quinta-feira, 25 de abril de 2013



FALO CHINÊS?


Perguntei-lhes, a propósito da visita de uma escritora ao espaço da nossa escola, se sabiam o que era uma escritora... o que fazia, qual era o seu trabalho... Daí até aos livros, às bibliotecas, à leitura e ao mundo que existe fora da escola e do circuito viciado que relatam: "ESCOLA/CARRO/CASA/CONTINENTE/CARRO/CASA/ESCOLA (outra vez...)/CARRO/CONTINENTE/CASA... (e por daí em diante em circuitos limitados e sempre iguais e passo a publicidade...), foi um passo e fiquei triste!!! Menos de 1/4 dos meninos e meninas da minha sala nunca tinham ido à Biblioteca Municipal da sua cidade, mesmo aquela sendo um espaço público, gratuito e com horários relativamente estendidos para as várias realidades laborais. Não conheciam o espaço, nunca lá tinham ido e então, ajudada pelos meninos e meninas que já o tinham feito, falei-lhes da biblioteca da sua cidade, do nome que tem (acharam graça à biblioteca ter o nome de uma pessoa, uma escritora com um nome bonito, ainda por cima!), dos espaços que a compõem lá dentro, das coisas que lá dentro se pode fazer... mostrei-lhes os meus cartões de utente das bibliotecas das várias cidades por onde tenho passado enquanto Educadora e penso que me acharam mesmo uma fã dos livros e afins, mas então, nós quando gostamos, falamos com os olhos e os braços e a cara e o corpo todo... Fizemos um "convite-a-convidar-os-pais-a-que-nos-levassem-à-biblioteca-da-nossa-cidade-porque-ouvimos-dizer-que-é-bonita"...
 Tudo isto me fez viajar para fora da escola e para dentro das "vidinhas" dos nossos meninos e meninas, muitos deles, pelo menos e não todos, felizmente... Não têm experiências de vida para além daqueles circuitos viciados, ou de outros parecidos àquele, não cultivam o gosto por conversar, porque também pouco conversam com eles, não expressam (ou expressam mal) uma opinião, porque também nunca são ouvidos (mesmo que a sua opinião não seja vinculativa, mesmo que seja só para ser ouvida, partilhada...), não param para ouvir o OUTRO, porque ninguém lhes diz nunca que o OUTRO pode ter alguma coisa de interessante para dizer...
Pois é!!! É assim que vamos estando e é isso que se reflete nos grupos e na capacidade de concentração/atenção/motivação... Hoje, uma amiga professora comentava também no seu blog que às vezes, sente um "fosso" entre aquilo que propõe que os alunos aprendam e aquilo que os motiva (era mais ou menos este o sentido...) e é verdade e eu sinto isso nos pequenitos, da pré. Comparativamente à altura em que comecei a trabalhar, há uma diferença gigantesca que nos obriga também a dar passos gigantescos e a fazer quase o "pino" para os motivar... ainda vamos tendo sorte, porque a idade deles, aliada à nossa capacidade e gosto pelo que fazemos, ainda vão fazendo milagres, daqueles mesmo verdadeiros!
Pois é, outra vez... Por isso é que me apeteceu gritar para dentro (ali tinha que ser para dentro!!!) quando uma mãe me disse que se tinha zangado veementemente com o filho porque não LHE ADMITIA (...cito...) "desenhos como aquele, muito riscados, feitos à pressa, sem gosto... ía para o primeiro ciclo e aquilo não podia ser, ía insistir muito com ele no Verão, tinha que o pôr a ter outro brio"... blá, blá, blá... Juro que encetei com ela uma conversa construtiva, enquadrei-lhe a pressa do filho (os outros estavam todos lá fora a brincar...), sensibilizei-a para as conquistas que ele tem feito, para os inúmeros conhecimentos que tem em muitas áreas, (o que o distingue, para melhor, em relação aos outros), para o tempo que às vezes leva o CRESCER e o ADEQUAR RITMOS, para o facto da expressão plástica não ser a área forte dele e daí o pouco brio, para o mundo de coisas que tem que conquistar antes da leitura e da escrita... Apelei para o q.b (ralhar sempre, mas quando e se...), para a importância das tais experiências de vida diversificadas que falo acima, para o facto de isso os completar tanto como pessoas pequeninas e de os ajudar a crescer, mas subitamente, (quase!) desisti e foi quando reforçou as lágrimas que o menino tinha deixado cair aquando da sua reprimenda:... "sentidas, professora, sentidas!"...
Aí, apeteceu-me perguntar-lhe:  - "eu falo chinês???" 

sexta-feira, 19 de abril de 2013


PIM PAM PUM


Nos "picos" de cansaço, parece que a minha veia de escrita fica assim, meio "entupida", obstruída com tantas e tantas coisas para fazer, em tantas frentes diferentes. Sinto, lá nas profundezas, um fluxo que corre, silencioso, já que há sempre assunto para escrever, o que não há é sempre, "assento" e disponibilidade interior... é com se a escrita fosse caprichosa e exigente e como se o fluxo fosse só uma moínha que está lá, um bocadinho adormecida e anestesiada, qual analgésico potente...
Se calhar, faço PIM PAM PUM aos assuntos e deixo fluir um bocadinho... costuma resultar!
E este PIM PAM PUM resultou na escolha de um assunto que já não é novo e que hoje, de novo, me chamou a atenção.
Ao sair do carro, de manhã, para me dirigir à escola, segui atrás de uma mãe que também ia levar o filho. A criança já não era pequenina, como aquelas que povoam a "minha" escola. Frequenta uma outra escola, perto da minha.
Num espaço de 20 segundos, aquela mãe, instintivamente, sem se aperceber e de "rajada", incapacitou o filho de fazer o que quer que fosse:..."- a mãe faz, espera, eu ponho, está ajeitado, vês?... a mãe segura, queres que eu vá lá dizer, pus-te aqui o lanche, é só abrires..."
Tenho a certeza que a senhora (que nunca lerá este blog, nem pôde imaginar  que eu a seguia, ouvindo) não fez por mal, foi instintivo. Eu própria, também muitas vezes, na pressa das manhãs, dou por mim a fazer/dizer isso, mas devemos de vez em quando (porque a vida não é uma estrada direitinha, nem nós conseguimos fazer tudo como vem nos livros...) atentar nisto, pois tenho a segurança que estes comportamentos muitas vezes repetidos e sistematizados, produzirão adolescentes, jovens e adultos inseguros, mais incapazes e às vezes com algumas doses de cobardia, escusando-se a enfrentar coisas que agora são "pequeninas", mas que depois, empurradas pela vida, ficarão "grandes"!
Lido com muitas crianças, adolescentes e jovens. Crianças, porque sou mãe e Educadora de Infância, adolescentes e jovens, porque sou mãe, outra vez... e outra vez e também porque tenho algumas atividades extra-profissionais que me colocam num "palco" privilegiado para assistir a tudo isto e é, de facto, gritante e alarmante, o que se vê por aí... Os miúdos (gosto de lhes chamar assim...) são confrontados pela vida com imensas coisas, desde uma gestão de conflitos que têm que fazer, até decisões que têm que tomar, passando por escolhas/opções/atitudes que têm que assumir para serem autênticos, verdadeiros e é assustador o protagonismo que os adultos assumem, numa tentativa desesperada, mas infeliz de os ajudar.
Para eles, os miúdos, é cómodo, é fácil e vai-se tornando habitual e para os Pais/Educadores é muitas vezes, instintivo e mais rápido do que a lucidez ditaria...
Seria bom que de vez em quando estes clicks fizessem "luzinhas" no nosso comportamento, fazendo-nos perceber que só se cresce quando somos nós (sempre na proporção da nossa idade) a gerir as nossas capacidades e atitudes, sentindo o pai/mãe/adulto cuidador, ali ao lado, na retaguarda e pronto para avançar, mas cauteloso para não se sobrepôr a nós.
É tentador decidir pelo filho (a), fazer mais rápido e primeiro, protegê-lo (a) dos perigos que espreitam por todo o lado, escolher por ele (a) e por nós e pelo que achamos melhor, mas é altamente verdadeiro que há coisas (mesmo que nos pareçam menores) que têm que ser eles (as) e só eles (as) a gerir/escolher/decidir... mesmo que estejamos lá ao fundo, sempre à espreita...

segunda-feira, 15 de abril de 2013

 
 
BEIJO DE AMOR
 
(que me perdoem os que não são românticos...)
 
 
Ela era uma prostituta, jovem e lindíssima, com algumas características de elevação que a afastavam do protótipo normal, de rua; e ele era um milionário meio perdido, com ânsias de um "mergulho" emocional num qualquer desconhecido e por isso, ou pelos acasos e voltas que a vida lhes foi dando, a encontrou... Um pouco por acaso, acabam por se ir envolvendo, no início suportados por questões formais, quase de "contrato", mas no fim, já entregues um ao outro, e vítimas de uma paixão que os arrebatou e o fez tirá-la de uma vida que todos víamos que ela não queria. O espetador do filme sente-se aliviado pelo final da trama e sai do cinema com aquela sensação agradável de leveza e sorriso nos lábios... Nem sempre estes filmes "colam", mas quando "colam", recordamo-los quase para sempre! (e é o caso, pelo menos para mim...)
 A ternura que se sente desde o início do filme pela personagem feminina e também um certo charme que ele, o protagonista masculino sabe "deitar" para  o espetador, fazem com que este filme, PRETTY WOMAM (filme de Garry Marshall, -1990- com Julia Roberts e Richard Gere), não sendo, eventualmente, uma obra prima do cinema, seja por quase todos nós recordado como uma doce lembrança vindo-nos vagamente à memória o que lá se retratava... Para além de tudo isto, recordo-me de algumas coisas, apontamentos de composição da personagem feminina, que me faziam "gostar dela" e achá-la diferente... uma dessas coisas era a exigência e os "protocolos" que ela tinha para com os beijos. Nunca beijava na boca, o beijo era um reduto completamente proibido, mais que as carícias e tudo o mais e o resto... alegava que só beijaria quando estivesse mesmo apaixonada e que esse gesto de beijar profunda e apaixonadamente selaria esse sentimento e não se poderia banalizar. Recordo este pormenor com alguma graça, visualizando, à distância, algumas cenas do filme...
Hoje, "passeando" superficialmente pelo mural do Facebook, vi que era, ou foi, por um destes dias, o DIA DO BEIJO (?!?!)... (é incrível o que se "aprende" no Facebook!) e lembrei-me de alguns célebres beijos do cinema, de algumas canções alusivas a isso, deste pormenor deste filme, das várias formas de beijo que podem haver e do que esse gesto pode, de facto, significar. Relativamente ao beijo de amor, acho mesmo que qualquer sabedoria popular, intuição, visionamento, fundamento, perspicácia, esperteza, ou afins, o argumentista/produtor terá tido ao incluir essa característica à personagem e atrevo-me a dizer que talvez tenha sido um profundo conhecimento (ou intuição) acerca da natureza feminina... Um beijo de amor será talvez das coisas mais bonitas e íntimas numa relação e durante um beijo de amor, tanto se pode falar, dizer, ouvir, sentir, escutar, dar e receber. Penso que o célebre "gene X" feminino, nos porá, a todas, dentro "deste saco", com um bocadinho deste sentir...
A qualquer um, ou uma, das nossas relações familiares, sociais e profissionais podemos dar um beijo familiar, social, ou profissional, incluindo-o a ele, o beijo, numa série de outras importantes convenções sociais, mas só àquele, ou àquela que escolhemos livremente e que distinguimos como único, ou única no meio de uma multidão imensa, só a esse, ou essa, nos podemos oferecer, quase sempre de olhos fechados, num profundo e longo beijo de amor... e é tão bom....!!!

 
 
 
 

sexta-feira, 12 de abril de 2013

5 MINUTOS DE MAGIA

 - Olha, vê, é uma salamandra!!!!
                                                     D., 4 anos


Confesso que gosto muito mais deste "horário de Verão" do que do outro, em que às 5 e meia da tarde é de noite... mal os dias começam a acabar mais tarde, "cheira-me" logo a caracóis, as esplanadas chamam por mim, apetece-me passear mais, não vir logo para casa depois do trabalho, ir andar, ir ver gente, cheirar as ruas, as coisas, os sítios... parece que daí até ao Verão é um pulinho tão pequenino que nos dá uma sensação de pequena eternidade deliciosa, daquelas que só o Verão e o mar podem dar. Presumo que isto só se aplique a quem goste do Verão, que é o meu caso, mas pronto!... Aparte destas delícias inerentes a este fuso de hora, levo algum tempo a adaptar-me à mudança, em termos fisiológicos e é de facto impressionante como uma só hora pode ter tanta influência no meu bio ritmo !! .... Olho para o relógio e é meia noite, mas o corpo, teimosamente ainda está nas 23, janto às 21.30 a pensar, "-Meu Deus, que tarde..." - e depois recordo que o estômago e filho e filhas e "mais que tudo" e banho e loiças e jantares e pendentes e logísticas e afazeres (...ufa!!!) ainda estão todos nas 20 e qualquer coisa, o que me dá uma folga fisiológica de 60 enormes e imensos minutos e penso na imensidão de tempo que são 60 enormes e imensos minutos e então, vou levando quase duas semanas nisto, neste "jet lag" teimoso que me leva também a andar meia anestesiada, com sonos um pouco mal dormidos e uma certa impertinência que custa a passar... como uma horinha só faz tanto, já se vê!!!
Então é assim que me tenho sentido... e neste "rame-rame" diário, vou mergulhando nos meus meninos que me preenchem e me dão tanto que fazer!
Hoje, não me conseguia vir embora!!! Apareciam-me por todos os lados, aquelas coisinhas de ocasião, das quais não podemos fugir, porque são urgentes e necessárias e já mesmo, mesmo quando estava a sair (e hoje até tinha pressa porque tinha um compromisso importante depois do trabalho...), um menino delicioso que "tenho" na minha sala, puxou-me pela mão e insistiu MUITO, com determinação, que eu fosse ver uma SALAMANDRA que ele tinha visto lá fora. Anda muito interessado nos insetos inerentes à PRIMAVERA que temos andado a explorar, tentando eu, por todos os meios, colmatar algumas falhas técnicas e de material, que passam de imediato a secundárias perante o envolvimento que eles, os meninos, nos oferecem, como se fosse preciso tão pouco para os envolver, os motivar... Então, dizia eu, ele lá me levou lá fora, com um séquito de imediato atrás de nós e inclinou-me para baixo, para que espreitasse para uma poça que lá há tapada com uma grelha metálica, onde ele descobriu um "mundo de coisas" lá ao fundo, só com o olhar, porque não chega lá com a mãozinha... "- e vês, lá ao fundo? é uma salamandra sim, daqueles compridas, vês, eu não te disse?, não querias ver uma????"  Tive que sorrir... -"Meu amor pequenino" - pensei.... és tão maravilhoso! ... sabes? não me importo que essa tua salamandra seja na verdade um pauzinho que lá está caído... isso agora não interessa nada, mesmo nada... deste-me 5 minutos de magia e isso já valeu por hoje!

E pensando então nestas "salamandras" todas, lá me vim embora...

terça-feira, 9 de abril de 2013



SERÁ AINDA POSSÍVEL?


Tenho uma consciência política normal, acho eu, nem de mais, nem de menos.    Vivi sempre em cenários familiares de grande fervor opinativo, com consciências cívicas muito apuradas, o que fez criar em mim uma identidade de cidadania" bem oleada", acho eu... Os meus Pais fugiram de uma guerra e isso, por si só, será uma experiência dolorosa, mas rica, em termos humanos, familiares, culturais... 
Nunca vivi os fervores políticos com exagerada intensidade, mas também nunca fui indiferente. Sou sensível aos discursos (sobretudo quando "vêm de dentro", quando têm ALMA), às políticas, às posturas e lideranças genuínas e sempre exerci o meu direito de voto, orgulhosa de o poder fazer, filha de uma geração que herdou esse direito. O meu "certo romantismo", levava-me a honrar esse direito, pensando naqueles que me antecederam e não o podiam fazer, ou naqueles que conheço (da leitura, do conhecimento geral, da história...) e que sei que ainda não o podem, hoje, fazer. É como uma mola propulsora que me leva sempre a agir, orgulhosa...
 Sou de uma geração nascida quase "em cima" da revolução de abril, tendo crescido por isso, em liberdade, sem ditadura, sabendo da existência de vários partidos políticos que dividiam entre si o poder, tendo-me habituado a ver a sucessão de governos, equipas, etapas, fases; acompanhando os discursos políticos daqui e dali e formando uma consciência política com esses apontamentos todos que depois, comigo já mulher, se foi definindo, especificando... achava eu!!!
Hoje sinto-me desencantada... agarro-me, como uma náufraga  à urgência de não poder perder a esperança, sob pena de tudo estar perdido, mas sinto um desencanto tão grande quando olho à minha volta, que me apetece pedir que venha um "El-Rei das brumas do desconhecido" e que apareça de repente aqui e que nos consiga (me consiga, já que é de mim que se trata...) encantar de novo... Será ainda possível?
Quando penso no meu País, a sensação de náufraga quase desesperada vem de novo e desta vez tento agarrar-me às milhentas possibilidades de sucesso que este luso cantinho retangular tem, com clima, tradição, cultura, história, geografia favorável, gente capacitada, e espírito de aventura e coragem e penso... o que falta? É irritante ver inoperância, lentidão, dependência de outros, discursos balofos, ôcos, cheios só de ar, sem brilho, sem perspetiva, sem esperança, sem futuro... e sobretudo é muito mais irritante ver a mentira a rondar, sorrateira, assumindo ares de verdadeira, tão bem falante e astuta, que quase parece verdadeira, mesmo!!! E aqui, entramos quase todos em psicose coletiva, sendo tentados a acreditar em mentiras que, de tão bem ditas, parecem verdades e sendo quase forçados a esquecer verdades que, de tão duras e violentas, quase ficam esquecidas, já que o melhor é anestesiar o povo, para que não sinta...!!!
Ver alguns homens e mulheres da ribalta a enredar discursos por todas essas teias de mentiras e meias verdades, é entediante e desencanta-nos muito, é um facto, mas guardo em mim uma réstia de esperança (escondida lá nas profundezas e que me recuso a perder), um fôlego desesperado, um imperativo quase moral de não desesperar, tentando acreditar que os meus filhos, poderão vir a viver num País melhor, se o paradigma mudar, se a vontade continuar e, sobretudo, se a esperança não morrer. Sim, de facto, prefiro rir baixinho, ir mantendo a minha sanidade mental intacta, o meu discernimento e capacidade de juízo relativamente sãos e um pouco alheados desse universo político (pelo menos com o distanciamento q.b) e ir repetindo como os THE AVALANCHES, sempre que vejo alguém entediante e MENTIROSO a falar na televisão: "That boy needs therapy, that boy needs theraphy..."
Boa dica, David!!

quinta-feira, 4 de abril de 2013




AMÊNDOAS DE AÇÚCAR?





Hoje, uma amiga minha, a Ana, tinha este post no Facebook sobre a "Para que serve uma relação ?"
De imediato, me lembrei "deles"... não sei porquê que foi "deles" que me lembrei... a sua relação não era "a ideal", mas marcou-me na infância e talvez por isso, a analogia, ironicamente, tenha sido esta. Vá-se lá perceber...
Eu era miúda e não processava a informação que "me entrava pelos sentidos", da forma que processo hoje, CLARO, NÃO PODERIA. Acho que a processava como uma miúda normal, endiabrada, vivaça, despreocupada e amada por uma família sólida, que a preenchia... Hoje, olho para trás para esse "retalho" de pensamento, lembro-me "deles" e já processo o seu assunto da forma que a minha visão de mulher me permite, de mulher, e de mãe, e de cidadã... Comparo a lembrança que retenho deles e a explicação que hoje dou a essa lembrança e acho engraçado como todas as explicações sempre lá estiveram  mesmo que eu não as visse, porque tinha olhos de criança que só vêm o que a doçura e ingenuidade podem ver. É como quando comem uma amêndoa de açúcar... encantam-se no doce e quando este acaba, jogam-na fora, não chegando à amêndoa verdadeira!
 Via-os como um casal amigo de meus Pais, presença muito amiúde lá em casa, programas comuns e filhos de idades próximas. Eram muito carinhosos em público, um carinho que saltava à vista, e ao qual eu, miúda, não era insensível.  Achava engraçado aquilo... Hoje adulta, acho que em segredo e se calhar inconscientemente, os comparava aos meus Pais que não andavam na rua de mão dada como eles, não se beijavam a toda a hora como eles, não se tratavam por "amor" e outros epítetos verbais ternurentos como eles... não me lembro de isto, na altura, miúda pequena, ter constituído para mim algum problema, ou de me ter detido a pensar nisto, ou de me ter feito perder o sono e nem sei porquê, repito, que hoje me lembrei deles... É assim, outra "pedrinha" da memória que saltou, agora, para o meio do caminho!
Foi por causa de toda essa (aparente) aura de ternura os envolver tanto, que foi para mim um choque, quando adolescente, ser confrontada com a realidade do seu divórcio! Um divórcio doloroso e litigioso! Aí já me lembro, (era mais velhinha) que fiquei muito espantada, como era possível, logo eles que me pareciam tão especiais... Hoje, sei que, de facto, eles não tinham o essencial: aquela manifestação exterior de ternura não estava mesclada do mais importante: cumplicidade... nos projetos, nas opções, nas decisões! Hoje, adulta, sei que a solidez que os meus Pais tinham, não se via de repente, sobretudo para os olhos de uma criança, talvez eu antes a absorvesse no ar que respirava, sem me aperceber, como o oxigénio que inspiramos a toda a hora, automaticamente ... era uma solidez de essência, de diálogo, de confiança, de maturidade, de respeito e, sobretudo, de projeto comum, tendo por isso, aquela beleza profunda que só os olhos esclarecidos vêm... como uma obra de arte de um pintor famoso...
Há relações de todas as cores, formas, tipos e feitios... há relações mais longas, menos longas, mais remotas, mais recentes; há relações que começam sem nunca ter acabado e há relações que acabam porque nunca começaram de verdade, estiveram só a fingir que eram uma relação... há relações que preenchem completamente, há outras que só preenchem o bocadinho que nós deixamos; há relações que resultam de uma entrega total, há outras que são negociadas com "fantasmas" novos ou antigos que nos assombram e quase fazem desistir; há relações que são para a vida, "porque sim", há outras que são descartáveis, porque só vão preenchendo pequenos "balões de oxigénio" que, um dia, chegam ao fim... enfim...
Não sei se a minha relação é a ideal... acho que todos achamos a nossa relação "A IDEAL", ou todos ansiemos por isso!... É talvez por isso que as assumimos e que as adaptamos às nossas vidas... O que sei é que depois do açúcar, ainda sinto que vou conseguindo chegar à amêndoa verdadeira e sabem?... esta, também é doce!!!


terça-feira, 2 de abril de 2013



ARMA PODEROSA



(AVISO: Devem ler-se estas frases quase em surdina)

"- O que é cativar?... o que é cativar?" - perguntava o Principezinho
" - É uma coisa de que toda a gente se esqueceu... significa criar laços" - respondeu-lhe a Raposa.
Antoine de Saint Exupery
in, O PRINCIPEZINHO


Vou ter com ele algumas vezes, não tantas como gostaria, mas aquelas possíveis, "filhas" da disponibilidade das vidas agitadas que ambos temos. De todas as vezes que nos encontramos, tenho uma sensação de "bálsamo", de um conforto fresquinho, parecido com aqueles cremes maravilhosos que se põem na pele depois do sol. Estas conversas com amigos assim (confessores, amigos do peito, colegas especiais, maridos, mulheres, namorados, ou ...) devem ter esse efeito, presumo, em todos nós. Certa vez, numa conversa que tivemos e enquanto me ouvia dizer-lhe que lhe reconhecia algum ascendente sobre mim, "dando-lhe" o direito de me dizer tudo o que achasse, com sinceridade, ia-me respondendo com sorrisos e "processava" (penso!), tudo o que eu falava... respondia-me de quando em vez, enquadrava as suas opiniões e afirmou, que só tinha essa "autoridade" sobre mim, porque eu própria lhe reconhecia isso.
 Essa pessoa faz parte da minha vida pessoal, é alguém muito querido para mim e para o meu núcleo familiar, conhece-nos há muitos anos, acompanhou o meu/nosso crescimento pessoal e emocional e sempre o vi como um amigo mais velho, mais lúcido, mais esclarecido, a quem recorria (recorríamos) sempre que precisava (e sempre que preciso, na urgência de um presente do indicativo). A inteligência profunda que tem, o conhecimento altamente esclarecido sobre imensas coisas, uma vertente espiritual maravilhosa e única, uma clarividência e espírito práticos sobre inúmeros assuntos (o que me encanta!!!), a facilidade com que reporta toda esta "teoria" para a prática do dia-a-dia, sempre me fascinou de uma forma que me fez desde cedo considerá-lo único e (quase) insubstituível!
No entanto, aquilo que me disse sobre o ascendente, parou-me no cérebro e vai pairando por lá, fazendo-me perceber que todas essas qualidades que tem, só as noto, só as vejo e identifico tão bem, porque ele me cativou, porque me fez especial, porque se deteve comigo por uns pedacinhos, porque "perdeu tempo", porque me fez sentir importante! Nada lhe seria reconhecido (de forma tão veemente) por mim se não me tivesse cativado!
Esta pessoa querida para mim e para os meus tem o poder da relação! Considero este poder de relação uma arma poderosa nas relações inter-pessoais e considero-o mesmo, uma porta de entrada para descobertas (quase tão científicas como a da penicilina, esse antibiótico, a seu tempo tão inovador e único!)) sobre a inteligência, o caráter, a personalidade.
Esta pessoa (como tantas outras parecidas com ela que existem nas vidas de cada um), faz contraponto com outras, opostas, diferentes (e também aqui me lembro de uma em particular!), que possuem uma inteligência mordaz e bem oleada, conhecimentos quase infinitos sobre as coisas, capacidade de expressá-los muito bem, espíritos organizadores eficazes, mas que não se conseguem relacionar, fugindo do "olho no olho", da "mão na mão", assumindo posturas carregadas de estilo, pompa e alguma circunstância, mas que no fim... o que fica? Parece que as palavras não entram, não colam, que falta qualquer coisa! Faz lembrar o caso daqueles médicos, altas sumidades e professores de cátedra, mas que não olham para o doente, institucionalizam-no e só, desvirtuando aquele que devia ser o principal e primeiro requisito da sua profissão: a relação como OUTRO.
Sei que algumas destas últimas pessoas (e se calhar esta de que me lembro com este post em particular...) tiveram, ou têm, algumas fragilidades emocionais que não ultrapassaram, ou que, nalgum momento, marcaram negativamente as suas personalidades e formas de estar, mas mesmo assim apetece-me dizer-lhes que TUDO o que lhes falta é exatamente isso, o deixarem o OUTRO sentir-se cativado, para que depois, com naturalidade, sem pressas, formalismos, ou prazos, o bonito que têm para dizer caia cá dentro e talvez muito fundo! E aí, quando cair e se cair, ficará para sempre como um laço apertado!

segunda-feira, 1 de abril de 2013




OVOS DE COELHO





Hoje tive a casa cheia de gente, muito barulho, muita confusão e muitas daquelas coisas agitadas, mas maravilhosas, próprias das famílias grandes, enormes e barulhentas! Apesar disso e apesar de continuar, ainda, mergulhada naquele torpor profundo de leitura (que me atinge de vez em quando...), surgiu-me, num cantinho do cérebro, uma lembrança do que uma menina da minha sala me disse acerca da Páscoa e acerca dos seus símbolos: "- Porquê que o coelhinho é o coelhinho da Páscoa, porquê que lhe chamamos assim, porquê que nos lembramos dele nesta altura e porquê que ele está em todo o lado?"- perguntava-lhes eu, informalmente, numa conversa de "tapete", todos juntos... 
-"Porque ele põe os ovos da Páscoa" - respondeu-me prontamente uma menina. 
-"Então ele põe os ovos? Mas os coelhos põem ovos????? 
Um SIIIIIM sonoro, embora já não unânime, ecoou pela sala...

Penso que a vida que levamos, recheadinha de pressas, correrias, timmings e logísticas para cumprir, dar-nos-á, mesmo sem querer, alguma anestesia para questionar, pensar sobre as coisas, fundamentá-las, pô-las em causa, justificá-las ao ponto de percebermos porquê que as sentimos de certa forma, enfim, pensá-las... Eu, pelo menos, sinto isso algumas vezes, como se uma preguiça mental muito grande fosse às vezes, tomando conta de mim, me entorpecesse os membros e o sentir e me deixasse seguir, nesta maré gigantesca de gente que pensa assim, sem saber explicar porquê e sem querer perder tempo a pensar nisso sequer... A vida vai correndo, sem grandes ondas e parece tão cómodo assim... Sinto isto muitas vezes, pessoal e profissionalmente falando e senti isto nesta quadra festiva da Páscoa, em que se planifica, se elencam estratégias, procedimentos, atividades, mas muita da essência ficará por dizer, por explicar. Legitimo-me e liberto-me de algum (pouco) peso de consciência, pensando que é difícil para crianças pequeninas do Pré-escolar, a explicação da Páscoa, a justificação da quadra. Deambulo entre uma certa origem histórica e ligação ao início da Primavera e uma mensagem de vida, de família, de perdão, de recomeço... Acaba por ter também esse fundamento e acaba tudo isto por poder ser vivenciado ludicamente por histórias, canções e pelas tais atividades que se planificam e então, tudo acaba bem... Pois é! Profissionalmente falando, não se poderá fazer mais, já que há coisas, verdades, sentires e valores que passam única e exclusivamente pela família e não quero sentir nunca a pretensão de me querer substituir a ela, não o poderia, neste âmbito profissional!
Mas, pessoalmente falando, tenho obrigações que me impelem a fugir da tal anestesia entorpecedora... sinto que tenho obrigação de transmitir aos meus, o verdadeiro sentido das coisas e, neste caso, da Páscoa, do Natal, das outras festas religiosas, ou não, das tradições, dos costumes e das coisas que nos rodeiam e que nos caracterizam como família, desenhando os nossos gestos e hábitos. Isso, contribuirá para a elaboração de uma história pessoal de cada um deles, da qual eu só serei depois co-autora, já que terá outros protagonistas e muito mais importantes.
Assim, os símbolos inerentes às quadras e às festas, as datas, os acontecimentos, farão sentido e terão uma explicação à qual aderimos com maior ou menor entusiasmo, mas na maior liberdade de cada um, de cada núcleo familiar ou pessoal. De qualquer forma, será importante, penso eu, que essa liberdade maravilhosa e gratuita de cada um, caracterize a forma como vive e sente as coisas, mas também inclua um conhecimento sobre elas para que a adesão seja maior e mais verdadeira (ou não...). Ninguém gostará do que não conhece, ou que conhece mal, atrevo-me a acrescentar, se calhar, sem fugir à verdade...
Então, tal como eu vivo a Páscoa como uma festa de libertação e de vida, que cada um a viva como quiser, no exercício consciente e pleno da sua liberdade, mas que ninguém fique sem saber explicar porquê que o ovo, ou o coelho são tidos como uns dos seus símbolos. Penso que isso seria redutor, mesmo para quem tem opiniões e crenças diferentes...
E, como as grandes coisas são todos os dias e não têm (ou não deveriam ter...) atrasos horários e de calendário... BOA PÁSCOA para todos!!!

quarta-feira, 27 de março de 2013



SORRISO TEIMOSO

Tenho estado "mergulhada", completamente submersa, numa leitura que me está a prender completamente às 900 e tal páginas de uma história de várias famílias, que atravessa todo o século XX. (Trilogia "O SÉCULO"  -livros I e II, de Ken Follet) Para quem, como eu, adora apontamentos históricos, com um quê de quase verídicos, não poderia ser melhor. Esta obra é uma trilogia, com três livros, acho que o terceiro está ainda a ser ultimado pelo autor, mas, embora ainda vá a meio do segundo, já anseio pelo terceiro, pois estas personagens tomaram conta de mim, numa adesão deliciosa que me tem preenchido. Parecem-me pessoas quase reais, com um bocadinho de mim, ou de outros que conheço, em cada uma delas e acho mesmo que quando um livro "toma assim conta de nós", é porque se apresenta como maravilhoso. É assim para mim a leitura: uma compulsão que quando resulta, é melhor ainda!!! Confesso que a adesão tem sido tão grande que alguma (muito pouca) televisão e também este meu querido blog, têm ficado um pouco para trás, embora sinta que tenho sempre "assunto para escrever", como dizia a canção...!!!
Hoje, por inerências "logistíco-familiares" (se é que esta combinação de palavras existe...) tive que "tirar" o dia para tratar de uma série de assuntos junto de repartições públicas, acompanhada do meu filho Pedro, que se revelou num ajudante muito bom, a tirar as senhas, a adivinhar logo para que balção tínhamos de ir, a conversar sobre uma série de coisas que ia vendo... não pude deixar de pensar em tantos e tantos meninos e meninas que não têm nunca esta pequeníssima experiência que em si não terá nada de mais, mas que pode ser uma experiência de vida interessante, para "gente grande tão pequenina" como o meu filho mais novo.
Enfim, no último atendimento a que fui sujeita, tive de esperar algum tempo. Observei o design do espaço envolvente e de facto, estava giro: open spaces por todo o lado, apelando a uma psicologia moderna dos atendimentos (contacto visual e pessoal quase personalizado e não o horroroso e antiquado buraquinho tão alto que quase nos impedia de ver quem nos atendia!), quadros de design também moderno, setores com cores distintas conforme os assuntos a tratar, legendas coloridas e apelativas por todo o lado, fotografias grandes a preto e branco de gente sorridente e feliz, gente bonita, pude reparar, como que de propósito postas ali para suavizar as esperas e os assuntos, às vezes, "pesados"... Achei interessantes estas analogias... detive-me a pensar nelas por uns bocadinhos, ao som da voz do Pedro, sempre, sempre a "martelar-me" os ouvidos... (mas este miúdo não se cansa???)
De repente, este "feitiço" relativamente agradável quebra-se como que por encanto, já que sou atendida de forma eficiente, relativamente rápida e eficaz, por uma pessoa que, qual "ave rara" que paira num espaço até agradável, não sorri! Opá, dos breves minutos que durou este atendimento, a sua postura corporal, facial, gestual, esteve tão rígida, tão rigída que até tive receio que se partisse de tensão... Eu acho que sorrio de mais, às vezes até me sinto meio deslocada, apatetada, mas ele (o sorriso) sai assim, sem eu querer e mesmo assim, com uma imunidade "musculada", nada do outro lado!!! Destoava naquele espaço, a senhora... estaria mal-disposta, farta, aborrecida, descontente com a vida, desejosa por se ir embora, talvez!!! todos temos dias maus... mas que destoava, era certo! Nem as piadas espirituosas e engraçadas do Pedro, que estava inspirado, lhe serviram... Bem, desisti de procurar causas e de compará-la ao espaço envolvente. Resolvi o que tinha de resolver e desisti, a sério, do meu sorriso teimoso! Paciência, talvez o "estigma"/rótulo/perfil do "funcionário público", aquele meio pejorativo que se ouve por aí, seja afinal verdadeiro, mesmo que só um bocadinho, à força dos anos de "implantação"... 
Despachei-me e não resisti a uma pergunta final, tratando a senhora pelo nome que tinha na plaquinha que a identificava... respondeu-me de pronto e agradeci, preparando-me para vir embora, enquanto arrumava a papelada na bolsinha que levava... aí vi, ténue, ténue, como um nevoeiro que se dissipa quando a manhã já vai alta, um sorriso tímido e um gesto de assento com a cabeça. Bem!!! Finalmente, pensei!!! Afinal retribuir sorrisos até resulta um bocadinho!!! Ela vai voltar de certeza, no segundo seguinte à sua eficácia muda e séria, mas naquele bocadinho, achei-a mais bonita, pelo menos mais parecida à fotografia enorme de um rosto anónimo de homem lindo que estava por trás dela, mesmo ao centro.
E vim-me embora, menos chateada com o meu sorriso teimoso! 

segunda-feira, 18 de março de 2013



REDUTOS SAGRADOS

Em criança dizem-me que era travesso e muito arisco. Tinha um cabelo loiro, quase branco e era o quarto de sete irmãos, todos seguidos e criados por uma família pobre em posses, mas muito rica em afetos e valores que transmitia. Tinham o mar "à porta de casa" e eu, em segredo, sempre achei que isso lhes moldara, a todos, os temperamentos e as maneiras de ser. Os relatos que o meu pai me fazia da sua infância e outras coisas que eu juntava de "pedacinhos" que as minhas tias acrescentavam, fizeram-me perceber que foi feliz e que teve, nas figuras de seus pais, referências fortes de autoridade, valores e muito afeto.
Na idade adulta, tornou-se num homem muito bonito: loiro, de olhos verdes, grandes, magro e atlético, quase tendo um "quê" de ator de cinema. Sentia isso sempre que via fotos que a minha mãe guarda das suas juventudes e do seu tempo de namoro. Em segredo também, sinto-me feliz por ver que o  meu filho mais novo é tão parecido com ele, quase um clone, dando à genética uma força, de facto, intransponível e tão visível.
Quem o conheceu sabe que era um homem íntegro e com um enorme sentido de justiça, para além de que procurava com uma eficácia naturalíssima exercer essa justiça com um grande sentido pedagógico. Tinha sempre uma mensagem a dizer, um reparo construtivo que nos deixava a pensar nas coisas, um toque de assertividade às vezes não imediatamente vista, mas muito presente. Era um homem determinado, mas não teimoso, autoritário, mas meigo, não muito caloroso no trato, mas tremendamente assertivo e muito seguro e inteligente, o que me deu sempre (e aos meus irmãos também...) uma sensação de "rede" que estava lá sempre, quase invisível, mas presente. A relação que tinha com a minha mãe e que a minha mãe tinha com ele, serviu-me, sem eu saber, de modelo para construir eu agora, ao longo dos meus dias e meses e anos, o meu próprio desenho de relação a dois: íntima (porque só dos dois, com verdades escondidas e partilhadas só nessa esfera tão pequenina e ao mesmo tempo tão grande que é dimensidão de duas pessoas que se amam), sagrada (porque intransponível e com redutos e "cantinhos fechados" ao que vem de fora), prioritária (porque com vida própria, às vezes exigente) e própria (porque única e irrepetível), com traços de afetividade, mimo, exteriorização do que se sente, valorização do que se quer, registos de atuação, formas de estar, únicos e relativos a cada PAR.
A sua forma de ser pai, serviu-me também, sem eu saber, para admirar muito o que fez por nós e a forma como era pai: firme, determinado, organizado, previdente e sempre presente, mesmo quando trabalhava muito, porque conseguia transmitir-nos que a cumplicidade que tinha com a minha mãe fazia com que estivesse sempre lá, como que ligado por uma rede invisível mas sentida, vista, como aquelas luzes de presença que fazem os meninos deixar de ter medo do escuro. Enquanto cresci, talvez estes efeitos fossem ficando marcados sem que me apercebesse. Enquanto crescemos, absorvemos de tal maneira tudo o que nos rodeia, nas várias frentes, que a maturidade não acompanha ainda o processamento que tem que se fazer de todas as informações, é tudo muito rápido. Quando cresci, abracei uma profissão e um projeto de vida, parece que todos os "imputs" que recebi dele, se manifestaram, como um efeito feliz de uma educação que resultou. 
Não sei porquê que hoje resolvi lembrar-me disto. O meu pai é uma presença tão forte na minha vida e um "cantinho" tão secreto, sagrado e saborosamente único, que nenhum blog do mundo lhe poderia prestar tributo. Esse, presto na vida de todos os dias e no testemunho que dele dou aos meus filhos, continuamente; mas sei lá, talvez por amanhã ser o dia do pai, talvez por gostar de explorar com os "meus" meninos dos meus grupos, a importância do pai nas nossas vidas, talvez porque é uma figura que lhes é essencial, talvez porque os nossos neurónios saltitem de vez em quando para aquilo que nos é importante e caro... não sei, apeteceu-me falar assim um bocadinho dele e dizer-lhe que foi o melhor pai do mundo e que foi crucial para eu ser a pessoa que sou hoje, tremendamente feliz!... MESMO!!!!!

quinta-feira, 14 de março de 2013


O QUE É INVENTAR?
(D., 5 anos)


"Inventar é pensar do princípio..."
 
T., 5 anos

Que os grupos estão cada vez mais difíceis, já sabemos; que a vida nas escolas se revela diariamente como uma luta constante contra super, mega, hiper logísticas, de dentro, de fora, daqui e dali, que nos dificultam a tarefa de ESTAR com os nossos meninos da forma que julgamos mais plena, também não vai sendo novidade; que a vida das famílias é diferente da que era há uns tempos, devido a todos os muitos condicionantes que se nos/lhes apresentam, também vai sendo um "lugar comum"; que o nosso desalento vai correndo o risco de se tornar crónico e silencioso, é uma constatação quando falamos com os nossos PARES profissionais (o que nos leva/ me leva, sobretudo a reagir, instintivamente a essa ideia, recusando-me a "navegar" numa maré de pessimismo), que, que, que..... é verdade e sinto diariamente a necessidade de fazer estas catarses, mesmo quando estou e fico "zangada" com contrariedades tão evitáveis... mas, pronto, aceito tudo isso, centrando-me no grupo, nos meninos que suavizam tudo (ainda!), mas custa-me muito a constatação da dificuldade que os meninos e meninas vão tendo cada vez mais em IMAGINAR/INVENTAR/CRIAR/FAZER-DE-CONTA...
Todos os profissionais de educação, sobretudo os colegas do Pré-Escolar fazem variadíssimas vezes por dia e assumem como naturais as estratégias de recriação, dramatização, invenção. O lúdico assume-se assim como um aliado indispensável à promoção das atividades, à sistematização de conceitos, à transmissão de conhecimentos, que depois se servem da VIDA de cada um para se consolidar. E aí, temos como grande aliada, a idade da criança. No entanto, sinto, com alguma apreensão, a dificuldade que algumas crianças vão tendo em entrar em jogos de imaginação, em que tenham que recriar situações imaginárias e "conduzi-las" num fio condutor de uma história que não é real, mas inventada, ali na hora.
Há poucos dias desenvolvi com o grupo uma atividade que tinha como objetivo levá-los a imaginar e inventar o fim de uma história que, não acabaria ali no livro, daquela forma, mas que continuaria na nossa imaginação, criando-se e ganhando forma, obtendo, no final, outro desfecho. A imaginação seria aquela "coisinha mágica" que temos na cabeça e no coração e que nos ajuda a... CRIAR! Apesar de todos os condicionantes que podem interferir na atividades, senti, com uma clareza (quase) cortante que lhes era difícil este jogo, não  lhes foi apelativo, apesar de todo o meu esforço para os envolver... "colaram-se" à história original , repetiram-na, ou inventaram finais pouco imaginativos e muito curtos, sucintos, sem magia, rápidos e pouco encantadores. À exeção de duas, ou três crianças, foi assim... Refleti... analisei condicionantes (e são muitos...), revi a minha postura, reavaliei e envolvência, contextualizei o tipo de grupo e percebi, com algum alívio que a causa é, em grande parte, exterior a mim, embora eu não esteja isenta, nunca estamos...!
Os meninos e meninas não vão sabendo brincar, tendo que criar: está tudo feito; os meninos e meninas não vão perdendo tempo a pensar: está tudo pensado, só têm que "clicar", acionando, ou "deletando" a operação; os meninos e meninas não vão sabendo interagir: brincam muito mais sozinhos, mesmo quando estão acompanhados; os meninos e meninas não vão perdendo tempo a imaginar porque todas as cores e formas e tamanhos e modos, estão já feitos por medida; os meninos e meninas não vão achando graça a esta história do "inventar", porque alguns já não sabem o que isso é...
Pois é!... foi o que senti... confesso que não sei bem o que fazer, embora, instintivamente, perceba que é um desafio para mim/nós, como profissionais; confesso que fiquei um pouco confusa, "digerindo" por algum tempo, esta constatação, mas, no final, sei que haverá sempre um pai e/ou uma mãe que pensem nisto, que sejam sensíveis a estes assuntos, um Educador de Infância, ou Professor que recuse também o tal desalento silencioso, um tutor, ou adulto cuidador, que obrigue o IMAGINAR, o RECRIAR, o FAZER-DE-CONTA a entrarem de rompante nas nossas vidas e casas e escolas e a instalarem-se por algum tempo, mesmo que seja só um bocadinho.
 
'Bora lá?

sábado, 9 de março de 2013




TULIPAS AMARELAS


Hoje ofereceram-me tulipas amarelas. Adoro tulipas amarelas, mas bem, tenho que ser completamente sincera, a cor foi escolhida por mim, pois de três ramos diversos que se me apresentaram, eu escolhi as amarelas. As tulipas, para mim, têm que ser amarelas, não sei porquê, tal como as papoilas são vermelhas e os malmequeres brancos. Nem os imagino de outras cores, que se calhar existem na diversidade botânica deste mundo... 
Gostei do ramo, gostei da cor, do cheiro e, sobretudo, da atitude de quem ofereceu. O pai de uma menina da minha sala, quando a foi buscar, levava três ramos de tulipas para oferecer às três adultas da sala. Surpreendeu-me a sua atitude, já que é um pai não muito próximo, com quem nem estou sempre, ao contrário do que se passa com outros. No entanto, o mais interessante de tudo, foi o que ele me disse a acompanhar o presente. Tem um português "arrevesado", já que é de outra nacionalidade e então, a sua fluência da nossa língua, não é boa. Tenho que me aproximar muito e ouvi-lo com muito cuidado para tentar entender tudo o que diz. Não sei se no seu País de origem valorizam mais esta data, do que aqui em Portugal. Eu, pessoalmente, nunca dei importância a esta efeméride, sou muito seletiva nestes festejos e às vezes já não tenho paciência para tudo o que se tem, "quase obrigatoriamente" que festejar. Este dia resume-se para mim a umas graçolas ditas e/ou ouvidas "aqui e ali", a assistir, levemente irritada aos relatos histéricos de jantares, banquetes de grupos onde, muitas vezes, algumas mulheres parecem doidas que nunca saem para lado nenhum senão neste dia, e a uma lembrança muito, muito ténue, quase inconsciente dos motivos históricos para a instituição deste dia, como o dia internacional da mulher. Imaginar aquele grupo de mulheres, numa fábrica de Nova Iorque, a fazerem valer os seus direitos e a fazerem a primeira greve da história feminina, num mundo laboral tão masculino, é quase épico, de filme e para quem gosta de apontamentos históricos e de "mergulhos" nas épocas especificas para imaginar como seria, como se viveria, como se conquistariam as coisas que agora, tantos anos depois nos parecem já tão normais, tão corriqueiras; é interessante, no mínimo! 
Então, mesmo não dando especial importância, ou relevância à data e mesmo sabendo que, apesar das "nossas mulheres" do século XIX não poderem nunca imaginar que cento e tal anos depois, muitas mulheres do século XXI continuariam a ser maltratadas, marginalizadas, desconsideradas em relação aos homens e etc, etc, etc; quero dizer aqui o que o "tal" pai desta história me disse, enquanto me estendia, com um sorriso, o ramos de tulipas... Olhando-me nos olhos e bem-disposto, disse-me num português deficitário: ..." - Sabe, Paula, eu tenho quatro filhos e só assisti ao nascimento dos dois mais novos, pois no meu país de origem isso não era permitido... só o pude fazer, já aqui em Portugal... e sabe o que pensei, enquanto estava ao lado da minha mulher, que estava em trabalho de parto? Sabe o que vi, ali, naquele momento, com uma clareza maravilhosa?" 
- "Não - respondi - não sei!
Continuou:  - "Pensei que os homens poderão querer continuar a conquistar o mundo, de várias formas e em vários tempos, mas o mundo, será sempre das mulheres, não acha?"
Que bem que me cheiraram aquelas TULIPAS!!!!!

quinta-feira, 7 de março de 2013

 
 
MENSAGEM ENVIADA
 
 
 
Eu e o Nuno íamos pelo caminho, no banco de trás e, entre outras coisas que fazíamos, algumas exasperantes para os meus Pais que seguiam nos bancos da frente, um deles a conduzir, era o contar as árvores da estrada. Era como uma pausa mais calma, entre as "diabrices" de duas crianças, cansadas de viagens longas de carro. Ele tinha sempre mais paciência do que eu, que me fartava depressa daquela brincadeira parada de mais para o meu gosto. Ganhava-me sempre, não havia hipóteses. Lembro-me que durante este jogo infantil, eu pensava (infantilmente também...) que as árvores andavam, corriam, acompanhando o andar do carro. Dizia-lhe isso e ele ria muito, chamando-me palerma. Lembro-me depois, mais tarde, de sorrir ao pensar na minha ingenuidade tão infantil... imagina, achar que as árvores andavam! Realmente!! Mas estas viagens de carro, num Toyota branco, antigo, tipo station, que os meus Pais tinham, ficaram marcadas na minha memória, como um selo antigo que se quer guardar, porque é de uma coleção preciosa. Isso e as merendas que fazíamos a meio do caminho (a viagem mesmo para Lisboa, era infinitamente longa!!!), as pausas, os jogos de mímicas, os despiques das canções "à solta" (aí eu ganhava sempre, não havia hipótese!!!), o inventar de histórias para ver a mais "mirabolante", os campeonatos de caretas para ver quem aguentava mais tempo sem rir, olhando de frente, fixamente para o outro (mais outra prova em que eu era "batidinha" pelo Nuno, campeão da resistência séria!!!). Enfim, "selos" e mais "selos" de uma coleção de memórias sem fim, de apontamentos soltos de uma infância tão feliz!
Hoje, não poderia pedir a nenhum dos meus filhos que fizessem viagens de carro assim, entretendo-se mutuamente com este tipo de distrações. Não consigo competir com os Nintendos, Hipads, Playstations e afins que nos "invadiram"... O mundo está diferente e os centros de interesse, ou as distrações, são também diferentes, a própria ingenuidade das crianças é proporcional às vivências e experiências que têm. Duvido que haja crianças de 5, ou 6 anos, hoje em dia, que achem que as árvores andam, acompanhando a velocidade dos carros; mas há coisas em que sou absolutamente intransigente, muito a contra gosto das minhas filhas "aborrescentes" (deve ler-se, "adolescentes"...) e uma dessas coisas é não as deixar que transformem o telemóvel, numa extensão amovível das suas mãos! Não admito e pronto, enquanto for eu a mandar...
É fácil "falar" virtualmente, é menos exigente, mais rápido, mais egoísta e, por isso, mais cómodo... Eu própria sou fã dos SMS: poupam tempo, facilitam logistícas, aceleram procedimentos. Também sou fã das redes sociais, acho sinceramente que se transformaram em meios ao nosso dispor para comunicar, interagir; considero-os "caminhos irreversíveis" que podem ser altamente postos a nosso favor, desde que os saibamos utilizar e desde que não os deixemos "tomar conta de nós". Por isso, terá que continuar a haver espaço e tempo e contexto próprio para conversar "olho no olho", sentindo ao vivo a reação do OUTRO, vendo a expressão do olhar, o ruborizar, o reagir, atrevendo-nos ao toque, à ternura que só é possível ao vivo, obrigando-nos a enfrentar "no direto" as pessoas, as coisas, as conversas, as consequências. Isso é muito importante para o equilíbrio emocional, sobretudo e com maioria de razão para quem está, ainda, a crescer! Tem que continuar a haver espaço para os jantares de família (qualquer que ela seja, na sua forma, tipo, contexto, ou maneira...), para os livros, para a música, para as conversas deliciosas jogadas fora e maravilhosas só porque existiram, mesmo que não sejam de nenhum assunto em especial, para o olhar em volta, para o sentir das ruas, das pessoas, dos cheiros, dos movimentos, dos barulhos, dos silêncios, dos ruídos, dos sinais, dos fellings, das intuições; para a liberdade do nos darmos ao direito de não querermos estar com o telemóvel, com a mensagem pendente, com o chat ligado... Mesmo que não gostem que lhes imponhamos isso (eu e o pai), sinto/sentimos que isso, essa gestão dessa liberdade, é absolutamente essencial para o seu crescimento e quem sabe, no futuro, não saibam fazer já, de olhos fechados, com a mesma rapidez com que teclam, essa gestão, dessa liberdade tão fundamental e dêm tempo e espaço e gosto a outras coisas que compõem a vida! 
Não quereria correr o risco de, como o Einstein dizia, virmos a ter a "generation of idiots"...
E posto isto... "mensagem enviada!"...