quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013




BEATRIZ versus IRENA


A minha mãe punha-nos aos dois no comboio, entrava lá dentro connosco, provavelmente entregava-nos ao cuidado do revisor, ou de alguém com responsabilidade e esperava que o comboio partisse. E lá íamos nós os dois numa viagem mágica naquele cubículo com um beliche e um lavatório e sanita. Esta viagem começava sempre ao fim da tarde, pois o comboio percorria o País durante toda a noite, chegando ao Porto de manhãzinha. Era chamado o "comboio cama" que ia do Algarve ao Porto. Lembro-me que dormíamos tranquilos, embalados pelo som das carruagens e quando nascia o sol, corríamos para a janela para ver o dia. Em Vila Nova de Gaia, saía muita gente e um dia perguntei porquê... o revisor explicou-me que muita gente tinha medo da curta travessia que o comboio fazia à velha ponte D. Maria Pia, sobre o Douro, que era muito antiga e que por ser tão velha, temia-se que caísse. (Em 1991 foi "substituída" pela ponte S. João).
 Lembro-me que o Nuno ficava assustado e às vezes, zangava-se comigo por eu querer fazer a travessia com a cabeça de fora da janela, mas eu, levada pela inocência e ingenuidade infantis e também por ter sido sempre mais rebelde e aventureira, adorava aqueles minutos de adrenalina pura, em que o comboio ía devagarinho, devagarinho.... Quando o comboio chegava à estação da Campanhã, são e salvo, as minhas primas minhotas estavam sempre, invariavelmente à nossa espera e seguíamos com elas, para outra viagem, mais curta e noutro comboio, do Porto para Baroselas, uma pequena vila, do concelho de Viana do Castelo, perto da aldeia do meu avô. E se hoje, tenho a certeza absoluta que nunca mandaria os meus filhos numa viagem de comboio para tão longe, mesmo que com todas as salvaguardas de segurança que a minha mãe acautelava, esta viagem era também o passaporte para uma férias de Verão deliciosas, absolutamente diferentes da realidade urbana que tínhamos diariamente, podendo gozar de vivências rurais tão distantes das nossas e por isso, tão encantadoras. O Minho mais puro, tantas vezes relatado pelo nosso avô materno e para nós tão distante, entrava-nos assim pela vida dentro, comprovando que tudo o que é experimentado é mais absorvido/interiorizado/vivido. Esse Minho profundo enchia-nos de episódios, situações e lembranças que guardo até hoje, num cantinho da minha memória e do meu coração e que contribuiram para que cosesse com nós apertadinhos, mais este bocadinho de mim, a outros e outros e outros, transformando-me no que sou hoje.
As ordenhas, as casinhas de pedra, as sanduíches de broa de milho e sardinhas, os banhos no rio, os sinos a tocar e a fila de gente que acorria para a Igreja, o saudar o "Sr. Abade" no final da missa, as visitas às casas de tantos primos e primas, o limpar dos sotãos dos primos que estavam na França, as compras na venda e a "avozinha", aquela "avozinha" deliciosa que me fazia ter (como tenho até hoje, talvez por sua causa, quem sabe?) uma imagem ternurenta e carinhosa de todos os velhinhos (as).
Esta figura marcou-me de tal maneira de ternura que liguei sempre o seu nome (Beatriz) ao nome que queria dar um dia a uma filha, se a tivesse! Era a irmã mais velha do meu avô e já era muito velhinha nessa altura. Era uma mulher muito grande, com mãos e pés compridos e uma altura que contrariava a norma. Lembro-me dela sentada numa cadeira de madeira, daquelas de baloiço, junto à braseira, com um terço, ou novena, já não sei, entrelaçados nos dedos grossos. Tinha uma pele sempre rosada e uns dentes perfeitos! Eu pensava como era possível alguém daquela idade ter uns dentes tão perfeitos e um sorriso tão bonito. O cabelo era branco, sempre apanhado atrás num clássico carrapito. Contava-nos histórias do meu avô e de todos os irmãos e eu gostava, gostava de ali estar sentada aos seus pés a ouvir, a "beber" todas aquelas raízes tão profundas do meu lado materno.
Eu e o Nuno não éramos seus netos, mas sim sobrinhos-netos, mas não importava. Chamávamos-lhe "avozinha" na mesma, como todos os primos e por causa dela, o nome BEATRIZ ficou a ter uma carga afetiva tão forte para mim.
No outro dia, a propósito de um post que uma amiga pôs no Facebook acerca de IRENA SENDLER (cuja história já conhecia e é mais uma das tantas e tantas que admiro acerca da 2ª guerra mundial), fiz uma ligação direta à imagem da "avozinha" da minha infância, pois achei-as parecidas, pelo menos parecidas àquela lembrança que guardo com ternura.
Não sei se a "minha avozinha" teria tido a coragem que IRENA SENDLER teve, mas sei que as acho parecidas e que, ao olhar para a imagem daquela velhinha polaca me lembrei da doce tia Beatriz.


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013




SORRIR COM O FÍGADO...



"Um dia sem rir é um dia desperdiçado"
 
- Charles Chaplin - 

Nunca gostei particularmente do Carnaval. Lembro-me que quando era miúda também não tinha um especial gosto, mascarava-me na escola, normalmente para marcar o dia festivo e pouco mais. Lembro-me que também na minha casa, esta quadra não era particularmente vivida. Não por nada em especial, talvez até por acaso, foi sempre assim e pronto! E assim crescemos lá em casa, "herdando" esta certa indiferença ... Talvez por isso nunca cultivei o hábito de me mascarar, de ir a festas, bailes e afins, alusivos à quadra. Já mais velhinha, na adolescência e juventude, o Carnaval era mais uma oportunidade para nos juntarmos todos em grupo, às vezes mascararmo-nos, sairmos, mas sempre num espiríto mais ou menos distante para mim... achava sempre alguma piada, ao longe, à forma como alguns amigos e amigas viviam tão INTENSAMENTE, esta data... era engraçado ver isso, mas nada mais em especial, não me envolvia particularmente. Hoje, adulta, acabo por viver o Carnaval na escola, com os miúdos e envolvo-me com eles nesses curtos dias e no dia da festa em si e procuro centrar-me na ALEGRIA, dando-lhe o papel central de uma quadra. Assim, os palhaços, a folia, as partidas, as brincadeiras, o riso, aparecem na minha sala como "reis e senhores" de uma festa que nos "entra pela porta sem pedir licença" e fica, fica por aquelas breves horas e enquanto duram, envolvo-me e brinco e canto e danço com os miúdos, sentindo que eles têm mesmo aquele efeito avassalador de contágio daquilo que sentem, como se não conseguissemos, ou pudessemos ficar imunes a isso.
Para mim o CARNAVAL resume-se a isto e tem sempre, nos "bastidores" disto, alguma impaciência que me assalta e que marca a quadra.
Hoje, sentindo esta impaciência miudinha, tive uma tarde de cinema em casa, longe dos "Carnavais borbulhantes" que andam por aí, com chá quentinho, edredon, sofá e lareira acesa e tive oportunidade de rever um filme que já tinha visto no cinema ("Comer, rezar e amar", 2010). Não o acho um filme exuberante, daqueles que nos marcam para a vida, é um filme light, mas interessante, que relata o percurso pessoal de alguém que parte, em busca de si própria, através de uma viagem por alguns países, onde descobre pequenos pedaços de prazer e equilíbrio que, juntos, contribuirão para o equilíbrio total. É com a Julia Roberts, de quem gosto muito e hoje, nesta tarde de impaciência carnavalesca miudinha, retive uma frase de um dos personagens: ..."tem que se sorrir com a boca, com a mente, com o coração, com o fígado...", como se o sorriso nos tivesse que vir das entranhas mais viscerais de nós próprios e como se servisse, sempre, de antídoto para tudo!
Hoje, ao contrário da primeira vez em que vi o filme, esta frase chamou-me a atenção e fez uma ligação direta com a alegria e riso carnavalescos!
Mesmo que o riso mostrado nas festas e desfiles seja ôco e esconda grandes tristezas que voltarão à tona após a anestesia festiva, mesmo que se sinta que tudo é vivido de forma tão exuberante, exagerada, excitada, que torna tudo relativamente falso, mesmo que se goste de assumir, por momentos, outras personagens/figuras tão distantes de nós próprios (os verdadeiros), tão distantes, tão distantes que nos descaracterizam,  valha-nos o riso, valha-nos a alegria que devemos tentar sentir no Carnaval e também em todos os outros dias, forçando às vezes um sorriso que é exteriorizado pela boca, mas que deve vir do coração, da mente, do gesto, da expressão, do olhar, e também das entranhas mais profundas, como o "fígado". Quem sabe se assim, insistindo nos sorrisos diários, estes vão sendo cada vez mais terapêuticos?

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

 
 
TERNURA
 
 
"Nem o maior revolucionário abandona a ternura"...
 - CHE GUEVARA -

 
 
Há coisas que nos tocam e interpelam e que produzirão sempre esse efeito, por mais anos que tenhamos, ou por mais que já tenhamos escrito acerca delas. Fazem parte da nossa natureza e pronto, não há nada a fazer! Nunca as sentiremos como tema repetitivo, pois para nós será sempre novo, eloquente, significativo! É isto que me acontece com temas relacionados com GENTILEZA, AFETO, TERNURA, CORDIALIDADE... Não me considero "cor-de-rosa", nem o quereria ser... Sou romântica (já o tenho dito), mas sei que há cinzentismo, há "garras de fora" quando tem que ser, há tomadas valentes de posição, ou quente, ou fria (o morno, nem sempre é exequível...), há determinação e ainda bem! O equilíbrio que devemos ter na vida encarrega-se de nos fazer sentir tudo isso nos momentos devidos.
 O gosto pelos temas referidos não tem nada a ver com isto... tem a ver com uma necessidade muito grande que sinto de dizer que é por aí, pela ternura, que terão que passar todas as mensagens, com toda a veracidade dos seus factos que, muitas vezes, são duros!
A ternura, a ternura... Tive durante muito tempo uma frase de eleição, atribuída ao Che Guevara (não sei se será mesmo dele, mas vi-a num site, ou revista, já não me recordo e era atribuída a ele...), que era: "Nem o maior revolucionário abandona a ternura". Adorei desde logo a frase. Significou para mim decisão, firmeza, luta, mas ternura, como se tudo tivesse que ser "mesclado" com esse brilho para se perpetuar, no tempo, nos corações, nas memórias.
Pouco sei do Che Guevara. Aquilo que sei acaba por ser o senso comum normal, aliado a mais alguma informação pontual que a vida vai trazendo... Sei que nasceu na Argentina, trabalhou desde cedo e estudou ao mesmo tempo, formou-se em medicina e uma viagem que fez de bicicleta, com um amigo, pela América central fê-lo deparar-se com uma série de condições de vida miseráveis e paupérrimas, o que lhe fez ter um "click" revolucionário, altamente inflamado também, pelas condições de vida políticas e sociais que se viviam na Argentina do seu tempo... daí para a frente é o que se sabe, até ter sido assassinado na Bolívia, nos anos sessenta. Independentemente de todas as coisas menos boas que todas as revoluções/lutas armadas/guerras têm, ficará sempre ligada a este homem (e a outros como ele, nos seus tempos, nas suas histórias...) uma aura romântica, revolucionária, idealista. Pela minha parte, penso assim. Um filme que vi sobre a sua vida e essa tal volta de bicicleta que fez pela América Central ("The motorcycle Diaries", 2004), contribuiu para essa ideia e quando "descobri" a frase que lhe atribuo, achei que estava certa.
Então, sejamos todos revolucionários, firmes, lutadores, obstinados por aquilo em que acreditamos, teimosos, persistentes, mas ternos, inflamando com ternura todas as mensagens que quisermos passar. Não passarão todas, certamente, a vida encarrega-se de "processar toda a informação" e selecionar, com o tempo, o que é útil e o que não é, mas de certeza que deixaremos uma marca, mesmo que levezinha, nos outros! Bora lá?

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013



 - Oh mãããeeee...

Ter duas filhas adolescentes é uma descoberta diária e uma caminhada que não tem receitas, ou estratégias definidas. Não valerá a pena nunca dramatizar: nunca será tão fácil como se quereria, mas também nunca é tão mau como se pensa! Ainda por cima, as minhas filhas são duas adolescentes completamente diferentes uma da outra e são diferentes desde bebés, em tudo, o que nos dá a todos lá em casa um "palco" de cenários" diários de reações e atitudes diferentes perante as coisas. Às vezes até me rio porque me consigo rever um bocadinho em cada uma delas, como se a genética se tivesse preocupado em fazer uma distribuição equilibrada das minhas características por uma e depois, por outra. Se fisicamente são muito mais parecidas com o pai do que comigo (resta-me o mais novo para me dar esse "alento" da parecença fisíca comigo... ou, pelo menos com o lado materno...), em termos de feitios e atitudes perante as coisas, partilham as coisas parecidas à mãe... 
Lembro-me que não fui uma adolescente difícil. Tinha as minhas rebeldias (e ainda bem!) que, comparadas com muitos dos problemas a que hoje se assiste, eram "brincadeirinhas de crianças", fazendo-me agora até esboçar um sorriso quase inocente quando as recordo. Os meus Pais eram absolutamente vitais na minha vida, tinham um papel complementar, mas diferente, como se cada um de ocupasse de uma área da minha vida, mas estivesse sempre a par de todas as outras, como aqueles puzzles em que uma pecinha só encaixa numa outra, mas contribui para todo o resultado final... e tinham um papel muito bem definido, seguro e atuante sempre que achavam necessário. E isso fez-me muito bem! Incutiam-nos autonomia, mas também responsabilidade, decisão, mas também apoio de retaguarda, iniciativa e brio naquilo que fazíamos, mas também a preocupação de nos mostrar que nos amavam tal e qual éramos, sem espetativas infundadas e ilusórias... ao mesmo tempo, tentavam sempre que criassemos espetativas plausíveis de nós próprios, encaminhando-nos para uma vida com sonhos (sempre essenciais), mas realidades também, daquelas que moldarão em grande parte, os nossos futuros.... Lembro-me que apesar desta cumplicidade de retaguarda, não eram os meus confidentes de eleição... as amigas e amigos sim, esses eram sempre os escolhidos, nas diferentes fases da vida, para os primeiros desabafos e conversas mais difíceis e hoje, adulta, consigo dizer que ainda bem, é assim que tem que ser... como se o passarinho tivesse que voar sozinho antes de voltar atrás, ao ninho de origem...
As minhas duas filhas adolescentes, diferentes, procuram-me para desabafar, para me contar alguns (sei que poucos, os que bastam no seu entender...) segredos e para me pedirem a opinião, às vezes, muito seguras de si, com ares de sabedoras de tudo, como se o perguntar à mãe fosse só o confirmar (ou não) daquilo que já sabem... tenho que ouvir sempre, gerir os timmings das respostas e procurar um equílibrio nem sempre fácil entre o dizer-lhes o que penso com segurança e também o acolher/ouvir/processar/ o que me dizem, por muito disparatado que pareça (e tudo isto sem lhes fazer perceber como tudo é tão previsível!). Tenho que acolher sempre, não me anulando a seguir, mesmo que a resposta não seja aquela que querem ouvir, mesmo que finja um ar desinteressado que lhes facilita o desabafo, mesmo que me ria por dentro da dúvida, da questão... tenho que lhes prometer sempre que fica entre nós, incluindo sempre o pai "nesse nós" tão grande, fazendo-lhes ver que ele é também uma "peça" absolutamente vital nas suas vidas, mesmo que recorram sempre primeiro a mim, com um recorrente: -"Oh mãããããeeeeee!", seguido de sabes, mãe, tu é que entendes estas coisas..."
Quero acreditar que assim esteja a criar entre nós um elo de confiança que será importante para suportar crises futuras e ao mesmo tempo que lhes esteja a ensinar (sem livros, fórmulas em papel, decretos, ou receitas...) uma rede de relações de afeto que nos ligam a todos lá em casa e que nos tornam, aos bocadinhos e de vez em quando, todos responsáveis uns pelos outros.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013



PERFUMES



O meu último post ("EMPATIA"), fez-me refletir sobre a quantidade de gente que me inspira por motivos vários, ou sobre aquela quantidade de pessoas sobre as quais teria sempre "assunto para escrever"... São tantas! Mesmo aquelas pessoas que passam pela nossa vida sem a marcar, sem deixar um "risco" profundo, ou desenhado com "canetas de tinta que não sai", também essas, podem sempre ter alguma coisa que nos chama mais a atenção. Poderia escrever sobre algumas dezenas... ou teria outras tantas que me dizem tanto, tanto (por vários motivos) que a escrita não poderia nunca ser linear, levaria tempo a processar, a apurar a essência mais verdadeira do que quero dizer! Para essas, vou-me sentindo dia-a-dia, acreditando que as marcas que me deixam darão sinal que conduzirá a esta disposição maravilhosa para a escrita e para o seu "lançamento" para uma "blogosfera  quase universal"...
É quase como um perfume... Nunca fui fiel a um só perfume, gosto de vários e já tenho mudado de "cheirinho de eleição" várias vezes. Também aqueles que por mim passam, têm vários odores, que inalo mais, ou menos profundamente, conforme a ocasião, o estado de espírito, o ascendente que essa pessoa tem em mim, a minha própria disposição, ou até, a unicidade dessa pessoa...
perfumes que se notam logo, tão fortes que são, tão inconfundíveis... há outros, talvez mais raros, feitos de uma essência diferente, não são logo notados, passam por outras coisas que não se explicam, às quais não sabemos logo dar um nome, mas que são tão maravilhosas, exuberantes, diferentes, únicas, que não esquecemos, ficam-nos marcadas com a tal "caneta de tinta que não sai"; há outros ainda, que são uma mistura das duas primeiras coisas: fortes, exuberantes, únicos e raros! E depois há perfumes que gostamos de repetir, tal é o gosto que lhes temos!
Sei quais são os meus perfumes a repetir, sei quais são aqueles frasquinhos aos quais recorro de quando em vez e até sei que perfume usar em que ocasião... Sei que também todos somos um pouco perfumes para alguém, mais fortes, mais fracos, mas únicos e maravilhosos, à medida do que cada um quiser e essa sensação de preenchimento é maravilhosa...
E isto tudo, sabem porquê? Porque acredito que os perfumes são pessoas, daquelas verdadeiras que nos enchem os espaços da vida sem pedir, que nos aparecem às vezes do nada, que têm histórias para nos contar...é tão bom quando lhes sentimos o perfume... é tão bom quando os nervos olfativos do nosso cérebro deixam que esse perfume nos toque, por qualquer razão e fique connosco para sempre... para podermos repetir, ou não, ao sabor da nossa vontade e é tão bom também, ser um perfume para alguém!
Bons cheirinhos...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

 
 
 
EMPATIA
 
«Só se vê bem com o coração, o essencial é invisível para os olhos...»

Antoine de Saint-Exupery, in O PRINCIPEZINHO
 
Tenho andado enredada com coisas para fazer e com as milhentas solicitações dos meus filhos, que me absorvem e que me obrigam a ser muito disciplinada, tentando arranjar um equilíbrio (mesmo que ténue...) entre a prioridade absoluta que são na minha vida e a necessidade que também tenho de ter tempo para mim, para as minhas coisas, interesses, "nonsenses" e afins. Às vezes duvido desta nossa capacidade feminina de gestão interna e externa, profissional e pessoal, conjugal e individual, mas logo a seguir presto-lhe homenagens eternas e convenço-me que a NATUREZA será mesmo feminina, tal foi o dote de múltipla gestão e capacidade que todas, de uma forma ou de outra, vamos tendo...
Às vezes, tudo isso que é meu, em primeiro plano, fica para trás, confesso, mas outras vezes, soa um "alarme" interno muito sonoro que me faz priorizar-me com avidez! O espaço de tempo entre estes meus textos reflete um pouquinho essa gestão interna, feita à minha medida. Neste processo mais ou menos introspectivo, vão pairando no meu pensamento ideias, apontamentos de opinião, acontecimentos, que depois vou processando (às vezes ao ritmo dos afazeres, das pausas, das rotinas e das vontades) e processando, até que "explodem", tendo que os passar para o "papel"...
Foi assim com ela. Há dias, quando a revi, ocasionalmente, a minha "compulsãozinha" de escrita, deu sinal e fez-me reflectir sobre alguns fenómenos que acontecem nas relações inter-pessoais e que não têm explicação, pelo menos não têm daquelas explicações lineares, que vêm nos livros e que servem para todas as respostas...
Há determinadas coisas na vida que acho que não se explicam e a empatia entre as pessoas será uma delas.... sempre a achei agradável, descontraída, havia qualquer coisa nela que me despertava simpatia, proximidade. Nunca saberei explicar o quê, até porque não tivemos nunca uma relação próxima: nunca fomos amigas, nunca andámos na escola juntas, não sei muito sobre a sua vida, apenas alguns pormenores contados socialmente em encontros partilhados com tantas outras pessoas, mas sempre me agradou falar com ela e sempre houve alguns pontos de identificação sentidos nessas ocasionais e esporádicas conversas. Gostava de conversar com ela e havia qualquer coisa, dentro do social, que a fazia parecer, para mim, diferente. Fui acompanhando a sua segunda gravidez, de longe, ao sabor deste ritmo social de convívio esporádico, muito provocado por uma atividade desportiva em comum, de um dos meus filhos e apercebi-me que era uma gravidez muito desejada, vivida, pareceu-me sempre, dentro de uma relação de casal feliz, equilibrada... um pouco como uma outra, secreta, que me parece assim... De repente, por amigos em comum, soube que perdera o bebé, a pouquíssimas semanas de nascer! Lembro-me que me senti angustiada pela dor que adivinhei que estivesse a sentir e também por ser inimaginável para mim a reação que se tem a uma dor dessas, tão grande... é perder um filho, só com a diferença de que ainda não nasceu, mas já é nosso, já está ali, tão vivido e sentido e amado e querido, que é real, palpável e verdadeiro, um filho que falta tão pouco, tão pouquinho para nascer... só não lhe podemos ainda pegar, um filho que é fonte de projetos, esperanças, expectativas, sonhos...!
Não acompanhei de perto... pedi a uma amiga comum que lhe enviasse um beijinho especial, fui sabendo por amigos como ia reagindo... fui pedindo, em segredo, por ela e por ele também, fui-lhe admirando o sorriso que continuava a ter quando nos víamos, fui-lhe agradecendo a aparente naturalidade com que ia falando do assunto, desarmando o meu constrangimento e fazendo-me perceber que, às vezes, falar sobre as coisas, "espanta os fantasmas" e ajuda a desabafar, mesmo que não apague uma dor que será eterna, fui-lhe admirando a fé que sei que tem, fui concluindo que não sabemos nada, mesmo quando achamos que já sabemos tudo, fui-lhe dizendo, em pensamento, que essa dor suavizará, ajudada pelo tempo que servirá de unguento e também por um amor que a suporta e ampara e hoje, quero-lhe dizer que lhe agradeço por, sem disso fazer ideia, ser tão inspiradora para mim!
Hoje, o meu beijinho vai para ela, com o tamanho da blogosfera para onde vou mandar este post, com pintinhas de muita, muita força e com um OBRIGADO gigante à "tal" empatia que nos aproxima, sem sabermos explicar porquê, de gente tão boa e tão grande!


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

 
 
 
MAMÃ, ADORMECES-ME?
 
Lembro-me que gostava que ela me adormecesse, nem sempre, confesso, mas recordo com particular pormenor as crises da adolescência (fui muito piegas!!!), em que a lágrima fácil caía muitas vezes sem pedir e em que eu, a seguir, lhe pedia que se viesse deitar comigo... às vezes, sentia-a-apressada, mas em momento algum se recusou. Deitava-se a meu lado e eu, agarrava-a com muita força, quase não a deixando mexer-se. Ela afrouxava o aperto, com suavidade e continuava ali e eu sentia-lhe a respiração ao lado da minha e o compasso do peito que acalmava. Não me lembro se líamos, se conversávamos, se este momento se estendia muito no tempo... o que recordo com uma nitidez translúcida é que vinha, vinha sempre! Às vezes, tentava sair, uns pedacinhos depois, mas eu, ainda sem dormir, apertava-a de novo, segurando-a ali, naquele pedacinho de céu que era só das duas!  Quando eu adormecia, calculo que finalmente saisse e fosse continuar a infinidade de coisas que todas as mães têm para fazer.
 Tenho esta recordação, um pouco perdida na idade, não sei precisar quantos anos teria, mas em muitos momentos foi assim e então, este lembrar fidelíssimo destas suaves vigílias, cresceu comigo e hoje, mulher feita e mãe de três filhos, estou eu no "lado de cá", a ser mãe, trabalhadora, mulher/esposa, a ter uma infinidade de coisas para fazer em casa e também para fora de casa, a querer ter tempo só para mim, nem que seja para estar anestesiada a fazer "nadinha" e a achar, logo a seguir, que isso é uma utopia e a achar também que o dia devia ter um bocadinho mais de horas, daquelas que dessem para "esticar" um pouco mais, só um pouco, até conseguirmos fazer tudo o que precisamos. Agora estou eu do "lado de cá", a ouvir, o pedido: "mamã, adormeces-me?" e a ficar, às vezes, um bocadinho contrariada porque o peso da logística é muito grande e o que há para fazer é tanto e tanto.... mas cedo, algumas vezes... bem, quase sempre! Confesso que partilho muitas vezes esse pedacinho de "coisa boa" com o pai, mas fico sempre "culpada"... e às vezes, a minha suave recordação soa mais alto e impele-me a ir eu, sempre eu, outra vez eu...
Ontem, a minha rosinha mais bonita (nome que chamei ao Pedro num post antigo... - não me dispus ainda a ver como se fazem aquelas hiperligações que remetem alguma expressão, ou frase, para outro post mais antigo...), veio ter comigo e pediu: "mamã, adormeces-me?"... quis ler, quis falar do seu dia, quis contar uma série de coisas e quando o sono o venceu, virou-se para o lado, aconchegou o edredon e agarrou a minha mão e braço com força... eu, suavemente afrouxei-o e procurei uma posição que me permitisse não adormecer por completo, (o que é uma tarefa hercúlea!) e fiquei, enlevada, sentindo-lhe agora eu a respiração e fazendo o meu pensamento viajar para longe, fazendo com este pensar, pictogramas coloridos de coisas, de lembranças, de pensamentos, de nada... tentei sair daí a pouco e ele resistiu e então, uma recordação nítida como a água de um rio nativo me assaltou e me fez pensar que há coisas que não se explicam, que se repetem na história, que são intemporais, que saltam gerações e classes e géneros e sítios e espaços e momentos e famílias, há coisas que são assim e pronto e que mesmo quando cedo um pouquinho resmungona, logo, logo a seguir, agradeço com muita força por aquele pedido: "mamã, adormeces-me?"

 


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

 
 
 PALAVRAS QUE BEIJAM
 
Não sou "expert" em poesia, nunca fui, não é o meu género literário preferido, embora goste muito de ler e seja sensível a alguns poemas que, ao longo do tempo, me foram marcando por um, ou outro, motivo. Recentemente, ouvi falar de um poema de Alexandre O'Neill, chamado "PALAVRAS QUE NOS BEIJAM" e achei o título muito sugestivo, porque tinha tido um dia "cinzento", navegando na ondulação de indelicadezas várias e de faltas de cortesia pessoal, profissional, institucional. Isto fez-me pensar naquilo que digo sempre:" a simpatia é a qualidade que mais admiro nas pessoas". Essa simpatia faz quase uma ligação direta com a cordialidade, com o sorriso, com a delicadeza no trato, que não têm nada a ver com falta de rigor, falta de brio, displicência... Isto também tem a ver com o papel que, acho, todos os profissionais de educação devem ter numa escola e quando digo "profissionais de educação", não me refiro só aos professores, mas a todos aqueles que, por inerência de funções, são agentes educativos, embora, com maioria de exigência, essa obrigação seja em primeiro lugar, dos professores.
Fico triste quando vou a reuniões de Pais onde se fala o mínimo e onde se tenta ao máximo que os Pais estejam o menor tempo possível, não se aproveitando essa pequena ocasião para partilhar, com segurança, informalidade e generosidade, tudo o que se faz na escola, com aqueles agentes educativos tão importantes, que são os Pais. Sei que há PAIS e PAIS e compreendo os colegas que, à custa de tanta falta de TUDO e também de reconhecimento pelo seu trabalho, se escusam a falar, a partilhar, resumindo-se ao essencial e àquilo que é mesmo (e só) obrigatório dizer; mas agora, neste pedacinho de linhas, apetece-me sentir só, o meu papel de mãe, interessada e respeitadora da escola, vigilante e preocupada, mas assumindo alguma descontração, que acho absolutamente essencial e pedagógica. Procuro ser cúmplice e par nesta tarefa de educar, em que o maior encargo é o meu, de mãe, mas tento perceber todas as dificuldades inerentes a um sistema que não é fácil e que está, aos bocadinhos, cada vez pior. Esta vontade que agora sinto de viver este papel de mãe, este "lado de cá", legitimará estas minhas palavras, creio...
Tento, com todas as forças, não ficar indiferente, amorfa e resistir, com imunidade reforçada, à indiferença, e ao comodismo, continuando a gostar daquilo que faço, gostando de O contar "lá para fora", gostando de partilhar boas práticas com colegas e Pais, gostando de articular com outros colegas, de outros ciclos, descobrindo-lhes riquezas e novidades que eu também lhes conto do meu... Esta opção é muito difícil, sobretudo quando tudo joga contra nós: os colegas, as mega-estruturas escolares (que descaracterizam...), as faltas de alento, as desmotivações, as insensibilidades e desconhecimentos de cada um, as opções também contrárias (e legítimas) dos outros...
Mas depois, sem esperar, na "tal" ondulação de indiferença, vai-se a uma outra reunião de Pais, de um outro filho, e ouve-se falar em poesia, ouve-se contar que se leu poesia com os meninos e que se falou sobre umas certas "palavras que nos beijam", ao mesmo tempo que se seguiu e bem, o curso normal da rotina, gerindo aprendizagens, conflitos, metas e currículos e de repente, apercebemo-nos que não estamos sozinhos, que não somos "exemplares únicos" e o coração fica um bocadinho mais cheio outra vez, de esperança e de... "palavras que se recusam ao muros do meu desgosto..."




"Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca
palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca

Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto
palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto

De repente coloridas
entre palavras sem cor
esperadas, inesperadas
como a poesia ou o amor

Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte...

Alexandre O'Neill in, "No Reino da Dinamarca"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

 
 
AMORES ASSIM
 
 
Num mundo que celebra e louva a desatenção, a corrida bárbara para lugar nenhum, eles souberam sempre cultivar essa atenção extrema - extremosa, extremista, radical, absoluta.
Porque tiveram a sorte de se encontrar cedo e de cedo compreender, para lá da química e da física (essencias, mas nunca suficientes), que pertenciam um ao outro - que podiam rever-se nos olhos um do outro como em espelhos límpidos.
Porque liam os mesmos livros e conversavam sobre eles, porque tinham os mesmos ideais e lutavam por eles, porque atravessaram tempestades e não se deixaram levar pela ventania, porque nunca amputaram os sonhos um do outro nem perderam de vista o sonho maior que queriam construir juntos, porque souberam ser a casa um do outro quando a vida os empurrou para longe da casa e do País que tinham...
 
UM AMOR ASSIM
(Jaime Nogueira Pinto, em homenagem à sua mulher, Maria José Nogueira Pinto, in, JORNAL SOL, 22/7/2011)
 
 
 
Não o conheço particularmente e penso que nem é uma figura muito regular da televisão, o que facilitaria o seu conhecimento, pelo menos visual. Sei que é uma figura conceituada das letras, já que é escritor, para além de professor universitário, investigador e empresário. Foi diretor do jornal O SÉCULO e está ligado à Fundação Luso-Africana para a cultura. Foi casado com Maria José Nogueira Pinto, essa figura sim, mais conhecida para mim, já que era uma figura de quem gostava, daqueles fenómenos empáticos que nem sempre sabemos explicar, gostava de a ouvir falar, admirava-lhe a determinação que aparentava ter, identificava-me com muitas das suas ideias quando as partilhava em programas de televisão, crónicas jornalísticas, ou artigos de opinião. Quanto a ele, quase tudo lhe desconhecia, para além de o ter ouvido na televisão uma, ou duas vezes. Eis senão quando, um dia, por acaso, ao ler o Jornal SOL e dias após a morte de Maria José Nogueira Pinto, leio um artigo de página inteira em que este homem, disserta sobre esta mulher e sobre o amor que sempre os uniu... Sabem aquela sensação de enamoramento imediato, de identificação, de cumplicidade, como se aquelas palavras traduzissem uma experiência não só já dele, mas nossa também? Foi o que senti ao ler o artigo! Gostei tanto, que recortei o pequenino excerto transcrito no início e guardo-o na minha agenda, com as devidas referências ao autor, claro, e guardo-o quase como se guardam aquelas relíquias em papel disto, ou daquilo, que todos temos, dobradinhas nas carteiras...
E então, uma figura mais ou menos pública, completamente desconhecida para mim, transformou-se em alguém que passei a admirar, especialmente nesta parte, relativa ao seu amor de todos os dias.... Nunca terei o arrojo de fazer uma declaração de amor tão pública, aqui, nas redes sociais, ou em qualquer outra via semi-partilhada por tanta gente. Sinto alguma timidez, que procuro preservar, quando se trata desta esfera da minha vida, como se fosse um reduto absolutamente sagrado e fechado "lá para fora", mas hoje, lembrei-me deste recortezinho de jornal que guardo com dedicação, quando um casal meu amigo, delicioso, um homem e uma mulher que conheço desde miúdos, que vi crescer, que acompanhei, ao longe, ao sabor da ternura (aquela que liga as pessoas), SE agradeceram mutuamente por existirem, utilizando uma rede social. Hoje, pelos vistos, é o dia do OBRIGADO e eu nem sabia... é engraçada a existência destes dias!!! Talvez tenham querido gritar ao mundo o seu amor, enfatizando aquilo que, de certeza, também dizem na intimidade... Eu agradeço-lhes por isso, por terem, hoje, servido de click "inspirador", por me rever nas suas palavras e tomá-las como espelho para mim, por me terem feito lembrar de um recortezinho de jornal que guardo comigo e que me faz também lembrar UM OUTRO AMOR ASSIM, aquele que guardo, como um tesouro!!! 


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

 
 
 
 SE EU FOSSE UM REI
 
O voltar à deliciosa rotina, como dizia no meu último post, é muito bom, mas de facto, nem sempre é linear o tempo que se leva a fazer isso, como se o voltar aos dias de todos os dias fosse um metabolismo, mais ou menos lento, que nos vai encaixando na tal normalidade de que falava. Então, isso fez com que tenha andado um pouco arredada aqui da blogosfera, não porque não tenha "assunto para escrever", como diz a canção, mas porque tenho sentido necessidade de "processar" toda a informação, de todos os dias, dos assuntos que surgem daqui e dali, sobre os quais quero escrever. Depois, a rotina situa-nos outra vez e as "compulsões" (mais ou menos assumidas), como é a escrita, vão ressurgindo!
 Poderia começar pelo último livro que li e que foi oferecido neste Natal à minha filha mais velha, pela avó materna, que teimosamente e às vezes contra ventos e marés lhes continua a oferecer livros e mais livros (ainda bem avó, ainda bem...). Uma noite, depois do beijinho de boa-noite que ainda regateam, apesar da "embirrenta" adolescência (ou "aborrescência", como dizia um amigo...), olhei de soslaio para o livro e comecei a folheá-lo... bem, foi de uma assentada e ainda estou "falando" com ele... Substituíu outras rotinas que tenho ao serão e, até tarde, acompanhando a respiração pausada do meu mais que tudo, deitado a meu lado, "devorei-o"!!! É o relato, contado pela própria autora (Liliana Segre), da sobrevivência atroz em Auschwitz, sítio para onde foi aos treze anos e onde ficou até à libertação pelas forças aliadas. Hei-de fazer um post sobre o efeito que o livro (minúsculo, pequenino, que se lê de uma assentada) teve em mim, talvez pelo interesse que tenho (como já referi em posts anteriores) pelo tema, mas sobretudo pela forma como a autora "processou toda a vivência que teve e como "saíu das cinzas" depois disso: o tempo que levou a fazê-lo, os suportes emocionais que hoje reconhece terem-lhe dado forças e discernimento para tal, a forma como passa aos outros essa mensagem! Fica prometida uma reflexão sobre este GRANDE pequeno livrinho e também a sua referência bibliográfica, já que não o tenho  agora aqui e não me lembro de cor de todos os dados!!!!
Poderia falar também da noção cada vez mais clara que vou tendo sobre a relação de alguns Pais com a escola e que, infelizmente, constato que vem sendo, lentamente, da maioria... uma relação quase sempre ausente, muito irregular, mas de extrema exigência; não uma exigência suportada num contacto regular, profícuo e de pares, mas uma relação quase unilateral em que se exige, exige, exige, muitas vezes sem conhecer, sem saber os contextos, as dificuldades, o mérito noutras coisas... isto vê-se em reuniões onde participo como mãe, sobretudo nessas e fico triste, muito triste! Penso que a capacidade de ainda sentir alguma tristeza será sinal que ainda não sou, ou estou indiferente, tento pensar assim...
Mas pronto, não vou falar em nada disto! Hoje, assim de repente, apetece-me falar de uma atividade que fiz com o  meu grupo e que é mais, ou menos comum em Jardim-de-Infância. A propósito do Dia de Reis, da exploração das tradições inerentes a esta festividade, das "consequências, ou "efeitos" nas nossas vidas enalteci hoje a imaginação, a criatividade, o jogo simbólico, como elementos potenciadores de fantasias, cenários inventados, mas onde está, sempre, um bocadinho de nós!!! "Se eu fosse um Rei (ou Raínha)? O que faria?
A par de todo o cenário estratégico que envolveu esta atividade e que seria extensivo expôr aqui e a par do jogo dramático que sempre acompanha este tipo de atividade e que nos ajuda tanto a sair da nossa "zona de conforto", foi uma chamada urgente ao IMAGINÁRIO, ao FAZ-DE-CONTA, ao SE... Aflige-me que para muitos meninos e meninas, esse jogo já vá sendo difícil, dificultando-lhes esta viagem à imaginação, levando-os a um mundo imaginário onde, às vezes, é tão bom ir, mesmo que seja aos bocadinhos de cada vez...
"SE EU FOSSE UM REI, mandava que todos pudessem, de vez em quando, imaginar outros mundos, outras cores, outros rostos... ou então, mandava que tudo ficasse como está, ao bel-prazer de cada um, porque SE EU FOSSE UM REI, ia ser um REI bom, com uma coroa brilhante e um castelo de sonhos!


 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013




 
 
NORMALIDADEZINHA GOSTOSA
 
É do senso comum pensar-se que a rotina acomoda as relações, as torna insipientes, sem graça, cinzentas, sem a candura do branco e/ou sem a negrura do preto, de uma cor intermédia, morninha, temperada. Este cinzentismo, não as fará inovar, surpreender, espantar-se com....
É geralmente tida (a rotina) como uma coisa sempre igual, maçadora, até, que nos faz ligar um "piloto automático" rápido e executor de coisas de olhos e sentidos fechados... os mesmos lugares, as mesmas coisas, as mesmas pessoas, os mesmos hábitos. De facto, a rotina pode ter um efeito altamente nefasto, se nos fizer fechar os póros a tudo o que é novo, ou se "entupir" a nossa intuição e não a deixar ser a "luz vermelha" de alarme que faz mudar as coisas, que nos alerta para o perigo, que nos obriga a agir. A rotina, pode ter muito de mau, é verdade, pode ser um perigoso caminho que, aliado aos anos, ao tempo que passa, ao desgaste próprio da idade, do trabalho, das preocupações, corrói, lentamente, como os genes de uma doença crónica e silenciosa! Corrói relações, amizades, projetos, desafios... como o tal gene silencioso, não olha ao destinatário e impede-o de ver os olhos dos outros que o rodeiam e às vezes, os seus próprios olhos também! É um caminho fácil e perigoso, mas não inevitável!
E hoje, aqui, apetece-me falar das coisas boas que a rotina tem e do bem que me soube hoje voltar a ela como se voltasse a uma "zona de conforto" conhecida e muito "cosy", confortável, aconchegante! Podia começar por enumerar os efeitos positivos que tem nas crianças pequeninas que, ao viverem numa rotina equilibrada de experiências, desafios e afetos, sentem segurança e se desenvolvem rapida e saudavelmente; poderia falar do bem que faz o repetir gestos e/ou atividades que fazem bem (desporto, passeios, descontração, etc); poderia por fim, até fazer alusão à segurança que se sente nesses gestos repetidos, fazendo-nos experimentar pequenas vitórias de lazer, saúde, ou trabalho e poderia, no fim disto tudo dizer apenas que a rotina é terapêutica! Se o desviarmo-nos dela por momentos, dias, ou semanas é bom, faz falta, retempera, o voltar a ela, é maravilhoso e foi isso que senti hoje: o ritmo biológico regula-se, as tarefas são situadas no tempo, os lugares e as pessoas voltam a ter um contexto, uma intencionalidade e aquela NORMALIDADEZINHA de todos os dias, faz-nos sentir felizes e vivos.
Calculo que isto seja próprio de pessoas que estão de bem com a vida, pois imagino que para quem não esteja tudo seja mais complicado e o regressar a uma rotina de todos os dias seja uma infelicidade, um voltar atrás a uma vida que não se quer, da qual não se gosta.... Pois, calculo que sim, que seja verdade, mas eu sinto-me bem com a minha vida, gosto dela, com todas as condicionantes que tem, mas com todas e todas as coisas boas que também tem e que são tantas! ESTAS COISAS, estão à mostra nos gestos de cada dia e se esta intuição não  me abandonar, poderei pintar ESTA VIDINHA DIÁRIA da cor que eu quiser, transformando a normalidade numa coisa gostosa!!!
 
 
 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013



PEDACINHO DE CÉU

Hoje o dia seguiu numa suave pasmaceira, depois de um despertar lento e dormente, consequência de uma passagem de ano animada, com um grupo de amigos e folia, ao som de músicas dos anos 80 e 90, que puxam o pé e o corpo para a dança e animação... É engraçado o efeito que essas músicas têm em mim, fazendo-me imediatamente dançar e também lembrar outros tempos, outras danças, outras idades. Estivemos num jardim público, com centenas de outras pessoas, de todas as idades, géneros, tipos físicos e posturas, sózinhas, acompanhadas, deslumbradas, anestesiadas, ou, simplesmente, divertidas, como nós. Fizemo-nos acompanhar de toda a família, à semelhança de tantos outros que lá estavam, o que tornou tudo muito mais giro e cúmplice. Sei que não será sempre assim, sei que os programas diferirão com o tempo, mas ontem, assim foi, juntinhos, com tantos e tantos amigos que lá encontrámos, como se tivessemos tido todos a mesma ideia... Gostei muito, apesar da chuvinha, miudinha, irritante, que no fim (ainda bem que só aí) resolveu cair com força!!! Este pedacinho de noite fez-me ver que tudo o que contemos cá dentro, nas profundezas da nossa intimidade (coisas boas, más, alegres, ou tristes) se disfarçam tão bem, em momentos de feliz e simples diversão, assim só, sem mais nada. Ou porque ficam propositada e forçosamente esquecidas, ou porque o exterior é MAIOR que nós e "assalta-nos", não nos dando espaço para mais nada... como um analgésico às vezes enganador de sintomas... É como se aquele bocadinho de tempo nos tornasse a todos iguais, "chutando para canto", tudo o que virá amanhã e depois e depois e depois e que agora não apetece pensar, pois não cabe no momento...
Esta noite antecedeu a tal preguicite aguda que amanheceu com o dia de hoje, o tal, primeiríssimo, de um ano que agora  se inicia e pressagia todos os pessimismos, ou otimismos... Cá por mim, prefiro que sejam otimismos, daqueles grandes, confusos e pouco precisos, mas OTIMISMOS!!!
Nesta dormência preguiçosa, sentia quase uma culpa inconsciente e alheia a mim... é o primeiro dia do ano e só sinto pouco mais que nada? Hoje, teria a obrigação (quase moral) de mais? melhor? mais profundo? Ai Jesus, que a dormência se alastrava, como o tal analgésico potente e nada... nadinha!!!
Depois, como um raio de luz, veio o rever de um velho e grande amigo que me/nos transportou numa viagem pela eloquência da linguagem, gesto, afetos, perspicácia e educação.
Falando para uma assembleia grande e sendo EXTREMAMENTE perspicaz para captar dessa assembleia os sinais de atenção, ou dispersão (elementos essenciais para quem fala, como se não se falasse para si - como tantos - mas sim para os outros), este meu/nosso amigo enfatizava a importância da esperança, da educação e da paz. Foi muito interessante a forma como relacionou a educação com a paz. "Se formos educados, estaremos a fazer um pouco de paz"; "se formos atentos para o outro(a), estaremos a fazer pedacinhos de paz nas nossas áreas de influência" e depois, a importância que deu à cultura, à educação, como pilares ancestrais de raízes, entendimentos e explicações para a forma como vamos construindo o futuro, um pedaço todos os dias. É importante "beber" das raízes, voltar a elas, para nos explicarmos... totalmente! A importância da ESPERANÇA, como um túnel obrigatório que nos abre portas para um futuro que começa hoje!
Foi um pedacinho de céu este meu/nosso encontro. Acredito que este meu amigo seja veículo de transmissão de um Bem maior, de uma transcendência à qual, cada um, na sua mais legítima liberdade, poderá dar o nome que quiser, mas tenho a certeza que o otimismo, aquele que se quer, se apregoa, se defende, como remédio para males endógenos exteriores a nós, comece assim, nestas nuvens flutuantes que nos levam a estes pedacinhos de algodão, de onde saimos, sem nos apercebermos, muito mais fortes!

FELIZ ANO NOVO!
 

domingo, 30 de dezembro de 2012

 
 
 
 
MENINO BONITO
 
É um rapaz lindíssimo, moreno, com o cabelo muito escuro, encaracolado, um sorriso aberto e muito meigo, uns olhos amendoados também escuros e uma irreverência que, acho, lhe fica bem. É o retrato de um rapaz bonito, muito bonito, com qualquer coisa de maravilhosamente exótica, misturada com uma doçura de trato, à qual sou sempre sensível. É desportista, moderno, culto e responsável. A irreverência que o caracteriza é como todas as irreverências que, quando em doses certas, são atraentes, saborosas, dão um quê de exentricidade que sempre me encantou e que, acredito, encantará também a muitos outros. É uma irreverência que não o afastou de um percurso académico normal e meritório, sempre concluído em cada ciclo com distinção e facilidade, o que lhe foi abrindo portas, fazendo espreitar oportunidades que não caém do céu, surgem, muitas vezes devidas a muito trabalho e a uma competência que se adivinha desde cedo. Tudo isto, parceiro de alguma sorte, mas também da responsabilidade, cultivada desde cedo por seus Pais. Para eles também o mérito, muito mérito! Este mérito, fê-lo ter algumas experiências várias relativas à sua formação e trabalho, algumas delas fora do País, o que, sendo hoje cada vez mais comum, pela falta de oportunidades que existem cá, é sempre, acho, um passaporte para uma visão diferente do mundo, das coisas, das pessoas, das gentes, sabores, saberes, cheiros, calores, ares e tal e tal, que nos faz maiores, com olhos de gigante para perceber aquilo que não cabe cá, neste retângulo pequenino, que pode também tornar pequeninas as nossas visões... por isso é tão importante "ir para fora", ver, ouvir, saber outras coisas, oferecidas aos sentidos pelas idas, as físicas e aquelas que são também dadas pela leitura, por exemplo, que é uma VIAGEM encantadora onde podemos também embarcar, que nos leva para fora de nós... Mas, voltando ao "protagonista"... a paixão que mostra pela vida, materializou-se também através de alguém que conheceu numa das suas idas e vindas. A maravilha da sua juventude, fê-lo abraçar esse amor pequenino que foi crescendo, arriscando, tentando sobreviver à distância, às dificuldades, às diferenças culturais, ao tempo que ia passando... e ele arriscou.  Depois de algumas intempéries, decidiu e atravessou um oceano, indo atrás deste amor, propôs-lhe um projeto de vida, ofereceu-lhe um amor maior, aquele que ele próprio lhe poderia dar. E este amor, na sua total liberdade, recusou!
Esta história nada terá de extraordinário para todos e será igual a tantas outras que lemos nos livros, vemos nos filmes, mas quando ma contaram, fiquei embevecida por este rapaz que me diz tanto, e pela coragem e romantismo que teve ao ARRISCAR. A pessoa do amor deste rapaz, é-me completamente indiferente, não a conheço e não a julgo, pois terá as suas razões que, para ela, serão legítimas também. Calculo que nem ele próprio a julgue e sei que isto será uma aprendizagem muito válida, que o fortalecerá. Mas hoje, nesta reflexão quero centrar-me só no gesto que ele teve: risco, projeto, aposta, coragem, amor! Hoje, nesta reflexão, quero dizer-lhe que o que ele fez é digno de uma história de amor dos maiores e melhores escritores, ou guionistas, pois o amor será sempre intemporal e será sempre retrato das nossas vidas, tão banais, mas com tanto para refletir (já disse mil vezes que sou uma romântica!). Quero dizer-lhe que nunca se poderá prever tudo ao milímetro, todas as voltas, voltinhas, curvas e desvios que a vida sempre terá e que, por isso, se tem mesmo que arriscar, às vezes. E hoje, quero dizer-lhe também, na minha total liberdade, que acho que a pessoa do seu amor não o merece, pois o amor, aquele de que se está a falar aqui, exige risco (nem sempre com doses bem calculadas...), aposta, confiança e algum arrojo! Hoje quero dizer-lhe que tenho a certeza que a sua irreverência e romantismo sempre o irão acompanhar e caracterizar e que o completarão, como homem, numa vida de mérito e responsabilidade, mas será ao lado de alguém que feche os olhos, lhe dê a mão, respire fundo e o acompanhe, mesmo que com algum receio, mas com muita, muita confiança... lado a lado, como marcas deixadas na areia...
BOA SORTE, menino bonito que me diz tanto!!!