muitos, e a confusão saudável e habitual, passarei a meia-noite e fecharei os olhos para num trago de 12 passas resumir todos os anseios possíveis e desejados para o novo ano. Será um momento rápido e nunca exaustivo, esse da meia-noite e sei que o resumirei a uma ou duas palavras sentidas cá dentro, determinadas e gerais para nelas tudo o que anseio caber, assim como sei que uma onda suave de nostalgia me vai passar pelo pensamento em flashes, porque me lembrarei do Nuno e do meu pai, porque os quereria ali perto de mim, porque a lágrima fácil disso me lembrará, porque sou assim e não há nada a fazer e porque não sou completamente imune a estes determinismos de calendário que nos incendeiam o coração.
Mas também sei que estarei com este coração cheio e agradecerei todas as graças do ano que acaba e pedirei todas as outras para o ano que começa e que desconheço. E isto, contigo perto de mim, talvez até com a minha mão na tua, ou com a cabeça no teu ombro. Aí, nesse momento caberá tudo aquilo que quiser sentir. Sem ser preciso mais nada. 
Há maior graça?

FELIZ 2017