quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

ETERNO CAOS
 
 
Nunca fui muito arrumada. Aliás, funciono muito em "caos organizados", sabendo exatamente onde está tudo e tendo timmings e formas de organização muito particulares. Tenho cá as minhas manias e os meus "tempinhos" e é assim que me sinto bem e tudo vai funcionando na mesma, com eficácia!
Tenho sempre imensas coisas para fazer em várias "frentes de ação": profissional, extra-profissional, pessoal, maternal. Às vezes sinto que precisava que os dias tivessem mais horas, para poder fazer um bocadinho de tudo aquilo que preciso. Outras vezes gostava que as horas se prolongassem o tempinho suficiente para estar a fazer só aquilo que quero e que às vezes é tão pouco e tão depois e a seguir e no fim de TODA a super, mega, hiper logística que me envolve e que se estendeu por todo o dia. Com a vida que levo, tenho aprendido a rentabilizar todos os pedacinhos de tempo, aprendendo também a priorizar todos os hobbies que tenho e que me fazem tanta falta: leitura, fotografia, cinema, algum desporto (... devia ser mais, sim, sim!)... As vulgares lides domésticas, tão terapêuticas para tantas amigas minhas, não o são, em absoluto, para mim (à exeção da cozinha, cozinhando mesmo, que funciona, às vezes, como uma pequena "terapia de laboratório" doméstico onde invento e recrio muito, muito...). Há coisas que nascem impressas no nosso ADN como uma marca vitalícia, como aquelas doenças filhas de um gene silencioso que, a certa altura, resolve manifestar-se porque estava predestinado e essa aversão às tais lides da casa, acredito que seja uma delas. NÃO GOSTO E PRONTO!  Tenho alguma ajuda sistemática, mas o que resta, é tratado por mim (nós), com um espírito prático que me caracteriza nas outras coisas todas: rapidez, determinação, em proporção com a vida que tenho e com a condição de mãe de três filhos ultra, mega, super rápidos e vorazes também a desarrumar (e a arrumar a seguir, porque os obrigo!); mas reconheço que não sou "escrava da casa", das tarefas que lhe são inerentes, do seu brilho e esplendor! Tento habituar-me à ideia de que não consigo ter a casa sempre muitíssimo arrumada, com tudo nos sítios, com bancadas a brilhar. Seria uma luta inglória e desigual, que não quero "comprar", desiquilibrando todas as outras necessidades de tempo e ocupações que tenho, mas confesso que sinto aquela pontinha de "inveja" (daquelas inocentes e sem maldade...) daquelas amigas cujas gavetas dos tupperwares estão tão organizadinhas por cores, tamanhos, formas e funções!!! Como é que é possível???? A minha gaveta dos tupperwares, será o eterno caos, mil vezes arrumada e mil outras vezes caótica... no final, procuro aceitar... talvez seja uma imagem de marca, daquelas que vêm com o "ADN da vida" e se assim é, o que há a fazer?
 
 
 
Boas lides!!!!!


segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013



MOTHERHOOD

Sempre fui maternal... embora não ligue nada ao Zodíaco, julgo saber que o meu signo (caranguejo) esteve sempre ligado à maternidade, ao lar, à família e eu, mais ou menos desatenta e pouco informada sobre estas lides zodíacas, não posso deixar de achar alguma piada, porque de facto, eu era assim e hoje, sou assim. Embora em pequenina fosse "estouvada", endiabrada, aventureira, não gostasse nada de estar sossegada, fosse "alérgica" às lições de croché da minha doce avó Lurdes, nunca tivesse tido paciência para aprender ponto de cruz e outras coisas que ela gostaria de me ter ensinado, adorava, a par da bicicleta, dos patins, das subidas às árvores, dos jogos de berlinde (eu jogava ao berlinde, sim senhora!!!), brincar com bonecas, como as outras meninas da minha idade, às casinhas, aos cozinhados. Não me parece um paradoxo. Hoje, adulta, mãe e Educadora de Infância, acho graça ao facto de algumas meninas (cada vez mais) serem assim, estouvadas, decididas, aventureiras, práticas, mas muito femininas, ao mesmo tempo, projetando nas suas brincadeiras, o jogo simbólico que fazem das suas casas, dos seus lares, das suas mães, (ou adultas cuidadoras) quem sabe? Esta sua feminilidade não se resume só a estas brincadeiras, cada vez mais é impregnada de uma série de outras encantadoras características que associamos de imediato às meninas (capacidade de fazerem várias coisas ao mesmo tempo, gerirem as tarefas de uma forma mais célere, enfim, penso que não correrei o risco de estar a exagerar, salvas as sempre devidas exeções, claro!)
Quando me imaginava adulta, nunca me imaginava sem filhos! Não sei porquê, mas isso fazia parte da minha ideia de felicidade, de projeto de vida. Isso para mim não era redutor, era uma coisa que sentia como quase uma certeza, a par de uma realização profissional que ansiava. 
E hoje, tenho três filhos e sinto-me uma mulher muitíssimo realizada a esse nível, a par de outros níveis de realização pessoais e profissionais que sinto e que me fazem sentir uma gratidão imensa por tudo o que tenho, que é tanto, tanto!
Este sentimento de gratidão incluí o sentir-me parte de uma rede de mães  (conhecidas e desconhecidas) que sentem e vivem isto desta forma, tal e qual a minha. Tenho tantas amigas que sentem isto e com quem me identifico e com quem falo tantas vezes, com tanto e tanto prazer! Tenho depois outras amigas que não sentem nada disto, mas que são, tal como eu, imbuídas de um respeito enorme pela vida de cada um e pelas opções de cada um e conheço depois também, uma série de mulheres que vivem a MATERNIDADE desta forma plena, autêntica e intensa. Esta intensidade implica as várias vertentes de amor, mas também de exaustão (sim, esta às vezes domina-nos!) a que este cargo vitalício nos obriga! A mãe cuidadora, a mãe vigilante, a mãe atenta, a mãe polícia, a mãe galinha, a mãe coruja, a mãe também mulher, a mãe também esposa, a mãe também esgotada, cansada, saturada, stressada, a mãe calma, preguiçosa, egoísta porque hoje só quer estar sozinha um bocadinho, a mãe cozinheira, a mãe, a mãe, a mãe... acho que as vertentes não acabariam nunca, tal e qual o amor que lhes temos!
Sou muitas vezes um bocadinho de todas elas e consigo (oh, Natureza, Natureza...) às vezes, ser um bocadinho de todas elas quase em simultâneo, como um polvo, com vários tentáculos, virando-se em várias direções! Às vezes sinto que sou polícia vezes demais, extenuando-me a impor-lhe regras de vivência diárias, de arrumação, de cuidados domésticos e outros, sentindo que os resultados não se vêm, não se ouvem, não se sentem, mas acreditando, no íntimo que a "semente" está lá e fará a diferença quando for preciso; às vezes sinto que sou a galinha, a coruja, muitas vezes a stressada, a irritada; sempre, a cozinheira, e infinitamente sempre, sempre, sempre a MÃE, só a MÃE, com a unicidade que só ela tem, buscando como só ela sabe, um equilíbrio que surgirá naturalmente, como se a Natureza tivesse previsto esse "metabolismo emocional" necessário às múltiplas solicitações que tem e que, de certeza, os seus filhos vão aprender a respeitar, reconhecer ao longe e amar, muito, muito!
Acredito que o "saldo" deste amor, será sempre positivo...



"-Mãe, vais ser sempre a mais bonita!" - Pedro



quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013





HAPPY VALENTINE

 
 Há coisas que nos entram pela vida a dentro, mesmo sem querermos, ou fazermos nada de especial para que isso aconteça. O assinalar com as crianças do meu grupo de trabalho o dia de São Valentim é um exemplo disso. Nem por sombras estava a pensar hoje em trabalhar este tema. Pensei em fazer com os meninos uma retrospetiva destes dias de Carnaval, perguntando-lhes o que tinham feito nos três dias de interrupção letiva em que muitos ficaram em casa, perguntando-lhes como tinham vivido a quadra numa cidade tão carnavalesca como aquela em que trabalho e seria por aí, fazendo um ponto final a esta temática, relembrando-a, falando das experiências familiares e de vida, ouvindo os colegas, relatando episódios extra-escola. Os dois dias úteis que nos separam do fim-de-semana seriam propícios a essa conclusão antes de iniciar uma nova semana de trabalho. Sei que se pode aproveitar este dia para se falar nos AFETOS, na AMIZADE, na PESSOA MAIS QUERIDA e extrapolar por aí em diante, toda a teia de valores e conceitos que se querem trabalhar com os grupos. Aliás, como refiro várias vezes, essa é uma riqueza grande do Pré-Escolar: a transversalidade que tudo pode ter e a versatilidade responsável que podemos dar às temáticas.
Mas pronto, eu não estava para aí virada, não tinha pensado ir por esse caminho, até porque acho que damos aos temas o peso que nós próprios queremos dar... mais, ou menos, conforme a intensidade com que os vivemos.
Lembro-me, na adolescência e juventude, de dar a este dia um colorido especial, fazendo dele aquele pote meloso de lembranças, recados, bilhetes, mensagens e tudo o mais e resto que nos é oferecido, um pouco pela nossa imaginação e outro pouco (ou muito) pelo comércio! E eu, adolescente e jovem normal (penso), sempre lhe dei essa cor.... 
Hoje, mal entrei na minha sala, gritaram-me: -" PAULA, HOJE É DIA DOS NAMORADOS!!!!" - e eu, apanhei este dia no colo, assim, mesmo sem pensar... Falámos nos namorados, nos amigos, nas amigas, nas pessoas queridas, nos pais e mães namorados e nos pais e mães que não são namorados e nos pais e mães que têm outros namorados... falámos nas manifestações de carinho, nos beijinhos, nos abraços, nos sorrisos, falámos nas pessoas mais queridas para nós, falámos nos corações e nas cores dos corações... E FOI TÃO BOM!!! As crianças têm esta capacidade mágica de me deliciar com coisas tão simples!  Um mero coração de papel pintado e recortado, surgiu, do improviso, colocando lá dentro AQUELA(s) pessoa(s) mais querida(s)!
E lembrei-me de mim e do meu namorado, lembrei-me das minhas amigas que, como eu, tiveram (e têm) um namoro longo, preenchido com descobertas de um e do outro, ao sabor dos anos e do crescimento e da vida; lembrei-me das minhas amigas que tiveram um namorado e já não têm, lembrei-me daquelas que optaram já por não querer ter nenhum, ou pelo menos nenhum sério, estável, duradouro, com cara de "projeto de vida"; lembrei-me daquelas que optam por ter um namorado só "aos bocadinhos", quando lhes apetece, adaptando o namoro aos comodismos de cada um, porque já são mais velhas, porque já não têm paciência, porque já não faz sentido de outra forma, ou só porque sim; lembrei-me daquelas que não conseguem esquecer o primeiro namorado e que, por isso, pautam todos os outros pela mesma tabela afetiva, esquecendo-se que nessa tabela só cabe um; lembrei-me daquelas que fazem do "ter um namorado" um projeto de vida, porque a solidão assusta mais que um namorado que ainda não existe; lembrei-me daquelas que procuram um namorado e não o encontram, porque o que vêm não é aquilo que procuram.... Todas estas amigas fazem parte da minha rede de afetos e têm um nome e sei quem são e hoje, para todas elas, apetece-me só dizer que se calhar, o mais importante é pintarmos o nosso coração da cor que quisermos e pormos lá dentro AQUELA PESSOA MAIS ESPECIAL, tenha ela a cor e a forma e o título e o elo e o peso e a força que lhe quisermos dar e assim, como os meninos e meninas da minha sala, veremos este dia com olhos mais simples mas verdadeiros, os olhos do AFETO!
 
 
"Um namorado é um amigo, mas não normal, diferente... daqueles assim especiais, que se gosta tanto, tanto..."
 
 João Bernardo, 5 anos

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013




BEATRIZ versus IRENA


A minha mãe punha-nos aos dois no comboio, entrava lá dentro connosco, provavelmente entregava-nos ao cuidado do revisor, ou de alguém com responsabilidade e esperava que o comboio partisse. E lá íamos nós os dois numa viagem mágica naquele cubículo com um beliche e um lavatório e sanita. Esta viagem começava sempre ao fim da tarde, pois o comboio percorria o País durante toda a noite, chegando ao Porto de manhãzinha. Era chamado o "comboio cama" que ia do Algarve ao Porto. Lembro-me que dormíamos tranquilos, embalados pelo som das carruagens e quando nascia o sol, corríamos para a janela para ver o dia. Em Vila Nova de Gaia, saía muita gente e um dia perguntei porquê... o revisor explicou-me que muita gente tinha medo da curta travessia que o comboio fazia à velha ponte D. Maria Pia, sobre o Douro, que era muito antiga e que por ser tão velha, temia-se que caísse. (Em 1991 foi "substituída" pela ponte S. João).
 Lembro-me que o Nuno ficava assustado e às vezes, zangava-se comigo por eu querer fazer a travessia com a cabeça de fora da janela, mas eu, levada pela inocência e ingenuidade infantis e também por ter sido sempre mais rebelde e aventureira, adorava aqueles minutos de adrenalina pura, em que o comboio ía devagarinho, devagarinho.... Quando o comboio chegava à estação da Campanhã, são e salvo, as minhas primas minhotas estavam sempre, invariavelmente à nossa espera e seguíamos com elas, para outra viagem, mais curta e noutro comboio, do Porto para Baroselas, uma pequena vila, do concelho de Viana do Castelo, perto da aldeia do meu avô. E se hoje, tenho a certeza absoluta que nunca mandaria os meus filhos numa viagem de comboio para tão longe, mesmo que com todas as salvaguardas de segurança que a minha mãe acautelava, esta viagem era também o passaporte para uma férias de Verão deliciosas, absolutamente diferentes da realidade urbana que tínhamos diariamente, podendo gozar de vivências rurais tão distantes das nossas e por isso, tão encantadoras. O Minho mais puro, tantas vezes relatado pelo nosso avô materno e para nós tão distante, entrava-nos assim pela vida dentro, comprovando que tudo o que é experimentado é mais absorvido/interiorizado/vivido. Esse Minho profundo enchia-nos de episódios, situações e lembranças que guardo até hoje, num cantinho da minha memória e do meu coração e que contribuiram para que cosesse com nós apertadinhos, mais este bocadinho de mim, a outros e outros e outros, transformando-me no que sou hoje.
As ordenhas, as casinhas de pedra, as sanduíches de broa de milho e sardinhas, os banhos no rio, os sinos a tocar e a fila de gente que acorria para a Igreja, o saudar o "Sr. Abade" no final da missa, as visitas às casas de tantos primos e primas, o limpar dos sotãos dos primos que estavam na França, as compras na venda e a "avozinha", aquela "avozinha" deliciosa que me fazia ter (como tenho até hoje, talvez por sua causa, quem sabe?) uma imagem ternurenta e carinhosa de todos os velhinhos (as).
Esta figura marcou-me de tal maneira de ternura que liguei sempre o seu nome (Beatriz) ao nome que queria dar um dia a uma filha, se a tivesse! Era a irmã mais velha do meu avô e já era muito velhinha nessa altura. Era uma mulher muito grande, com mãos e pés compridos e uma altura que contrariava a norma. Lembro-me dela sentada numa cadeira de madeira, daquelas de baloiço, junto à braseira, com um terço, ou novena, já não sei, entrelaçados nos dedos grossos. Tinha uma pele sempre rosada e uns dentes perfeitos! Eu pensava como era possível alguém daquela idade ter uns dentes tão perfeitos e um sorriso tão bonito. O cabelo era branco, sempre apanhado atrás num clássico carrapito. Contava-nos histórias do meu avô e de todos os irmãos e eu gostava, gostava de ali estar sentada aos seus pés a ouvir, a "beber" todas aquelas raízes tão profundas do meu lado materno.
Eu e o Nuno não éramos seus netos, mas sim sobrinhos-netos, mas não importava. Chamávamos-lhe "avozinha" na mesma, como todos os primos e por causa dela, o nome BEATRIZ ficou a ter uma carga afetiva tão forte para mim.
No outro dia, a propósito de um post que uma amiga pôs no Facebook acerca de IRENA SENDLER (cuja história já conhecia e é mais uma das tantas e tantas que admiro acerca da 2ª guerra mundial), fiz uma ligação direta à imagem da "avozinha" da minha infância, pois achei-as parecidas, pelo menos parecidas àquela lembrança que guardo com ternura.
Não sei se a "minha avozinha" teria tido a coragem que IRENA SENDLER teve, mas sei que as acho parecidas e que, ao olhar para a imagem daquela velhinha polaca me lembrei da doce tia Beatriz.


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013




SORRIR COM O FÍGADO...



"Um dia sem rir é um dia desperdiçado"
 
- Charles Chaplin - 

Nunca gostei particularmente do Carnaval. Lembro-me que quando era miúda também não tinha um especial gosto, mascarava-me na escola, normalmente para marcar o dia festivo e pouco mais. Lembro-me que também na minha casa, esta quadra não era particularmente vivida. Não por nada em especial, talvez até por acaso, foi sempre assim e pronto! E assim crescemos lá em casa, "herdando" esta certa indiferença ... Talvez por isso nunca cultivei o hábito de me mascarar, de ir a festas, bailes e afins, alusivos à quadra. Já mais velhinha, na adolescência e juventude, o Carnaval era mais uma oportunidade para nos juntarmos todos em grupo, às vezes mascararmo-nos, sairmos, mas sempre num espiríto mais ou menos distante para mim... achava sempre alguma piada, ao longe, à forma como alguns amigos e amigas viviam tão INTENSAMENTE, esta data... era engraçado ver isso, mas nada mais em especial, não me envolvia particularmente. Hoje, adulta, acabo por viver o Carnaval na escola, com os miúdos e envolvo-me com eles nesses curtos dias e no dia da festa em si e procuro centrar-me na ALEGRIA, dando-lhe o papel central de uma quadra. Assim, os palhaços, a folia, as partidas, as brincadeiras, o riso, aparecem na minha sala como "reis e senhores" de uma festa que nos "entra pela porta sem pedir licença" e fica, fica por aquelas breves horas e enquanto duram, envolvo-me e brinco e canto e danço com os miúdos, sentindo que eles têm mesmo aquele efeito avassalador de contágio daquilo que sentem, como se não conseguissemos, ou pudessemos ficar imunes a isso.
Para mim o CARNAVAL resume-se a isto e tem sempre, nos "bastidores" disto, alguma impaciência que me assalta e que marca a quadra.
Hoje, sentindo esta impaciência miudinha, tive uma tarde de cinema em casa, longe dos "Carnavais borbulhantes" que andam por aí, com chá quentinho, edredon, sofá e lareira acesa e tive oportunidade de rever um filme que já tinha visto no cinema ("Comer, rezar e amar", 2010). Não o acho um filme exuberante, daqueles que nos marcam para a vida, é um filme light, mas interessante, que relata o percurso pessoal de alguém que parte, em busca de si própria, através de uma viagem por alguns países, onde descobre pequenos pedaços de prazer e equilíbrio que, juntos, contribuirão para o equilíbrio total. É com a Julia Roberts, de quem gosto muito e hoje, nesta tarde de impaciência carnavalesca miudinha, retive uma frase de um dos personagens: ..."tem que se sorrir com a boca, com a mente, com o coração, com o fígado...", como se o sorriso nos tivesse que vir das entranhas mais viscerais de nós próprios e como se servisse, sempre, de antídoto para tudo!
Hoje, ao contrário da primeira vez em que vi o filme, esta frase chamou-me a atenção e fez uma ligação direta com a alegria e riso carnavalescos!
Mesmo que o riso mostrado nas festas e desfiles seja ôco e esconda grandes tristezas que voltarão à tona após a anestesia festiva, mesmo que se sinta que tudo é vivido de forma tão exuberante, exagerada, excitada, que torna tudo relativamente falso, mesmo que se goste de assumir, por momentos, outras personagens/figuras tão distantes de nós próprios (os verdadeiros), tão distantes, tão distantes que nos descaracterizam,  valha-nos o riso, valha-nos a alegria que devemos tentar sentir no Carnaval e também em todos os outros dias, forçando às vezes um sorriso que é exteriorizado pela boca, mas que deve vir do coração, da mente, do gesto, da expressão, do olhar, e também das entranhas mais profundas, como o "fígado". Quem sabe se assim, insistindo nos sorrisos diários, estes vão sendo cada vez mais terapêuticos?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

 
 
TERNURA
 
 
"Nem o maior revolucionário abandona a ternura"...
 - CHE GUEVARA -

 
 
Há coisas que nos tocam e interpelam e que produzirão sempre esse efeito, por mais anos que tenhamos, ou por mais que já tenhamos escrito acerca delas. Fazem parte da nossa natureza e pronto, não há nada a fazer! Nunca as sentiremos como tema repetitivo, pois para nós será sempre novo, eloquente, significativo! É isto que me acontece com temas relacionados com GENTILEZA, AFETO, TERNURA, CORDIALIDADE... Não me considero "cor-de-rosa", nem o quereria ser... Sou romântica (já o tenho dito), mas sei que há cinzentismo, há "garras de fora" quando tem que ser, há tomadas valentes de posição, ou quente, ou fria (o morno, nem sempre é exequível...), há determinação e ainda bem! O equilíbrio que devemos ter na vida encarrega-se de nos fazer sentir tudo isso nos momentos devidos.
 O gosto pelos temas referidos não tem nada a ver com isto... tem a ver com uma necessidade muito grande que sinto de dizer que é por aí, pela ternura, que terão que passar todas as mensagens, com toda a veracidade dos seus factos que, muitas vezes, são duros!
A ternura, a ternura... Tive durante muito tempo uma frase de eleição, atribuída ao Che Guevara (não sei se será mesmo dele, mas vi-a num site, ou revista, já não me recordo e era atribuída a ele...), que era: "Nem o maior revolucionário abandona a ternura". Adorei desde logo a frase. Significou para mim decisão, firmeza, luta, mas ternura, como se tudo tivesse que ser "mesclado" com esse brilho para se perpetuar, no tempo, nos corações, nas memórias.
Pouco sei do Che Guevara. Aquilo que sei acaba por ser o senso comum normal, aliado a mais alguma informação pontual que a vida vai trazendo... Sei que nasceu na Argentina, trabalhou desde cedo e estudou ao mesmo tempo, formou-se em medicina e uma viagem que fez de bicicleta, com um amigo, pela América central fê-lo deparar-se com uma série de condições de vida miseráveis e paupérrimas, o que lhe fez ter um "click" revolucionário, altamente inflamado também, pelas condições de vida políticas e sociais que se viviam na Argentina do seu tempo... daí para a frente é o que se sabe, até ter sido assassinado na Bolívia, nos anos sessenta. Independentemente de todas as coisas menos boas que todas as revoluções/lutas armadas/guerras têm, ficará sempre ligada a este homem (e a outros como ele, nos seus tempos, nas suas histórias...) uma aura romântica, revolucionária, idealista. Pela minha parte, penso assim. Um filme que vi sobre a sua vida e essa tal volta de bicicleta que fez pela América Central ("The motorcycle Diaries", 2004), contribuiu para essa ideia e quando "descobri" a frase que lhe atribuo, achei que estava certa.
Então, sejamos todos revolucionários, firmes, lutadores, obstinados por aquilo em que acreditamos, teimosos, persistentes, mas ternos, inflamando com ternura todas as mensagens que quisermos passar. Não passarão todas, certamente, a vida encarrega-se de "processar toda a informação" e selecionar, com o tempo, o que é útil e o que não é, mas de certeza que deixaremos uma marca, mesmo que levezinha, nos outros! Bora lá?

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013



 - Oh mãããeeee...

Ter duas filhas adolescentes é uma descoberta diária e uma caminhada que não tem receitas, ou estratégias definidas. Não valerá a pena nunca dramatizar: nunca será tão fácil como se quereria, mas também nunca é tão mau como se pensa! Ainda por cima, as minhas filhas são duas adolescentes completamente diferentes uma da outra e são diferentes desde bebés, em tudo, o que nos dá a todos lá em casa um "palco" de cenários" diários de reações e atitudes diferentes perante as coisas. Às vezes até me rio porque me consigo rever um bocadinho em cada uma delas, como se a genética se tivesse preocupado em fazer uma distribuição equilibrada das minhas características por uma e depois, por outra. Se fisicamente são muito mais parecidas com o pai do que comigo (resta-me o mais novo para me dar esse "alento" da parecença fisíca comigo... ou, pelo menos com o lado materno...), em termos de feitios e atitudes perante as coisas, partilham as coisas parecidas à mãe... 
Lembro-me que não fui uma adolescente difícil. Tinha as minhas rebeldias (e ainda bem!) que, comparadas com muitos dos problemas a que hoje se assiste, eram "brincadeirinhas de crianças", fazendo-me agora até esboçar um sorriso quase inocente quando as recordo. Os meus Pais eram absolutamente vitais na minha vida, tinham um papel complementar, mas diferente, como se cada um de ocupasse de uma área da minha vida, mas estivesse sempre a par de todas as outras, como aqueles puzzles em que uma pecinha só encaixa numa outra, mas contribui para todo o resultado final... e tinham um papel muito bem definido, seguro e atuante sempre que achavam necessário. E isso fez-me muito bem! Incutiam-nos autonomia, mas também responsabilidade, decisão, mas também apoio de retaguarda, iniciativa e brio naquilo que fazíamos, mas também a preocupação de nos mostrar que nos amavam tal e qual éramos, sem espetativas infundadas e ilusórias... ao mesmo tempo, tentavam sempre que criassemos espetativas plausíveis de nós próprios, encaminhando-nos para uma vida com sonhos (sempre essenciais), mas realidades também, daquelas que moldarão em grande parte, os nossos futuros.... Lembro-me que apesar desta cumplicidade de retaguarda, não eram os meus confidentes de eleição... as amigas e amigos sim, esses eram sempre os escolhidos, nas diferentes fases da vida, para os primeiros desabafos e conversas mais difíceis e hoje, adulta, consigo dizer que ainda bem, é assim que tem que ser... como se o passarinho tivesse que voar sozinho antes de voltar atrás, ao ninho de origem...
As minhas duas filhas adolescentes, diferentes, procuram-me para desabafar, para me contar alguns (sei que poucos, os que bastam no seu entender...) segredos e para me pedirem a opinião, às vezes, muito seguras de si, com ares de sabedoras de tudo, como se o perguntar à mãe fosse só o confirmar (ou não) daquilo que já sabem... tenho que ouvir sempre, gerir os timmings das respostas e procurar um equílibrio nem sempre fácil entre o dizer-lhes o que penso com segurança e também o acolher/ouvir/processar/ o que me dizem, por muito disparatado que pareça (e tudo isto sem lhes fazer perceber como tudo é tão previsível!). Tenho que acolher sempre, não me anulando a seguir, mesmo que a resposta não seja aquela que querem ouvir, mesmo que finja um ar desinteressado que lhes facilita o desabafo, mesmo que me ria por dentro da dúvida, da questão... tenho que lhes prometer sempre que fica entre nós, incluindo sempre o pai "nesse nós" tão grande, fazendo-lhes ver que ele é também uma "peça" absolutamente vital nas suas vidas, mesmo que recorram sempre primeiro a mim, com um recorrente: -"Oh mãããããeeeeee!", seguido de sabes, mãe, tu é que entendes estas coisas..."
Quero acreditar que assim esteja a criar entre nós um elo de confiança que será importante para suportar crises futuras e ao mesmo tempo que lhes esteja a ensinar (sem livros, fórmulas em papel, decretos, ou receitas...) uma rede de relações de afeto que nos ligam a todos lá em casa e que nos tornam, aos bocadinhos e de vez em quando, todos responsáveis uns pelos outros.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013



PERFUMES



O meu último post ("EMPATIA"), fez-me refletir sobre a quantidade de gente que me inspira por motivos vários, ou sobre aquela quantidade de pessoas sobre as quais teria sempre "assunto para escrever"... São tantas! Mesmo aquelas pessoas que passam pela nossa vida sem a marcar, sem deixar um "risco" profundo, ou desenhado com "canetas de tinta que não sai", também essas, podem sempre ter alguma coisa que nos chama mais a atenção. Poderia escrever sobre algumas dezenas... ou teria outras tantas que me dizem tanto, tanto (por vários motivos) que a escrita não poderia nunca ser linear, levaria tempo a processar, a apurar a essência mais verdadeira do que quero dizer! Para essas, vou-me sentindo dia-a-dia, acreditando que as marcas que me deixam darão sinal que conduzirá a esta disposição maravilhosa para a escrita e para o seu "lançamento" para uma "blogosfera  quase universal"...
É quase como um perfume... Nunca fui fiel a um só perfume, gosto de vários e já tenho mudado de "cheirinho de eleição" várias vezes. Também aqueles que por mim passam, têm vários odores, que inalo mais, ou menos profundamente, conforme a ocasião, o estado de espírito, o ascendente que essa pessoa tem em mim, a minha própria disposição, ou até, a unicidade dessa pessoa...
perfumes que se notam logo, tão fortes que são, tão inconfundíveis... há outros, talvez mais raros, feitos de uma essência diferente, não são logo notados, passam por outras coisas que não se explicam, às quais não sabemos logo dar um nome, mas que são tão maravilhosas, exuberantes, diferentes, únicas, que não esquecemos, ficam-nos marcadas com a tal "caneta de tinta que não sai"; há outros ainda, que são uma mistura das duas primeiras coisas: fortes, exuberantes, únicos e raros! E depois há perfumes que gostamos de repetir, tal é o gosto que lhes temos!
Sei quais são os meus perfumes a repetir, sei quais são aqueles frasquinhos aos quais recorro de quando em vez e até sei que perfume usar em que ocasião... Sei que também todos somos um pouco perfumes para alguém, mais fortes, mais fracos, mas únicos e maravilhosos, à medida do que cada um quiser e essa sensação de preenchimento é maravilhosa...
E isto tudo, sabem porquê? Porque acredito que os perfumes são pessoas, daquelas verdadeiras que nos enchem os espaços da vida sem pedir, que nos aparecem às vezes do nada, que têm histórias para nos contar...é tão bom quando lhes sentimos o perfume... é tão bom quando os nervos olfativos do nosso cérebro deixam que esse perfume nos toque, por qualquer razão e fique connosco para sempre... para podermos repetir, ou não, ao sabor da nossa vontade e é tão bom também, ser um perfume para alguém!
Bons cheirinhos...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

 
 
 
EMPATIA
 
«Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos...»

Antoine de Saint-Exupery, in O PRINCIPEZINHO
 
Tenho andado enredada com coisas para fazer e com as milhentas solicitações dos meus filhos, que me absorvem e que me obrigam a ser muito disciplinada, tentando arranjar um equilíbrio (mesmo que ténue...) entre a prioridade absoluta que são na minha vida e a necessidade que também tenho de ter tempo para mim, para as minhas coisas, interesses, "nonsenses" e afins. Às vezes duvido desta nossa capacidade feminina de gestão interna e externa, profissional e pessoal, conjugal e individual, mas logo a seguir presto-lhe homenagens eternas e convenço-me que a NATUREZA será mesmo feminina, tal foi o dote de múltipla gestão e capacidade que todas, de uma forma ou de outra, vamos tendo...
Às vezes, tudo isso que é meu, em primeiro plano, fica para trás, confesso, mas outras vezes, soa um "alarme" interno muito sonoro que me faz priorizar-me com avidez! O espaço de tempo entre estes meus textos reflete um pouquinho essa gestão interna, feita à minha medida. Neste processo mais ou menos introspectivo, vão pairando no meu pensamento ideias, apontamentos de opinião, acontecimentos, que depois vou processando (às vezes ao ritmo dos afazeres, das pausas, das rotinas e das vontades) e processando, até que "explodem", tendo que os passar para o "papel"...
Foi assim com ela. Há dias, quando a revi, ocasionalmente, a minha "compulsãozinha" de escrita, deu sinal e fez-me reflectir sobre alguns fenómenos que acontecem nas relações inter-pessoais e que não têm explicação, pelo menos não têm daquelas explicações lineares, que vêm nos livros e que servem para todas as respostas...
Há determinadas coisas na vida que acho que não se explicam e a empatia entre as pessoas será uma delas.... sempre a achei agradável, descontraída, havia qualquer coisa nela que me despertava simpatia, proximidade. Nunca saberei explicar o quê, até porque não tivemos nunca uma relação próxima: nunca fomos amigas, nunca andámos na escola juntas, não sei muito sobre a sua vida, apenas alguns pormenores contados socialmente em encontros partilhados com tantas outras pessoas, mas sempre me agradou falar com ela e sempre houve alguns pontos de identificação sentidos nessas ocasionais e esporádicas conversas. Gostava de conversar com ela e havia qualquer coisa, dentro do social, que a fazia parecer, para mim, diferente. Fui acompanhando a sua segunda gravidez, de longe, ao sabor deste ritmo social de convívio esporádico, muito provocado por uma atividade desportiva em comum, de um dos meus filhos e apercebi-me que era uma gravidez muito desejada, vivida, pareceu-me sempre, dentro de uma relação de casal feliz, equilibrada... um pouco como uma outra, secreta, que me parece assim... De repente, por amigos em comum, soube que perdera o bebé, a pouquíssimas semanas de nascer! Lembro-me que me senti angustiada pela dor que adivinhei que estivesse a sentir e também por ser inimaginável para mim a reação que se tem a uma dor dessas, tão grande... é perder um filho, só com a diferença de que ainda não nasceu, mas já é nosso, já está ali, tão vivido e sentido e amado e querido, que é real, palpável e verdadeiro, um filho que falta tão pouco, tão pouquinho para nascer... só não lhe podemos ainda pegar, um filho que é fonte de projetos, esperanças, expectativas, sonhos...!
Não acompanhei de perto... pedi a uma amiga comum que lhe enviasse um beijinho especial, fui sabendo por amigos como ia reagindo... fui pedindo, em segredo, por ela e por ele também, fui-lhe admirando o sorriso que continuava a ter quando nos víamos, fui-lhe agradecendo a aparente naturalidade com que ia falando do assunto, desarmando o meu constrangimento e fazendo-me perceber que, às vezes, falar sobre as coisas, "espanta os fantasmas" e ajuda a desabafar, mesmo que não apague uma dor que será eterna, fui-lhe admirando a fé que sei que tem, fui concluindo que não sabemos nada, mesmo quando achamos que já sabemos tudo, fui-lhe dizendo, em pensamento, que essa dor suavizará, ajudada pelo tempo que servirá de unguento e também por um amor que a suporta e ampara e hoje, quero-lhe dizer que lhe agradeço por, sem disso fazer ideia, ser tão inspiradora para mim!
Hoje, o meu beijinho vai para ela, com o tamanho da blogosfera para onde vou mandar este post, com pintinhas de muita, muita força e com um OBRIGADO gigante à "tal" empatia que nos aproxima, sem sabermos explicar porquê, de gente tão boa e tão grande!


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

 
 
 
MAMÃ, ADORMECES-ME?
 
Lembro-me que gostava que ela me adormecesse, nem sempre, confesso, mas recordo com particular pormenor as crises da adolescência (fui muito piegas!!!), em que a lágrima fácil caía muitas vezes sem pedir e em que eu, a seguir, lhe pedia que se viesse deitar comigo... às vezes, sentia-a-apressada, mas em momento algum se recusou. Deitava-se a meu lado e eu, agarrava-a com muita força, quase não a deixando mexer-se. Ela afrouxava o aperto, com suavidade e continuava ali e eu sentia-lhe a respiração ao lado da minha e o compasso do peito que acalmava. Não me lembro se líamos, se conversávamos, se este momento se estendia muito no tempo... o que recordo com uma nitidez translúcida é que vinha, vinha sempre! Às vezes, tentava sair, uns pedacinhos depois, mas eu, ainda sem dormir, apertava-a de novo, segurando-a ali, naquele pedacinho de céu que era só das duas!  Quando eu adormecia, calculo que finalmente saisse e fosse continuar a infinidade de coisas que todas as mães têm para fazer.
 Tenho esta recordação, um pouco perdida na idade, não sei precisar quantos anos teria, mas em muitos momentos foi assim e então, este lembrar fidelíssimo destas suaves vigílias, cresceu comigo e hoje, mulher feita e mãe de três filhos, estou eu no "lado de cá", a ser mãe, trabalhadora, mulher/esposa, a ter uma infinidade de coisas para fazer em casa e também para fora de casa, a querer ter tempo só para mim, nem que seja para estar anestesiada a fazer "nadinha" e a achar, logo a seguir, que isso é uma utopia e a achar também que o dia devia ter um bocadinho mais de horas, daquelas que dessem para "esticar" um pouco mais, só um pouco, até conseguirmos fazer tudo o que precisamos. Agora estou eu do "lado de cá", a ouvir, o pedido: "mamã, adormeces-me?" e a ficar, às vezes, um bocadinho contrariada porque o peso da logística é muito grande e o que há para fazer é tanto e tanto.... mas cedo, algumas vezes... bem, quase sempre! Confesso que partilho muitas vezes esse pedacinho de "coisa boa" com o pai, mas fico sempre "culpada"... e às vezes, a minha suave recordação soa mais alto e impele-me a ir eu, sempre eu, outra vez eu...
Ontem, a minha rosinha mais bonita (nome que chamei ao Pedro num post antigo... - não me dispus ainda a ver como se fazem aquelas hiperligações que remetem alguma expressão, ou frase, para outro post mais antigo...), veio ter comigo e pediu: "mamã, adormeces-me?"... quis ler, quis falar do seu dia, quis contar uma série de coisas e quando o sono o venceu, virou-se para o lado, aconchegou o edredon e agarrou a minha mão e braço com força... eu, suavemente afrouxei-o e procurei uma posição que me permitisse não adormecer por completo, (o que é uma tarefa hercúlea!) e fiquei, enlevada, sentindo-lhe agora eu a respiração e fazendo o meu pensamento viajar para longe, fazendo com este pensar, pictogramas coloridos de coisas, de lembranças, de pensamentos, de nada... tentei sair daí a pouco e ele resistiu e então, uma recordação nítida como a água de um rio nativo me assaltou e me fez pensar que há coisas que não se explicam, que se repetem na história, que são intemporais, que saltam gerações e classes e géneros e sítios e espaços e momentos e famílias, há coisas que são assim e pronto e que mesmo quando cedo um pouquinho resmungona, logo, logo a seguir, agradeço com muita força por aquele pedido: "mamã, adormeces-me?"

 


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

 
 
 PALAVRAS QUE BEIJAM
 
Não sou "expert" em poesia, nunca fui, não é o meu género literário preferido, embora goste muito de ler e seja sensível a alguns poemas que, ao longo do tempo, me foram marcando por um, ou outro, motivo. Recentemente, ouvi falar de um poema de Alexandre O'Neill, chamado "PALAVRAS QUE NOS BEIJAM" e achei o título muito sugestivo, porque tinha tido um dia "cinzento", navegando na ondulação de indelicadezas várias e de faltas de cortesia pessoal, profissional, institucional. Isto fez-me pensar naquilo que digo sempre:" a simpatia é a qualidade que mais admiro nas pessoas". Essa simpatia faz quase uma ligação direta com a cordialidade, com o sorriso, com a delicadeza no trato, que não têm nada a ver com falta de rigor, falta de brio, displicência... Isto também tem a ver com o papel que, acho, todos os profissionais de educação devem ter numa escola e quando digo "profissionais de educação", não me refiro só aos professores, mas a todos aqueles que, por inerência de funções, são agentes educativos, embora, com maioria de exigência, essa obrigação seja em primeiro lugar, dos professores.
Fico triste quando vou a reuniões de Pais onde se fala o mínimo e onde se tenta ao máximo que os Pais estejam o menor tempo possível, não se aproveitando essa pequena ocasião para partilhar, com segurança, informalidade e generosidade, tudo o que se faz na escola, com aqueles agentes educativos tão importantes, que são os Pais. Sei que há PAIS e PAIS e compreendo os colegas que, à custa de tanta falta de TUDO e também de reconhecimento pelo seu trabalho, se escusam a falar, a partilhar, resumindo-se ao essencial e àquilo que é mesmo (e só) obrigatório dizer; mas agora, neste pedacinho de linhas, apetece-me sentir só, o meu papel de mãe, interessada e respeitadora da escola, vigilante e preocupada, mas assumindo alguma descontração, que acho absolutamente essencial e pedagógica. Procuro ser cúmplice e par nesta tarefa de educar, em que o maior encargo é o meu, de mãe, mas tento perceber todas as dificuldades inerentes a um sistema que não é fácil e que está, aos bocadinhos, cada vez pior. Esta vontade que agora sinto de viver este papel de mãe, este "lado de cá", legitimará estas minhas palavras, creio...
Tento, com todas as forças, não ficar indiferente, amorfa e resistir, com imunidade reforçada, à indiferença, e ao comodismo, continuando a gostar daquilo que faço, gostando de O contar "lá para fora", gostando de partilhar boas práticas com colegas e Pais, gostando de articular com outros colegas, de outros ciclos, descobrindo-lhes riquezas e novidades que eu também lhes conto do meu... Esta opção é muito difícil, sobretudo quando tudo joga contra nós: os colegas, as mega-estruturas escolares (que descaracterizam...), as faltas de alento, as desmotivações, as insensibilidades e desconhecimentos de cada um, as opções também contrárias (e legítimas) dos outros...
Mas depois, sem esperar, na "tal" ondulação de indiferença, vai-se a uma outra reunião de Pais, de um outro filho, e ouve-se falar em poesia, ouve-se contar que se leu poesia com os meninos e que se falou sobre umas certas "palavras que nos beijam", ao mesmo tempo que se seguiu e bem, o curso normal da rotina, gerindo aprendizagens, conflitos, metas e currículos e de repente, apercebemo-nos que não estamos sozinhos, que não somos "exemplares únicos" e o coração fica um bocadinho mais cheio outra vez, de esperança e de... "palavras que se recusam ao muros do meu desgosto..."




"Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca
palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca

Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto
palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto

De repente coloridas
entre palavras sem cor
esperadas, inesperadas
como a poesia ou o amor

Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte...

Alexandre O'Neill in, "No Reino da Dinamarca"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

 
 
AMORES ASSIM
 
 
Num mundo que celebra e louva a desatenção, a corrida bárbara para lugar nenhum, eles souberam sempre cultivar essa atenção extrema - extremosa, extremista, radical, absoluta.
Porque tiveram a sorte de se encontrar cedo e de cedo compreender, para lá da química e da física (essencias, mas nunca suficientes), que pertenciam um ao outro - que podiam rever-se nos olhos um do outro como em espelhos límpidos.
Porque liam os mesmos livros e conversavam sobre eles, porque tinham os mesmos ideais e lutavam por eles, porque atravessaram tempestades e não se deixaram levar pela ventania, porque nunca amputaram os sonhos um do outro nem perderam de vista o sonho maior que queriam construir juntos, porque souberam ser a casa um do outro quando a vida os empurrou para longe da casa e do País que tinham...
 
UM AMOR ASSIM
(Jaime Nogueira Pinto, em homenagem à sua mulher, Maria José Nogueira Pinto, in, JORNAL SOL, 22/7/2011)
 
 
 
Não o conheço particularmente e penso que nem é uma figura muito regular da televisão, o que facilitaria o seu conhecimento, pelo menos visual. Sei que é uma figura conceituada das letras, já que é escritor, para além de professor universitário, investigador e empresário. Foi diretor do jornal O SÉCULO e está ligado à Fundação Luso-Africana para a cultura. Foi casado com Maria José Nogueira Pinto, essa figura sim, mais conhecida para mim, já que era uma figura de quem gostava, daqueles fenómenos empáticos que nem sempre sabemos explicar, gostava de a ouvir falar, admirava-lhe a determinação que aparentava ter, identificava-me com muitas das suas ideias quando as partilhava em programas de televisão, crónicas jornalísticas, ou artigos de opinião. Quanto a ele, quase tudo lhe desconhecia, para além de o ter ouvido na televisão uma, ou duas vezes. Eis senão quando, um dia, por acaso, ao ler o Jornal SOL e dias após a morte de Maria José Nogueira Pinto, leio um artigo de página inteira em que este homem, disserta sobre esta mulher e sobre o amor que sempre os uniu... Sabem aquela sensação de enamoramento imediato, de identificação, de cumplicidade, como se aquelas palavras traduzissem uma experiência não só já dele, mas nossa também? Foi o que senti ao ler o artigo! Gostei tanto, que recortei o pequenino excerto transcrito no início e guardo-o na minha agenda, com as devidas referências ao autor, claro, e guardo-o quase como se guardam aquelas relíquias em papel disto, ou daquilo, que todos temos, dobradinhas nas carteiras...
E então, uma figura mais ou menos pública, completamente desconhecida para mim, transformou-se em alguém que passei a admirar, especialmente nesta parte, relativa ao seu amor de todos os dias.... Nunca terei o arrojo de fazer uma declaração de amor tão pública, aqui, nas redes sociais, ou em qualquer outra via semi-partilhada por tanta gente. Sinto alguma timidez, que procuro preservar, quando se trata desta esfera da minha vida, como se fosse um reduto absolutamente sagrado e fechado "lá para fora", mas hoje, lembrei-me deste recortezinho de jornal que guardo com dedicação, quando um casal meu amigo, delicioso, um homem e uma mulher que conheço desde miúdos, que vi crescer, que acompanhei, ao longe, ao sabor da ternura (aquela que liga as pessoas), SE agradeceram mutuamente por existirem, utilizando uma rede social. Hoje, pelos vistos, é o dia do OBRIGADO e eu nem sabia... é engraçada a existência destes dias!!! Talvez tenham querido gritar ao mundo o seu amor, enfatizando aquilo que, de certeza, também dizem na intimidade... Eu agradeço-lhes por isso, por terem, hoje, servido de click "inspirador", por me rever nas suas palavras e tomá-las como espelho para mim, por me terem feito lembrar de um recortezinho de jornal que guardo comigo e que me faz também lembrar UM OUTRO AMOR ASSIM, aquele que guardo, como um tesouro!!! 


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

 
 
 
 SE EU FOSSE UM REI
 
O voltar à deliciosa rotina, como dizia no meu último post, é muito bom, mas de facto, nem sempre é linear o tempo que se leva a fazer isso, como se o voltar aos dias de todos os dias fosse um metabolismo, mais ou menos lento, que nos vai encaixando na tal normalidade de que falava. Então, isso fez com que tenha andado um pouco arredada aqui da blogosfera, não porque não tenha "assunto para escrever", como diz a canção, mas porque tenho sentido necessidade de "processar" toda a informação, de todos os dias, dos assuntos que surgem daqui e dali, sobre os quais quero escrever. Depois, a rotina situa-nos outra vez e as "compulsões" (mais ou menos assumidas), como é a escrita, vão ressurgindo!
 Poderia começar pelo último livro que li e que foi oferecido neste Natal à minha filha mais velha, pela avó materna, que teimosamente e às vezes contra ventos e marés lhes continua a oferecer livros e mais livros (ainda bem avó, ainda bem...). Uma noite, depois do beijinho de boa-noite que ainda regateam, apesar da "embirrenta" adolescência (ou "aborrescência", como dizia um amigo...), olhei de soslaio para o livro e comecei a folheá-lo... bem, foi de uma assentada e ainda estou "falando" com ele... Substituíu outras rotinas que tenho ao serão e, até tarde, acompanhando a respiração pausada do meu mais que tudo, deitado a meu lado, "devorei-o"!!! É o relato, contado pela própria autora (Liliana Segre), da sobrevivência atroz em Auschwitz, sítio para onde foi aos treze anos e onde ficou até à libertação pelas forças aliadas. Hei-de fazer um post sobre o efeito que o livro (minúsculo, pequenino, que se lê de uma assentada) teve em mim, talvez pelo interesse que tenho (como já referi em posts anteriores) pelo tema, mas sobretudo pela forma como a autora "processou toda a vivência que teve e como "saíu das cinzas" depois disso: o tempo que levou a fazê-lo, os suportes emocionais que hoje reconhece terem-lhe dado forças e discernimento para tal, a forma como passa aos outros essa mensagem! Fica prometida uma reflexão sobre este GRANDE pequeno livrinho e também a sua referência bibliográfica, já que não o tenho  agora aqui e não me lembro de cor de todos os dados!!!!
Poderia falar também da noção cada vez mais clara que vou tendo sobre a relação de alguns Pais com a escola e que, infelizmente, constato que vem sendo, lentamente, da maioria... uma relação quase sempre ausente, muito irregular, mas de extrema exigência; não uma exigência suportada num contacto regular, profícuo e de pares, mas uma relação quase unilateral em que se exige, exige, exige, muitas vezes sem conhecer, sem saber os contextos, as dificuldades, o mérito noutras coisas... isto vê-se em reuniões onde participo como mãe, sobretudo nessas e fico triste, muito triste! Penso que a capacidade de ainda sentir alguma tristeza será sinal que ainda não sou, ou estou indiferente, tento pensar assim...
Mas pronto, não vou falar em nada disto! Hoje, assim de repente, apetece-me falar de uma atividade que fiz com o  meu grupo e que é mais, ou menos comum em Jardim-de-Infância. A propósito do Dia de Reis, da exploração das tradições inerentes a esta festividade, das "consequências, ou "efeitos" nas nossas vidas enalteci hoje a imaginação, a criatividade, o jogo simbólico, como elementos potenciadores de fantasias, cenários inventados, mas onde está, sempre, um bocadinho de nós!!! "Se eu fosse um Rei (ou Raínha)? O que faria?
A par de todo o cenário estratégico que envolveu esta atividade e que seria extensivo expôr aqui e a par do jogo dramático que sempre acompanha este tipo de atividade e que nos ajuda tanto a sair da nossa "zona de conforto", foi uma chamada urgente ao IMAGINÁRIO, ao FAZ-DE-CONTA, ao SE... Aflige-me que para muitos meninos e meninas, esse jogo já vá sendo difícil, dificultando-lhes esta viagem à imaginação, levando-os a um mundo imaginário onde, às vezes, é tão bom ir, mesmo que seja aos bocadinhos de cada vez...
"SE EU FOSSE UM REI, mandava que todos pudessem, de vez em quando, imaginar outros mundos, outras cores, outros rostos... ou então, mandava que tudo ficasse como está, ao bel-prazer de cada um, porque SE EU FOSSE UM REI, ia ser um REI bom, com uma coroa brilhante e um castelo de sonhos!