quinta-feira, 6 de junho de 2013



LANTERNAS VERMELHAS


(-Oh Paula, mas porquê que temos que comer tão rápido?  - L, 5 anos)

Digo-lhes sempre: "- enquanto viramos a página e observamos a imagem, não há comentários, não há dispersão... vamos deixando que a história entre bem na nossa cabecinha e que nos ajude a percebê-la, vamos deixando que as imagens nos ajudem a completar o que ouvimos primeiro" e vou repetindo: " guardamos o que queremos dizer aí na cabecinha... já falamos todos no fim, senão a nossa história vai ficando interrompida!! É como se fizéssemos uma ginástica ao pensamento".(riem muito, acham graça a esta parte do pensamento a" fazer ginástica"...).
Este fenómeno é novo para mim! Lembro-me que contava uma história, sempre ajudada pela expressividade facial, vocal e gestual que acho que todas as Educadoras têm e o impacto no grupo era estrondoso... um silêncio, uns olhinhos que "bebiam" o que viam e umas caras de quem ouve com toda a atenção do mundo, como se as coisas lá fora tivessem parado de correr e só houvesse aquela história, naquele momento! Já não vai sendo assim, pelo menos com a mesma forma visível... Embora a hora do conto continue a ser um momento mágico e eu não abdique dele (porque sim e só porque sim, porque já não me apetece esgotar mais e explicar mais os argumentos comprovadíssimos das coisas boas que isso traz!!!), não tem a mesma forma que tinha há uns anos... Continua encantador na mesma, mas não de forma igual! E assim o encanto das coisas, vai ganhando outros tons...

Hoje falava com um grupo de colegas sobre a rapidez com que os miúdos fazem as coisas, sobre as suas capacidades de concentração que são bem menores do que eram há uns anos, sobre o burburinho constante que se ouve na sala, sobre a forma de fazerem as coisas sempre a falar, sempre a mexer-se, sobre o número de conhecimentos que têm sobre tudo, sobre o ritmo alucinante em que vivem, indo para aqui e logo para ali, sabendo que a seguir vão para acoli e depois ainda para outro sítio, fazer outra coisa, à espera não sei de quê!!! Palavras como calma, descanso, ócio, lentidão, lazer, vão desaparecendo das suas vidas e também das nossas, se não tivermos cuidado! 
De tudo isto falava com um grupo de colegas que sentem o mesmo. Depois falei do meu grupo, que é parecido a tantos e tantos grupos que outras colegas também têm... É um grupo super interessado, participativo, conhecedor de muitas coisas, mas super, hiper barulhento. São miúdos autónomos e capacitados para se situarem e deslocarem no espaço da sala sozinhos, sabendo o que têm de fazer e gerindo as etapas das suas atividades. São ávidos de fazer mais e de saber mais, mas naquela sala não há silêncio... há um burburinho constante e uma barulheira que às vezes não é fácil moldar e lá me vejo eu "a braços" com uma agitação constante, barulhenta, resistente, mas... proativa, acho!!!
De facto, penso que este caminho será irreversível e os grupos serão cada vez mais assim! A vida está diferente, os ritmos, solicitações, exigências, estruturas familiares e escolares, as prioridades, tudo está diferente e só nos resta/me resta adaptar-me, acreditando numa plasticidade e capacidade de adaptação que temos que ter, sob pena de ficarmos obtusos, frustrados e, sobretudo, ultrapassados.
Sei que sim, será por aí e tento fazer isso constantemente, apelando a capacidades que sei que tenho e a outras que vou descobrindo, mas confesso que para o equilíbrio ser total, terá que haver também na nossa vida (e na deles, sobretudo, porque ainda estão a crescer...) um espacinho para o silêncio, para a lentidão, para a calma, para o deleite simples e só das coisas, para um descanso que não é só à noite para dormir, como se isso fosse um cantinho saboroso para onde vamos fugir às vezes, quando nos apetece. É o que fazemos também nós, mesmo adultos!! As lanternas vermelhas do stress e agitação acendem todas ao mesmo tempo e lá nos defendemos nós, criando momentos, espaços, fugidas à rotina e isso sabe tão bem!!! Os miúdos são pessoas pequeninas, com as mesmas necessidades e com lanternas vermelhas que também acendem por todos os lados e que nós podemos bem ver, através de comportamentos que são espelhos límpidos do que se passa nas suas alminhas! Também precisam disso tudo, sim senhor, às vezes não sei é se as escolas estão preparadas para isso... mas deviam!!



terça-feira, 4 de junho de 2013

O MEU AGRIDOCE...
Quando eu tinha treze anos, a minha avó materna vivia connosco. Éramos pois, seis pessoas lá em casa. Eu e o Nuno éramos, julgo, adolescentes normais e o João, muito mais novo, diferente nos centros de interesse e assuntos, mas meu acompanhante para quase todo o lado. Achavam graça ao miúdo! Os meus Pais trabalhavam ambos e eu, assumia um pouco, a pequena logística que envolvia este mano pequeno: levava-o ao colégio muito perto de casa, ia buscá-lo para almoçar quando os horários eram compatíveis e tornava depois a levá-lo. Era giro, isso! À laia de curiosidade, refiro que hoje, "vejo" o meu irmão todos os dias, através do meu filho mais novo, que é igual ao tio.... mas voltemos aos meus treze anos e a toda a panóplia de recordações que isso me traz, para além destas: usava o cabelo curto, era magrinha e endiabrada. Gostava de fazer desporto e da vida ao ar livre. Lia muito e adorava fotografia e cinema. E, embora não pensasse muito nisso, acho que era uma miúda romântica e sonhadora, com um toque de rebeldia que "temperava" a questão. Estudava q.b, mas tinha sempre boas notas, sobretudo a português,  outras línguas e história. Detestava matemática e achava alguma graça à geografia... Gostava de estudar em voz alta, fingindo que dava uma aula a alunos invisíveis e imaginários e isso ajudava-me a sistematizar a matéria sem estar sempre a escrever!
Ela é magrinha como eu era, mas não tem o cabelo curto. Tem uns olhos verdes magníficos, grandes e pestanudos, exatamente como eu sempre imaginei que uma filha minha tivesse (não me perguntem porquê, mas os olhos verdes sempre fizeram parte do meu imaginário...). O cabelo é preto, como o do pai e comprido. É exótica, esta filha! Também é endiabrada e também gosta de fazer desporto. É muito expressiva e gosta de tudo o que tenha a ver com artes: pintura, fotografia, cinema, dança. Aliás, esta filha, dança maravilhosamente... é estouvada e temperamental. É a mais generosa dos três irmãos, com um "oh mãe, desculpa!!!", muito fácil e espontâneo que nem a parvoíce da "aborrescência" lhe conseguiu tirar. Também não fala nisso, mas eu sei (o que as mães sabem, meu Deus!!!), que é romântica e sonhadora, mas também determinada e decidida, sem paciencia para muitas pieguices, também com um tempero engraçado de alguma rebeldia. Poucas horas depois de nascer, recusava-se a mamar e chorava DE-SAL-MA-DA-MEN-TE (!!!), atraindo atenções várias para a sala onde estávamos... "choro de genio" - disseram-me, "zangada porque não consegue mamar!"... - "parvoíce", pensei, mas palavras certas, sim senhor! Tem um génio intempestivo, daqueles que a fazem levar tudo na frente, mas é maravilhosa... o agridoce do meu sabor!

Hoje faz 13 aninhos e este post é para ela. Presumo que o ache uma piroseira e que tenha na ponta da língua um "ai mãe!!!" veemente, à boa moda das adolescentes que efervescem com tudo, especialmente se esse TUDO partir da mãe, ou do pai, mas mesmo assim arrisco, esperando que um dia o ache eloquente e engraçado (sei que sim, pois é sensível e inteligente...). Sei que entre os meus longínquos 13 anos e os dela, há uma diferença geracional, com tudo o que isso acarreta de hábitos, usos e costumes diferentes, mas também sei que há coisas em comum: a rapidez, o afeto, os irmãos, a generosidade, a intempestividade, o encanto pelas coisas... isso, espero que fique para a vida!
Para ela escolhemos o nome SOFIA, (sabedoria) e o meu coração de mãe quer acreditar que a buscará sempre na vida, nas coisas, nas pessoas e crer que assim, será uma pessoa cheia do mais importante: humanidade!!!

PARABÉNS, MEU AMOR!!! 

P.S. Sorrio em segredo quando te vejo a estudar também em voz alta, falando para alunos imaginários...)






















quinta-feira, 30 de maio de 2013



OSTRA TEIMOSA






Ando a arrastar-me de cansaço entre as logísticas todas que tenho que assegurar (é sempre assim nas retas finais dos anos letivos) e então compartimento o cérebro em intervalos de assuntos e de tempos específicos para as coisas: durante o dia de trabalho, só o inerente ao Jardim-de-Infância, e tudo o mais e o resto que isso envolve (e é tanto e tão exigente!!! Nem sempre consigo, pois os OUTROS assuntos são muitos e cruzam-se por aí fora, mas tento, como defesa de organização); nas viagens de carro, antes de pôr o carro a trabalhar, recurso aos papelinhos cábulas para aferir o que há para fazer deste e daquele departamento, deste e daquele filho, deste e daquele assunto pendente e depois então, 15 minutos de boa música e alguma (a possível e recomendável, deseja-se...!) velocidade; de vez em quando, umas paragens breves para engolir um café, sentada 10 minutos numa esplanada qualquer e aí, recurso ao telemóvel para pôr sms e mails em dia; depois a casa que, mesmo com as algumas, ajudas que tenho, me consome tanto, tanto; uns vôos rápidos aqui na blogosfera, muitas vezes já de forma MUITO seletiva e célere; ainda alguma leitura, fiel companheira de almofada noturna e no fim, vou fechando dossiers, que é o mesmo que dizer, encerrando assuntos... Mas há um ar à minha volta, feito de gentes, caras, sorrisos, gestos, atitudes, dizeres, presenças, e para este ar, tenho estado fechada, fechadinha como uma ostra teimosa que não se quer abrir!!
Este ardor enervante de cansaço faz-me fazer disparar lanternas vermelhas de alerta, como os disparos de adrenalina que acontecem num susto: alerta para o que não ouvi, alerta para o que não vi, alerta para o que não correspondi e alerta para o que não percebi e esta perceção forte de tantos sinais de alerta será, acho, o primeiro sinal de que mantenho alguma sanidade!! Valha-nos isso, alguma perceção que vamos tendo das coisas da vida! E aí, a ostra tem que abrir...
 Não posso permitir que este cansaço teimoso, me torne tão distraída para tudo o que está à minha volta.. pois não, não posso mesmo, não devo... Ainda bem que, como dizia o Pessoa, "o cansaço é profundo, mas, oh felicidade, infecundo!" (*)  
E infecundas não são aquelas coisas que se calhar morrem depressa, porque não dão vida? Ainda bem...


(*) in, O QUE HÁ EM MIM É SOBRETUDO CANSAÇO, Álvaro de Campos

sexta-feira, 24 de maio de 2013



DUELOS FEROZES


Casou porque gostava dele, sim, não duvidaria disso. Acreditou num amor que sentia, mas que nunca questionou, nunca interrogou, nunca duvidou de alguns sinais que lhe pareciam autênticos. Agarrou-se a esse amor para fugir de um contexto familiar que a oprimia um pouco e esse amor soube-lhe a uma liberdade encantadora. Na altura, nunca admitiria isso, mas hoje, muitos anos depois, consegue analisar que sim, esse foi um fator primordial, mesmo que inconsciente. Não dizem os livros que o amor é isso, um calor, uma trepidação, umas borboletas na barriga, uma sensação de maravilhoso bem-estar, às vezes impulsionadora de aventuras, mesmo de olhos fechados?
A vida foi correndo e com ela os filhos e continuava sem questionar aquela coisa que sentia, porque àquela coisa chamava amor. O amor não se questiona. Sente-se forte e é só isso. Não se complica uma coisa que não tem complicação, porque às vezes, a lucidez traz complicação, a lucidez abre horizontes e perspetivas de análise diferentes daquelas tão cómodas que temos e então, para quê a lucidez? Só atrapalha... Por isso, não se questiona e pronto, vai-se vivendo... desenfreadamente, com as logísticas depois a sobreporem-se a tudo e até à tal lucidez, sempre tão necessária. Mesmo quando se adivinhava que se vivia em desequilíbrio, sob  jogos de compensação, balões de oxigénio que traziam euforia, logo seguidos de longos períodos de solidão interior e desânimo, nunca se achou estranho não haver cumplicidade e ter-se, por algumas vezes, abdicado do que era mais essencial, em prol daquilo que sentia, a que chamava amor. E era infeliz, consegue dizê-lo agora, à posteriori. Muito infeliz... os momentos bons que tinha eram ocasionais, descartáveis e imediatos, não atingiam uma profundidade que tudo preenche, como o fundo do oceano, onde calculo, tudo se preencha sem fim como uma mancha infinita... e por isso, ia vivendo, vazia, sabe-o agora... como sabe também que a projeção nos filhos não poderá ser solução, pois os filhos têm e deverão sempre ter, a sua própria vida.
Conseguiu, a certa altura tentar libertar-se desse amor que julgava certo... foi vendo que certo não era, que lhe fazia mal, que era descompensado. Respirou fundo e lá tentou. Vai conseguindo todos os dias um bocadinho, com muitos avanços e recuos, passos à frente e muitos atrás. A vida também é isso: temos metades emocionais que esgrimem com as racionais duelos ferozes de equilíbrio e, não havendo receitas para esta vitória, consegue-se, ora um vencedor, ora outro. 
Gostava só de dizer que julgo que é mesmo assim: não poderemos nunca meter a nossa vida numa equação de matemática, cujo resultado é absolutamente aquele e pronto! A nossa vida terá sempre a emoção a atrapalhar, ou a fazer pensar de outra forma melhor, quem sabe.
E disto me apelou a escrever hoje, porque sei de relações assim que acabaram, ou de outras assim que não acabaram ainda, mas já estão mortas, ou de outras, como à que me refiro, que vão a-ca-ban-do, porque tal é imperativo que aconteça para um equilíbrio pessoal que se procura. Mesmo que doa...
Sei de casos muito próximos de mim, de gente mais chegada e de outra gente, menos chegada, mas penso que para todos o diagnóstico será o mesmo, já que a massa de que somos feitos, é igualzinha (só a capa de fora é que muda depois...). 
Presumo que um divórcio/separação nunca será fácil, será sempre doloroso e árduo, tenha a relação tidos os contornos que tiver e seja o divórcio vivido da forma que for, mas presumo também, que às vezes poderá ser a porta para uma vida melhor... como um nascer de novo, quem sabe?

terça-feira, 21 de maio de 2013


O PAPÁ É INVISÍVEL?


Juro que às vezes parece, mas não é! O "oh mãe", constante que se ouve na minha casa, por tudo e por nada, até à exaustão, faz-me às vezes ter este desabafo, meio a rir: "mas o papá é invisível?", querendo saber quais os dotes de magia utilizados para se ter o dom da invisibilidade, nem que seja por um bocadinho pequenino, às vezes, ao telefone, numa fugida, numa pausa espontânea, num cantinho da casa que ninguém vê, numa conversa ao telefone (nem aí!!!), num duche que se queria privado!!! Qual quê!!! Missão impossível!!

Mas ele não é invisível! Não é mesmo! É um pai presente e muito atuante e sei que cada um dos meus filhos tem dele uma representação e uma ideia muito bem construída, saudável, importante, harmoniosa. O pai é o responsável, nas suas vidas, por setores essenciais que reconhecem como "pelouros" seus e sei que sabem que o pai divide/complementa com a mãe uma série de vetores que os completam como pessoas a CRESCER....
Seremos sempre diferentes. A mãe é emocional e explosiva, com os "apitos da panela de pressão" sempre a querer dar sinal (e a dar mesmo!!!), com o grito fácil e com aquela mania de falar com a voz, cara, mãos, braços, corpo todo... A mãe é intuitiva e perspicaz, atenta a tudo e sabedora de segredos que a vida traz e a vida leva, mais importantes, ou menos importantes, ao sabor do crescimento, dos corações, das emoções da idade e do momento. O pai é racional, pragmático, ponderado. Gere as emoções de forma diferente, com calma, deixando as coisas carburarem e ganharem forma, de modo que as possa exteriorizar com ponderação, que quase sempre conduz à sabedoria. É assertivo e eloquente quando fala do que lhe vem do fundo... procura a mãe para confirmar o que já sabe, os segredos que descobre, intui, perspetiva no ar. O pai reforça, salienta, exterioriza o que é mesmo importante e que a mãe já disse vezes sem fim, como se soubesse que só a palavra final do pai fosse pôr uma conclusão definitiva no assunto. O pai é tantas vezes o pragmatismo e razão que a mãe precisa e procura e a mãe é muitas vezes, o sal e emoção que a vida também precisa para ter todos os sabores. E eu acho que os miúdos percecionam no ar, todas estas diferenças e cumplicidades, crescendo num mosaico engraçado e maravilhoso...
Cresci neste paradigma, de os pais ajudarem, serem pares, serem referências ativas na educação dos filhos. Não sei se a minha mãe cresceu com este paradigma, mas cresci a ver o meu pai a sê-lo e por isso, para mim, isto é natural "como a minha sede"... o pai dos meus filhos sempre atuou, ajudou, colaborou, participou e foi (e é) referência ativa e atuante na vida deles. É um pilar estruturante, como sinto que o meu pai foi (e é...) para mim...
Pronto, mas o que há a fazer? Apesar de tudo isto o oh mãe continua a ecoar pelos céus desta casa, como se me perseguissem pelo cheiro, mesmo quando já estou exausta e impaciente e aborrecida e sedenta de um bocadinho para mim, e egoísta e stressada e sonolenta e cansada e indiferente e, e, e, e.... Ufa! Ainda bem que tenho um ombro ao meu lado, daqueles bem deliciosos...



P.s. (Um beijinho para todos os pais... também acredito que sabem consertar tudo!)

quinta-feira, 16 de maio de 2013





SWEET DREAMS ARE MADE OF THIS...


Às vezes ela mora connosco em casa e mal damos por ela... vai connosco para todo o lado como uma sombra e mesmo assim não a vemos, é silenciosa, cola-se às coisas de uma maneira que a torna invisível, agarra-se à pele, assume os nossos cheiros, ganha as nossas formas e MESMO ASSIM, não damos por ela. Quando gritamos, ela grita; quando dormimos, ela dorme, quando comemos, ela come, responde, senta-se, levanta-se, age, pensa, tal e qual como nós e não há como lhe dar outra forma, porque é tal e qual o nosso reflexo, assume uma identidade à qual só falta dar nome próprio, como o meu, o de cada um...
Há vezes em que a buscamos incessantemente noutros sítios, fora de nós, vamos longe, longe à sua procura, espreitamos grandes esconderijos, idealizamos locais onde ela poderá estar à nossa espera, repetimos que sim, que é uma senhora caprichosa e inalcansável, muito inacessível para qualquer um, que mal a vemos, não sabemos onde está... Queixamo-nos, queixamo-nos muito! 
 Há outras vezes em que achamos que ela nos fugiu, até já sabemos como ela é, já lhe experimentámos a sensação, já a tivemos na nossa vida, mas rendemo-nos à evidência de nos ter escapado por entre os dedos, como se fosse areia branquinha da praia! Aí, afastamo-nos sempre da culpa! Essa desgraça aconteceu sempre e só pelos outros, nós estamos sempre isentos! Claro que nunca nos fechámos a ela, claro que não fomos cegos, teimosos e surdos para as suas evidências a nosso lado, claro que não, o quê, jamais!!!
 Em algumas ocasiões parece que conseguimos falar dela, com veemência, com determinação, ganhando (nós), ares de sabedores dessa realidade, testemunhando com um brilho nos olhos, o que dela sabemos. É assim... essa senhora achamos nós que é caprichosa, mas na realidade é só ela própria, sem grandes exigências e muitas vezes, está à mão de semear!!!

Parece que hoje se celebrou o DIA INTERNACIONAL DA FAMÍLIA... isto há com cada coisa!!! Em 40 anos de vida, nunca tinha ouvido falar neste dia e assumo que o mal está certamente em mim, pois é comum, pelos vistos, nomeadamente em contextos escolares, o festejo da efeméride! Em que mundo tenho andado???? Aprendi hoje que sim, que existe este dia e, tal como outro assunto qualquer, pode servir de pretexto para se trabalhar, explorar, conversar sobre... Não vou falar aqui e agora sobre a variedade colorida de famílias que há, as alterações que o conceito de família tem sofrido, as formas de se ser família sem os laços de sangue, as famílias que se ganham, perdem, reconquistam, descobrem... não, hoje vou falar desta senhora caprichosa, afinal nada difícil, com que iniciei este post e dizer-vos que o seu nome é FE-LI-CI-DA-DE e que às vezes nos bate à porta, ou aparece disfarçada de pessoa, ou pessoas, ou lugares, ou momentos. No meu caso, apareceu com um pouco de tudo isso e transformou-se num sonho doce que é feito disto mesmo, todos os dias um bocadinho!!! 

E pronto, sem grandes teorias e devaneios históricos, foi só nisto que pensei hoje, no tal DIA INTERNACIONAL DAS FAMÍLIAS, neste meu sweet dream que, mesmo tendo dias, me abre sempre as portas à TAL SENHORA!









segunda-feira, 13 de maio de 2013



 5 minutos


Faltavam 5 minutos para o serviço fechar e 5 minutos é uma eternidade de tempo quando se quer. Que o digam todos e todas aqueles e aquelas que se desdobram em mil de manhã, com os miúdos e os horários, lutando contra uma preguiça e cansaço mal disfarçados e contrariando um ímpeto que nem sempre é exuberante... 5 minutos de antecipação são providenciais no trânsito, por exemplo e sinto isso diariamente, como uma estatística teimosa...  
Pois e então, faltavam 5 minutos para que pudessem sair para a hora do almoço e o meu pedido e a minha chegada foram altamente inconvenientes... que chatice, devem ter pensado, logo agora! Imediatamente a seguir a mim, outro pedido de outra pessoa que se aproximou (ainda dentro de um horário que, não sendo eterno, ainda estava "na validade...") e aí, foi o descalabro. Todos os disfarces caíram e foi evidente a má-vontade com que nos atenderam, parecendo que nos faziam um favor. Pareceu-me ouvir que comentavam entre si o impropério de termo-nos dignado a aparecer àquela hora! Sinceramente fingi que não percebi... ando tão saturada de estupidezes mesquinhas e cérebros pouco lubrificados e arejados, que optei por uma indiferença surda e silenciosa. Os cérebros pouco lubrificados e arejados, vão-se tornando moda. Isto não tem nada a ver com conhecimentos académicos, já que esses, muitas vezes, não tiram a tacanhez; tem a ver com horizontes, saídas de si próprio, fugas a zonas de conforto às vezes tão pequeninas e limitadas, tem a ver com curiosidade, sensibilidade, abertura e simpatia! E isso, cabe tudo em 5 minutos!
Vim de lá mal-disposta e intuo que quem estava a seguir a mim, também! Fiz o que lá me levara, a correr e saí, fui apanhar ar, ouvir os barulhos indiscriminados da rua, andar sozinha porque sim, beber um café preto,preto, passar os olhos por uma daquelas revistas onde só leio os títulos e onde há tanta gente que nem sei quem é, mas que parece sempre bonita, aperaltada, agradável à vista...(hoje não me detive a descortinar-lhes os sorrisos fingidos, os truques de beleza que escondem tudo o que é natural, não me questionei sobre as suas vidas... hoje apeteceu-me só, sem pensar muito, ver as letras bonitas e coloridas, os casamentos perfeitos, as profissões de sonho!!!), mandar dois mails e sms do telemóvel porque tinha conversas para pôr em dia e a seguir voltei para a escola.
Sentei-os todos em roda cá fora, à sombra, fiz aí a hora do conto, para ser diferente dos outros dias todos, explorámos as imagens e conceitos do livro, identificaram a autora da história como sendo a mesma de outra e outra e outra história que às vezes lhes conto, falámos, conversámos e cantámos e rimos. Não vão sendo fáceis estes momentos. Está tudo mais irrequieto, desconcentrado, alheado... as linguagens dos livros e das coisas vão sofrendo desadequações perante as vidas de alguns meninos e meninas e isto, por sistema, vai-se notando como uma cicatriz feia e vitalícia, mas no fim, senti a frescura de um ventinho suave que nos sabia bem por causa do calor. Convidei-os a fechar os olhos e a sentirem essa brisinha pequenina... Vai sendo também difícil afastá-los de super, mega, hiper logísticas que os envolvem e que convidam à pressa, fazendo-os indiferentes a estas prendas naturais e gratuitas que temos todos os dias e por isso, este momentinho final foi breve, muito breve e em jeito de remate antes de irmos para a sala, continuar o dia, outra vez... Acho que terá durado 5 minutos, se tanto, mas nesse bocadinho de tempo, coube o mundo de todos nós...  e 5 minutos não são mesmo uma eternidade, quando se quer?

quarta-feira, 8 de maio de 2013



EU QUERO SER...

"Eu não quero ser nada... não sei... é o quê?... a minha mãe diz que não há trabalho!!!!"

                                                                                                               L. 5 ANOS     

Hoje perguntei aos meninos e meninas de todas as cores que tenho na minha sala, à minha frente todos os dias, o que queriam ser quando fossem grandes!
Houve uma série de circunstâncias que deram o mote para esta atividade, independentemente de ser, em contexto de Jardim-de-Infância, uma atividade recorrente.
É um "clássico" aparecerem respostas das meninas, de "bailarinas" e dos meninos de "bombeiros", ou "polícias" e, graças a Deus, esse imaginário mágico, ajudado pela ingenuidade e idade das crianças, manteve-se também na minha sala, nesse dia, nessa atividade. Nem tudo está perdido, pensei!!! Três, ou quatro bailarinas, médicos (as), futebolistas, construtores, trabalhadores de máquinas, esteticistas, cuidadora de animais, nenhum professor (a), uma mãe e um paleontólogo (!!!), apareceram nas rápidas respostas que me íam dando.
Não sei explicar porquê, mas esta atividade fez-me pensar em como tudo está diferente do que era há uns anos e de como isso nos obriga (ME OBRIGA) a mudar paradigmas e estratégias para as coisas! A maior parte daqueles meninos e meninas coloridos que estavam à minha frente a ouvir-me e a responder-me, fizeram-no levados (a maioria) pelo "mergulho" que fizeram no tema, pela envolvência que foram sentindo à sua volta e pelas características mágicas da idade que têm, que os leva (AINDA) A SONHAR, A QUERER SER, A IMAGINAR... Sim, porque a maior parte daqueles meninos e meninas têm um pai e uma mãe que não trabalha há muito tempo o que não lhes deixa construir na sua cabecinha a ideia do que é uma profissão!
Cada vez é mais comum sentirem o pai e a mãe preocupados porque não têm trabalho, ou a ter trabalhos/ocupações ocasionais, ou a terem que ter outros trabalhos para além do principal; ou a perderem o trabalho que tinham; cada vez é mais comum os meninos e meninas ouvirem os adultos terem do trabalho e das profissões uma ideia amarga, cheia de incertezas, tristezas, falsas certezas e outras "ezas" que tais...
Não há muito a fazer... a idade deles e delas dar-nos-á sempre bocadinhos de magia e de motivação aos quais nos podemos sempre agarrar para colorir estes momentos, para lhes transmitir informação, para lhes mostrar coisas novas e diferentes e para lhes mostrar que ainda há exemplos de gente feliz e realizada com o seu trabalho, com a sua profissão, mesmo que já vão sendo poucos e mesmo que esses poucos tenham que lutar muito contra tanta coisa feia e desmotivante que gira à sua volta! Mas é assim, isso existe mesmo...


domingo, 5 de maio de 2013

 
SACO DE AMOR
 
(e porque hoje, dizem, é o DIA DA MÃE, mandei para a blogosfera, uma prenda para ti!!!)
 
 
Ela não cabe aqui! Não porque seja muito grande. Embora seja uma mulher alta, não é enorme. Tem uma cara miudinha, de traços ligeiros e bem desenhados. Os olhos são castanhos, ligeiramente amendoados e o cabelo é escuro, muito ondulado, o que a fazia usá-lo quase sempre muito curto. Agora já o vai deixando crescer, embora se recuse a pintá-lo, ou a disfarçar os brancos que, não sendo muitos, contrastam com o escuro. É uma mulher bonita, de traços suaves, com um sorriso sincero e doce que seduz quem a conhece, fazendo sentir logo empatia por ela. Ninguém que não nos conheça nos associa. Não sou fisicamente parecida com ela, mas revejo-me no seu feitio e maneira de ser, na sua forma de falar e expôr as ideias, na sua capacidade de se relacionar de forma que julgo assertiva, na sua impulsividade e sensibilidade e, no geral, acho que somos parecidas nisto tudo. Há também tons de voz, formas de sorrir, maneiras de responder e de dizer... a genética tem destas coisas; manifesta-se de tantas formas!!!
Foi mãe pela primeira vez muito nova, com 20 anos, depois 22 e depois 29 (faltavam três dias para fazer os 30, costuma dizer com orgulho!!!)! Hoje é uma mãe jovem, para filhos já adultos e pais de filhos e filhas também. É uma avó moderna, que conduz, que "navega" no computador, que viaja, que tem uma vida muito própria, uma identidade só dela, que a caracteriza e que nos encanta, porque achamos que sim, que as nossas vidas não se podem sobrepor à dela própria. Lembro-me de histórias da minha infância, de tomadas de posição que sempre tinha, de atitudes que tomou, da lucidez que mostrava sempre nas questões, às vezes, pouco clarividentes para todos, menos para ela. Lembro-me dessa lucidez de análise para os problemas que, passava, subtilmente, pelo ar, lá em casa, fazendo-nos respirar a todos um ar limpo, seguro e profundo, próprio da marca dos grandes homens e das grandes mulheres. Lembro-me da perda que viveu de seu pai, depois de sua mãe, depois de um dos filhos, depois do marido... Lembro-me do salto em frente que sempre deu para não ficar presa a uma amargura que seria certa, lembro-me do ancoradouro que sempre fez da sua fé, grande baluarte espiritual e contextualizador de toda a sua força, lembro-me de grandes decisões profissionais e outras que sempre teve que tomar e de como isso era discutido/partilhado por todos nós lá em casa, na tal rede enorme de afetos que nos unia, lembro-me da presença que mostrava sempre (e mostra ainda!) para as minhas dúvidas: como pessoa, como jovem mãe, como mulher; lembro-me do bálsamo que era sentir que ela estava sempre ali, à disposição, à mão de semear, à distância de uma viagem de 5 minutos de carro, de um telefonema, de um SMS, tão perto, sempre tão perto; lembro-me da forma com se relaciona agora com cada um dos netos, à medida das diferenças de cada um, mas dentro do mesmo saco de amor, lembro-me da ternura e consideração que tanta e tanta gente sente em relação a ela, lembro-me do amor de filho que este filho que há 17 anos arranjou, por extensão a mim, sente por ela, como se mãe dele mesmo fosse; lembro-me da certeza que sinto quando penso que foi ela que me ensinou a ser mãe e que é dela o exemplo que copio, sem me aperceber, todos e todos os dias da minha maternidade... De tudo isto me lembro e de tudo sei que não me posso lembrar mais, porque não caberia aqui, não cabe, não há espaço para um amor assim. Por isso deixo só este bocadinho de amor, só esta pontinha de verdades que fazem colorir a minha vida e a dos meus e digo-lhe do fundo do coração: Obrigado, mummy, só por existires para mim!
 
Ah, e olha, como sei que nunca estiveste sozinha... achei que ias gostar desta!!!
 
 
 
 

quinta-feira, 2 de maio de 2013



 IRRITAÇÃO MIUDINHA...


Conheço gente culta, com quem é um prazer conversar. São pessoas eloquentes que falam dos assuntos com sabedoria, daquela que lhes vem do que aprendem e apreendem da vida. É como se misturassem esses pedacinhos todos DE VIDA, os processassem internamente, lhes fizessem margens adequadas a si próprios, formatos de texto especiais e, de tudo isso, resultasse uma opinião interessante, daquelas que dá gosto ouvir e que retemos na lembrança por algum tempo, até porque algumas destas pessoas têm depois a capacidade de transmitir aos outros o que sabem, sendo um prazer ouvi-los. Há tanta gente assim! "Cabemos" cá todos...
Depois, há também gente que, não sendo culta, é interessante, porque não tem "erudição", mas sim (tantas vezes mais importante!!!), sensibilidade, que as "abre" aos assuntos e as predispõe a falar deles, sempre com alguma graça, ou pormenor ao qual somos sensíveis. SÃO CURIOSOS e essa curiosidade dá-lhes a graça! Também há tanta gente assim e ainda bem... continuamos a "caber" cá todos!!!
No fim, há ainda aquelas que não sabem nada e acham que sabem tudo, falando de qualquer assunto que não dominam (e para o qual são quase sempre indiferentes), como se o conhecessem há muito e estas, são extremamente irritantes. Acompanham as suas opiniões com ares afetados, tons de voz supostamente eruditos e expressões faciais e corporais que não condizem com tudo o resto que conhecemos delas, como se o suposto verniz só tapasse uma unha muito feia! E o que acho mais irónico é que muitas acreditam estar a surtir em nós os efeitos que imaginam!
E estas são irritantes porque não sabem; irritantes porque fingem que sabem; irritantes porque provocam em mim um frenesim que me desestabiliza... às vezes!
Mas que coisa! Quando não sei (e são tantas e tantas as vezes), procuro ficar calada a observar, a "absorver", aferindo a possibilidade de "opinar", ou não...
Há dias em que não evito a irritação, exteriorizo-a, porque sou impulsiva; há dias em que respondo à letra; há dias em que sorrio para dentro, tal é a parvoíce dita e opinada com ares de certeza; há dias em que só peço sempre a lucidez de não ser assim; mas na maior parte dos dias (e ainda bem!), ignoro-as e lembro-me do sábio António Aleixo:

"Eu sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer"

Entre leigos ou letrados
fala só de vez em quando
que nós, às vezes calados, 
dizemos mais que falando"

E... viva o ALEIXO!

sexta-feira, 26 de abril de 2013

 
VOLTA DE CARROSSEL
 
 
Quando penso em 1974, imagino-os na casa dos vinte e muito poucos para ela e trinta acabados de fazer, para ele. Imagino-os quase em lua-de-mel, ainda, com pouco tempo de casados e já dois filhos, quase seguidos a "tiracolo". Uma vida a dois em início de construção, ele trabalhando já e construindo "a pulso" uma carreira profissional que lhe adveio depois só do mérito e ela, estudante universitária, iniciando um curso superior que correspondia à sua vocação mais autêntica, suportada no amor dele e na estrutura de lar que iam construindo. Imagino-os bonitos como sei que eram, animados, apaixonados, com a vida pela frente. Desta altura, sei de episódios, apontamentos de memória, histórias que se passaram e me foram contadas e intuo, com muita certeza, que havia felicidade no ar, daquelas que ficam impressas na primeira infância dos meninos e das meninas, como um carimbo vitalício, uma tatuagem que nem a laser sairá, muitos anos depois... 
Depois, logo a seguir, imagino a geração anterior a eles, também um homem e uma mulher que se conheceram num trópico distante das suas origens, vindos ambos de meios culturais muito diferentes, ele ávido de cultura e conhecimento, empreendedor, trabalhador e muito determinado; ela, bonita, doce e determinada, mas em modo mais suave, daqueles subtis, que, a meu ver, são mais vigorosos e vitoriosos no final. Os primeiros, receberam dos segundos os relatos e histórias de uma Pátria mãe distante que os primeiros não conheciam, de onde os segundos resolveram sair procurando uma vida melhor. Quando penso nisto, como sinto que a história se repete, como ciclos soluçantes, mesmo algumas gerações depois... Os primeiros deste post são os meus Pais e os segundos, os meus avós maternos!
E, assim sem saber explicar muito bem porquê, é de uns e de outros que me lembro quando se fala no 25 de Abril de 1974... imagino a volta de 360 graus que uns e outros deram às suas vidas e tento imaginar como reagiria eu, agora também com um projeto de vida, também com filhos a tiracolo, também com coisas a acabar de começar, também com casa, trabalho, raízes... como reagiria a uma volta de carrossel tão grande assim? Não sei... acho que só se sabe quando passamos nós pelas coisas, por muitas receitas, ou estratégias, ou táticas, ou planos que tenhamos... E assim, repito, sem saber muito bem porquê, é disto que me lembro quando se fala no 25 de abril: a capacidade que teríamos, ou não, de apanhar "ao colo", assim, uma mudança destas...continunado a viver, a sonhar, a construír...
Nunca sentirei com uma intensidade quase física (como aqueles e aquelas de gerações anteriores a mim) a revolução de abril, pela simples razão de que sempre cresci em liberdade, nunca tive outro modelo de comparação, "construí-me" como pessoa, já com este paradigma social. Porque leio, comparo, me questiono e conheço desta forma algumas realidades parecidas à que havia em Portugal antes de 74, porque me lembro e respeito muito o que os meus Pais e Avós contaram e contam, sinto esta data com respeito, consideração e algum deferimento; mas a "verdade verdadinha" é que é de uns e de outros que falo acima que me lembro sempre em primeiro lugar e gostava de lhes dizer que foram valentes, heróis, quase, por terem passado por isto com um saldo positivo de afeto, equilíbrio, coerência, clarividência e harmonia.
À liberdade que nos foi "oferecida", gostava de dizer que, maior que ela, será sempre a INTERIOR, do mais íntimo de cada um de nós, que nos liberta de prisões e grades invisíveis que nos podem impedir de sonhar... a cada dia!


quinta-feira, 25 de abril de 2013



FALO CHINÊS?


Perguntei-lhes, a propósito da visita de uma escritora ao espaço da nossa escola, se sabiam o que era uma escritora... o que fazia, qual era o seu trabalho... Daí até aos livros, às bibliotecas, à leitura e ao mundo que existe fora da escola e do circuito viciado que relatam: "ESCOLA/CARRO/CASA/CONTINENTE/CARRO/CASA/ESCOLA (outra vez...)/CARRO/CONTINENTE/CASA... (e por daí em diante em circuitos limitados e sempre iguais e passo a publicidade...), foi um passo e fiquei triste!!! Menos de 1/4 dos meninos e meninas da minha sala nunca tinham ido à Biblioteca Municipal da sua cidade, mesmo aquela sendo um espaço público, gratuito e com horários relativamente estendidos para as várias realidades laborais. Não conheciam o espaço, nunca lá tinham ido e então, ajudada pelos meninos e meninas que já o tinham feito, falei-lhes da biblioteca da sua cidade, do nome que tem (acharam graça à biblioteca ter o nome de uma pessoa, uma escritora com um nome bonito, ainda por cima!), dos espaços que a compõem lá dentro, das coisas que lá dentro se pode fazer... mostrei-lhes os meus cartões de utente das bibliotecas das várias cidades por onde tenho passado enquanto Educadora e penso que me acharam mesmo uma fã dos livros e afins, mas então, nós quando gostamos, falamos com os olhos e os braços e a cara e o corpo todo... Fizemos um "convite-a-convidar-os-pais-a-que-nos-levassem-à-biblioteca-da-nossa-cidade-porque-ouvimos-dizer-que-é-bonita"...
 Tudo isto me fez viajar para fora da escola e para dentro das "vidinhas" dos nossos meninos e meninas, muitos deles, pelo menos e não todos, felizmente... Não têm experiências de vida para além daqueles circuitos viciados, ou de outros parecidos àquele, não cultivam o gosto por conversar, porque também pouco conversam com eles, não expressam (ou expressam mal) uma opinião, porque também nunca são ouvidos (mesmo que a sua opinião não seja vinculativa, mesmo que seja só para ser ouvida, partilhada...), não param para ouvir o OUTRO, porque ninguém lhes diz nunca que o OUTRO pode ter alguma coisa de interessante para dizer...
Pois é!!! É assim que vamos estando e é isso que se reflete nos grupos e na capacidade de concentração/atenção/motivação... Hoje, uma amiga professora comentava também no seu blog que às vezes, sente um "fosso" entre aquilo que propõe que os alunos aprendam e aquilo que os motiva (era mais ou menos este o sentido...) e é verdade e eu sinto isso nos pequenitos, da pré. Comparativamente à altura em que comecei a trabalhar, há uma diferença gigantesca que nos obriga também a dar passos gigantescos e a fazer quase o "pino" para os motivar... ainda vamos tendo sorte, porque a idade deles, aliada à nossa capacidade e gosto pelo que fazemos, ainda vão fazendo milagres, daqueles mesmo verdadeiros!
Pois é, outra vez... Por isso é que me apeteceu gritar para dentro (ali tinha que ser para dentro!!!) quando uma mãe me disse que se tinha zangado veementemente com o filho porque não LHE ADMITIA (...cito...) "desenhos como aquele, muito riscados, feitos à pressa, sem gosto... ía para o primeiro ciclo e aquilo não podia ser, ía insistir muito com ele no Verão, tinha que o pôr a ter outro brio"... blá, blá, blá... Juro que encetei com ela uma conversa construtiva, enquadrei-lhe a pressa do filho (os outros estavam todos lá fora a brincar...), sensibilizei-a para as conquistas que ele tem feito, para os inúmeros conhecimentos que tem em muitas áreas, (o que o distingue, para melhor, em relação aos outros), para o tempo que às vezes leva o CRESCER e o ADEQUAR RITMOS, para o facto da expressão plástica não ser a área forte dele e daí o pouco brio, para o mundo de coisas que tem que conquistar antes da leitura e da escrita... Apelei para o q.b (ralhar sempre, mas quando e se...), para a importância das tais experiências de vida diversificadas que falo acima, para o facto de isso os completar tanto como pessoas pequeninas e de os ajudar a crescer, mas subitamente, (quase!) desisti e foi quando reforçou as lágrimas que o menino tinha deixado cair aquando da sua reprimenda:... "sentidas, professora, sentidas!"...
Aí, apeteceu-me perguntar-lhe:  - "eu falo chinês???" 

sexta-feira, 19 de abril de 2013


PIM PAM PUM


Nos "picos" de cansaço, parece que a minha veia de escrita fica assim, meio "entupida", obstruída com tantas e tantas coisas para fazer, em tantas frentes diferentes. Sinto, lá nas profundezas, um fluxo que corre, silencioso, já que há sempre assunto para escrever, o que não há é sempre, "assento" e disponibilidade interior... é com se a escrita fosse caprichosa e exigente e como se o fluxo fosse só uma moínha que está lá, um bocadinho adormecida e anestesiada, qual analgésico potente...
Se calhar, faço PIM PAM PUM aos assuntos e deixo fluir um bocadinho... costuma resultar!
E este PIM PAM PUM resultou na escolha de um assunto que já não é novo e que hoje, de novo, me chamou a atenção.
Ao sair do carro, de manhã, para me dirigir à escola, segui atrás de uma mãe que também ia levar o filho. A criança já não era pequenina, como aquelas que povoam a "minha" escola. Frequenta uma outra escola, perto da minha.
Num espaço de 20 segundos, aquela mãe, instintivamente, sem se aperceber e de "rajada", incapacitou o filho de fazer o que quer que fosse:..."- a mãe faz, espera, eu ponho, está ajeitado, vês?... a mãe segura, queres que eu vá lá dizer, pus-te aqui o lanche, é só abrires..."
Tenho a certeza que a senhora (que nunca lerá este blog, nem pôde imaginar  que eu a seguia, ouvindo) não fez por mal, foi instintivo. Eu própria, também muitas vezes, na pressa das manhãs, dou por mim a fazer/dizer isso, mas devemos de vez em quando (porque a vida não é uma estrada direitinha, nem nós conseguimos fazer tudo como vem nos livros...) atentar nisto, pois tenho a segurança que estes comportamentos muitas vezes repetidos e sistematizados, produzirão adolescentes, jovens e adultos inseguros, mais incapazes e às vezes com algumas doses de cobardia, escusando-se a enfrentar coisas que agora são "pequeninas", mas que depois, empurradas pela vida, ficarão "grandes"!
Lido com muitas crianças, adolescentes e jovens. Crianças, porque sou mãe e Educadora de Infância, adolescentes e jovens, porque sou mãe, outra vez... e outra vez e também porque tenho algumas atividades extra-profissionais que me colocam num "palco" privilegiado para assistir a tudo isto e é, de facto, gritante e alarmante, o que se vê por aí... Os miúdos (gosto de lhes chamar assim...) são confrontados pela vida com imensas coisas, desde uma gestão de conflitos que têm que fazer, até decisões que têm que tomar, passando por escolhas/opções/atitudes que têm que assumir para serem autênticos, verdadeiros e é assustador o protagonismo que os adultos assumem, numa tentativa desesperada, mas infeliz de os ajudar.
Para eles, os miúdos, é cómodo, é fácil e vai-se tornando habitual e para os Pais/Educadores é muitas vezes, instintivo e mais rápido do que a lucidez ditaria...
Seria bom que de vez em quando estes clicks fizessem "luzinhas" no nosso comportamento, fazendo-nos perceber que só se cresce quando somos nós (sempre na proporção da nossa idade) a gerir as nossas capacidades e atitudes, sentindo o pai/mãe/adulto cuidador, ali ao lado, na retaguarda e pronto para avançar, mas cauteloso para não se sobrepôr a nós.
É tentador decidir pelo filho (a), fazer mais rápido e primeiro, protegê-lo (a) dos perigos que espreitam por todo o lado, escolher por ele (a) e por nós e pelo que achamos melhor, mas é altamente verdadeiro que há coisas (mesmo que nos pareçam menores) que têm que ser eles (as) e só eles (as) a gerir/escolher/decidir... mesmo que estejamos lá ao fundo, sempre à espreita...