sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

 
 
 PALAVRAS QUE BEIJAM
 
Não sou "expert" em poesia, nunca fui, não é o meu género literário preferido, embora goste muito de ler e seja sensível a alguns poemas que, ao longo do tempo, me foram marcando por um, ou outro, motivo. Recentemente, ouvi falar de um poema de Alexandre O'Neill, chamado "PALAVRAS QUE NOS BEIJAM" e achei o título muito sugestivo, porque tinha tido um dia "cinzento", navegando na ondulação de indelicadezas várias e de faltas de cortesia pessoal, profissional, institucional. Isto fez-me pensar naquilo que digo sempre:" a simpatia é a qualidade que mais admiro nas pessoas". Essa simpatia faz quase uma ligação direta com a cordialidade, com o sorriso, com a delicadeza no trato, que não têm nada a ver com falta de rigor, falta de brio, displicência... Isto também tem a ver com o papel que, acho, todos os profissionais de educação devem ter numa escola e quando digo "profissionais de educação", não me refiro só aos professores, mas a todos aqueles que, por inerência de funções, são agentes educativos, embora, com maioria de exigência, essa obrigação seja em primeiro lugar, dos professores.
Fico triste quando vou a reuniões de Pais onde se fala o mínimo e onde se tenta ao máximo que os Pais estejam o menor tempo possível, não se aproveitando essa pequena ocasião para partilhar, com segurança, informalidade e generosidade, tudo o que se faz na escola, com aqueles agentes educativos tão importantes, que são os Pais. Sei que há PAIS e PAIS e compreendo os colegas que, à custa de tanta falta de TUDO e também de reconhecimento pelo seu trabalho, se escusam a falar, a partilhar, resumindo-se ao essencial e àquilo que é mesmo (e só) obrigatório dizer; mas agora, neste pedacinho de linhas, apetece-me sentir só, o meu papel de mãe, interessada e respeitadora da escola, vigilante e preocupada, mas assumindo alguma descontração, que acho absolutamente essencial e pedagógica. Procuro ser cúmplice e par nesta tarefa de educar, em que o maior encargo é o meu, de mãe, mas tento perceber todas as dificuldades inerentes a um sistema que não é fácil e que está, aos bocadinhos, cada vez pior. Esta vontade que agora sinto de viver este papel de mãe, este "lado de cá", legitimará estas minhas palavras, creio...
Tento, com todas as forças, não ficar indiferente, amorfa e resistir, com imunidade reforçada, à indiferença, e ao comodismo, continuando a gostar daquilo que faço, gostando de O contar "lá para fora", gostando de partilhar boas práticas com colegas e Pais, gostando de articular com outros colegas, de outros ciclos, descobrindo-lhes riquezas e novidades que eu também lhes conto do meu... Esta opção é muito difícil, sobretudo quando tudo joga contra nós: os colegas, as mega-estruturas escolares (que descaracterizam...), as faltas de alento, as desmotivações, as insensibilidades e desconhecimentos de cada um, as opções também contrárias (e legítimas) dos outros...
Mas depois, sem esperar, na "tal" ondulação de indiferença, vai-se a uma outra reunião de Pais, de um outro filho, e ouve-se falar em poesia, ouve-se contar que se leu poesia com os meninos e que se falou sobre umas certas "palavras que nos beijam", ao mesmo tempo que se seguiu e bem, o curso normal da rotina, gerindo aprendizagens, conflitos, metas e currículos e de repente, apercebemo-nos que não estamos sozinhos, que não somos "exemplares únicos" e o coração fica um bocadinho mais cheio outra vez, de esperança e de... "palavras que se recusam ao muros do meu desgosto..."




"Há palavras que nos beijam
como se tivessem boca
palavras de amor, de esperança,
de imenso amor, de esperança louca

Palavras nuas que beijas
quando a noite perde o rosto
palavras que se recusam
aos muros do teu desgosto

De repente coloridas
entre palavras sem cor
esperadas, inesperadas
como a poesia ou o amor

Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte
ao silêncio dos amantes
abraçados contra a morte...

Alexandre O'Neill in, "No Reino da Dinamarca"

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

 
 
AMORES ASSIM
 
 
Num mundo que celebra e louva a desatenção, a corrida bárbara para lugar nenhum, eles souberam sempre cultivar essa atenção extrema - extremosa, extremista, radical, absoluta.
Porque tiveram a sorte de se encontrar cedo e de cedo compreender, para lá da química e da física (essencias, mas nunca suficientes), que pertenciam um ao outro - que podiam rever-se nos olhos um do outro como em espelhos límpidos.
Porque liam os mesmos livros e conversavam sobre eles, porque tinham os mesmos ideais e lutavam por eles, porque atravessaram tempestades e não se deixaram levar pela ventania, porque nunca amputaram os sonhos um do outro nem perderam de vista o sonho maior que queriam construir juntos, porque souberam ser a casa um do outro quando a vida os empurrou para longe da casa e do País que tinham...
 
UM AMOR ASSIM
(Jaime Nogueira Pinto, em homenagem à sua mulher, Maria José Nogueira Pinto, in, JORNAL SOL, 22/7/2011)
 
 
 
Não o conheço particularmente e penso que nem é uma figura muito regular da televisão, o que facilitaria o seu conhecimento, pelo menos visual. Sei que é uma figura conceituada das letras, já que é escritor, para além de professor universitário, investigador e empresário. Foi diretor do jornal O SÉCULO e está ligado à Fundação Luso-Africana para a cultura. Foi casado com Maria José Nogueira Pinto, essa figura sim, mais conhecida para mim, já que era uma figura de quem gostava, daqueles fenómenos empáticos que nem sempre sabemos explicar, gostava de a ouvir falar, admirava-lhe a determinação que aparentava ter, identificava-me com muitas das suas ideias quando as partilhava em programas de televisão, crónicas jornalísticas, ou artigos de opinião. Quanto a ele, quase tudo lhe desconhecia, para além de o ter ouvido na televisão uma, ou duas vezes. Eis senão quando, um dia, por acaso, ao ler o Jornal SOL e dias após a morte de Maria José Nogueira Pinto, leio um artigo de página inteira em que este homem, disserta sobre esta mulher e sobre o amor que sempre os uniu... Sabem aquela sensação de enamoramento imediato, de identificação, de cumplicidade, como se aquelas palavras traduzissem uma experiência não só já dele, mas nossa também? Foi o que senti ao ler o artigo! Gostei tanto, que recortei o pequenino excerto transcrito no início e guardo-o na minha agenda, com as devidas referências ao autor, claro, e guardo-o quase como se guardam aquelas relíquias em papel disto, ou daquilo, que todos temos, dobradinhas nas carteiras...
E então, uma figura mais ou menos pública, completamente desconhecida para mim, transformou-se em alguém que passei a admirar, especialmente nesta parte, relativa ao seu amor de todos os dias.... Nunca terei o arrojo de fazer uma declaração de amor tão pública, aqui, nas redes sociais, ou em qualquer outra via semi-partilhada por tanta gente. Sinto alguma timidez, que procuro preservar, quando se trata desta esfera da minha vida, como se fosse um reduto absolutamente sagrado e fechado "lá para fora", mas hoje, lembrei-me deste recortezinho de jornal que guardo com dedicação, quando um casal meu amigo, delicioso, um homem e uma mulher que conheço desde miúdos, que vi crescer, que acompanhei, ao longe, ao sabor da ternura (aquela que liga as pessoas), SE agradeceram mutuamente por existirem, utilizando uma rede social. Hoje, pelos vistos, é o dia do OBRIGADO e eu nem sabia... é engraçada a existência destes dias!!! Talvez tenham querido gritar ao mundo o seu amor, enfatizando aquilo que, de certeza, também dizem na intimidade... Eu agradeço-lhes por isso, por terem, hoje, servido de click "inspirador", por me rever nas suas palavras e tomá-las como espelho para mim, por me terem feito lembrar de um recortezinho de jornal que guardo comigo e que me faz também lembrar UM OUTRO AMOR ASSIM, aquele que guardo, como um tesouro!!! 


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

 
 
 
 SE EU FOSSE UM REI
 
O voltar à deliciosa rotina, como dizia no meu último post, é muito bom, mas de facto, nem sempre é linear o tempo que se leva a fazer isso, como se o voltar aos dias de todos os dias fosse um metabolismo, mais ou menos lento, que nos vai encaixando na tal normalidade de que falava. Então, isso fez com que tenha andado um pouco arredada aqui da blogosfera, não porque não tenha "assunto para escrever", como diz a canção, mas porque tenho sentido necessidade de "processar" toda a informação, de todos os dias, dos assuntos que surgem daqui e dali, sobre os quais quero escrever. Depois, a rotina situa-nos outra vez e as "compulsões" (mais ou menos assumidas), como é a escrita, vão ressurgindo!
 Poderia começar pelo último livro que li e que foi oferecido neste Natal à minha filha mais velha, pela avó materna, que teimosamente e às vezes contra ventos e marés lhes continua a oferecer livros e mais livros (ainda bem avó, ainda bem...). Uma noite, depois do beijinho de boa-noite que ainda regateam, apesar da "embirrenta" adolescência (ou "aborrescência", como dizia um amigo...), olhei de soslaio para o livro e comecei a folheá-lo... bem, foi de uma assentada e ainda estou "falando" com ele... Substituíu outras rotinas que tenho ao serão e, até tarde, acompanhando a respiração pausada do meu mais que tudo, deitado a meu lado, "devorei-o"!!! É o relato, contado pela própria autora (Liliana Segre), da sobrevivência atroz em Auschwitz, sítio para onde foi aos treze anos e onde ficou até à libertação pelas forças aliadas. Hei-de fazer um post sobre o efeito que o livro (minúsculo, pequenino, que se lê de uma assentada) teve em mim, talvez pelo interesse que tenho (como já referi em posts anteriores) pelo tema, mas sobretudo pela forma como a autora "processou toda a vivência que teve e como "saíu das cinzas" depois disso: o tempo que levou a fazê-lo, os suportes emocionais que hoje reconhece terem-lhe dado forças e discernimento para tal, a forma como passa aos outros essa mensagem! Fica prometida uma reflexão sobre este GRANDE pequeno livrinho e também a sua referência bibliográfica, já que não o tenho  agora aqui e não me lembro de cor de todos os dados!!!!
Poderia falar também da noção cada vez mais clara que vou tendo sobre a relação de alguns Pais com a escola e que, infelizmente, constato que vem sendo, lentamente, da maioria... uma relação quase sempre ausente, muito irregular, mas de extrema exigência; não uma exigência suportada num contacto regular, profícuo e de pares, mas uma relação quase unilateral em que se exige, exige, exige, muitas vezes sem conhecer, sem saber os contextos, as dificuldades, o mérito noutras coisas... isto vê-se em reuniões onde participo como mãe, sobretudo nessas e fico triste, muito triste! Penso que a capacidade de ainda sentir alguma tristeza será sinal que ainda não sou, ou estou indiferente, tento pensar assim...
Mas pronto, não vou falar em nada disto! Hoje, assim de repente, apetece-me falar de uma atividade que fiz com o  meu grupo e que é mais, ou menos comum em Jardim-de-Infância. A propósito do Dia de Reis, da exploração das tradições inerentes a esta festividade, das "consequências, ou "efeitos" nas nossas vidas enalteci hoje a imaginação, a criatividade, o jogo simbólico, como elementos potenciadores de fantasias, cenários inventados, mas onde está, sempre, um bocadinho de nós!!! "Se eu fosse um Rei (ou Raínha)? O que faria?
A par de todo o cenário estratégico que envolveu esta atividade e que seria extensivo expôr aqui e a par do jogo dramático que sempre acompanha este tipo de atividade e que nos ajuda tanto a sair da nossa "zona de conforto", foi uma chamada urgente ao IMAGINÁRIO, ao FAZ-DE-CONTA, ao SE... Aflige-me que para muitos meninos e meninas, esse jogo já vá sendo difícil, dificultando-lhes esta viagem à imaginação, levando-os a um mundo imaginário onde, às vezes, é tão bom ir, mesmo que seja aos bocadinhos de cada vez...
"SE EU FOSSE UM REI, mandava que todos pudessem, de vez em quando, imaginar outros mundos, outras cores, outros rostos... ou então, mandava que tudo ficasse como está, ao bel-prazer de cada um, porque SE EU FOSSE UM REI, ia ser um REI bom, com uma coroa brilhante e um castelo de sonhos!


 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013




 
 
NORMALIDADEZINHA GOSTOSA
 
É do senso comum pensar-se que a rotina acomoda as relações, as torna insipientes, sem graça, cinzentas, sem a candura do branco e/ou sem a negrura do preto, de uma cor intermédia, morninha, temperada. Este cinzentismo, não as fará inovar, surpreender, espantar-se com....
É geralmente tida (a rotina) como uma coisa sempre igual, maçadora, até, que nos faz ligar um "piloto automático" rápido e executor de coisas de olhos e sentidos fechados... os mesmos lugares, as mesmas coisas, as mesmas pessoas, os mesmos hábitos. De facto, a rotina pode ter um efeito altamente nefasto, se nos fizer fechar os póros a tudo o que é novo, ou se "entupir" a nossa intuição e não a deixar ser a "luz vermelha" de alarme que faz mudar as coisas, que nos alerta para o perigo, que nos obriga a agir. A rotina, pode ter muito de mau, é verdade, pode ser um perigoso caminho que, aliado aos anos, ao tempo que passa, ao desgaste próprio da idade, do trabalho, das preocupações, corrói, lentamente, como os genes de uma doença crónica e silenciosa! Corrói relações, amizades, projetos, desafios... como o tal gene silencioso, não olha ao destinatário e impede-o de ver os olhos dos outros que o rodeiam e às vezes, os seus próprios olhos também! É um caminho fácil e perigoso, mas não inevitável!
E hoje, aqui, apetece-me falar das coisas boas que a rotina tem e do bem que me soube hoje voltar a ela como se voltasse a uma "zona de conforto" conhecida e muito "cosy", confortável, aconchegante! Podia começar por enumerar os efeitos positivos que tem nas crianças pequeninas que, ao viverem numa rotina equilibrada de experiências, desafios e afetos, sentem segurança e se desenvolvem rapida e saudavelmente; poderia falar do bem que faz o repetir gestos e/ou atividades que fazem bem (desporto, passeios, descontração, etc); poderia por fim, até fazer alusão à segurança que se sente nesses gestos repetidos, fazendo-nos experimentar pequenas vitórias de lazer, saúde, ou trabalho e poderia, no fim disto tudo dizer apenas que a rotina é terapêutica! Se o desviarmo-nos dela por momentos, dias, ou semanas é bom, faz falta, retempera, o voltar a ela, é maravilhoso e foi isso que senti hoje: o ritmo biológico regula-se, as tarefas são situadas no tempo, os lugares e as pessoas voltam a ter um contexto, uma intencionalidade e aquela NORMALIDADEZINHA de todos os dias, faz-nos sentir felizes e vivos.
Calculo que isto seja próprio de pessoas que estão de bem com a vida, pois imagino que para quem não esteja tudo seja mais complicado e o regressar a uma rotina de todos os dias seja uma infelicidade, um voltar atrás a uma vida que não se quer, da qual não se gosta.... Pois, calculo que sim, que seja verdade, mas eu sinto-me bem com a minha vida, gosto dela, com todas as condicionantes que tem, mas com todas e todas as coisas boas que também tem e que são tantas! ESTAS COISAS, estão à mostra nos gestos de cada dia e se esta intuição não  me abandonar, poderei pintar ESTA VIDINHA DIÁRIA da cor que eu quiser, transformando a normalidade numa coisa gostosa!!!
 
 
 

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013



PEDACINHO DE CÉU

Hoje o dia seguiu numa suave pasmaceira, depois de um despertar lento e dormente, consequência de uma passagem de ano animada, com um grupo de amigos e folia, ao som de músicas dos anos 80 e 90, que puxam o pé e o corpo para a dança e animação... É engraçado o efeito que essas músicas têm em mim, fazendo-me imediatamente dançar e também lembrar outros tempos, outras danças, outras idades. Estivemos num jardim público, com centenas de outras pessoas, de todas as idades, géneros, tipos físicos e posturas, sózinhas, acompanhadas, deslumbradas, anestesiadas, ou, simplesmente, divertidas, como nós. Fizemo-nos acompanhar de toda a família, à semelhança de tantos outros que lá estavam, o que tornou tudo muito mais giro e cúmplice. Sei que não será sempre assim, sei que os programas diferirão com o tempo, mas ontem, assim foi, juntinhos, com tantos e tantos amigos que lá encontrámos, como se tivessemos tido todos a mesma ideia... Gostei muito, apesar da chuvinha, miudinha, irritante, que no fim (ainda bem que só aí) resolveu cair com força!!! Este pedacinho de noite fez-me ver que tudo o que contemos cá dentro, nas profundezas da nossa intimidade (coisas boas, más, alegres, ou tristes) se disfarçam tão bem, em momentos de feliz e simples diversão, assim só, sem mais nada. Ou porque ficam propositada e forçosamente esquecidas, ou porque o exterior é MAIOR que nós e "assalta-nos", não nos dando espaço para mais nada... como um analgésico às vezes enganador de sintomas... É como se aquele bocadinho de tempo nos tornasse a todos iguais, "chutando para canto", tudo o que virá amanhã e depois e depois e depois e que agora não apetece pensar, pois não cabe no momento...
Esta noite antecedeu a tal preguicite aguda que amanheceu com o dia de hoje, o tal, primeiríssimo, de um ano que agora  se inicia e pressagia todos os pessimismos, ou otimismos... Cá por mim, prefiro que sejam otimismos, daqueles grandes, confusos e pouco precisos, mas OTIMISMOS!!!
Nesta dormência preguiçosa, sentia quase uma culpa inconsciente e alheia a mim... é o primeiro dia do ano e só sinto pouco mais que nada? Hoje, teria a obrigação (quase moral) de mais? melhor? mais profundo? Ai Jesus, que a dormência se alastrava, como o tal analgésico potente e nada... nadinha!!!
Depois, como um raio de luz, veio o rever de um velho e grande amigo que me/nos transportou numa viagem pela eloquência da linguagem, gesto, afetos, perspicácia e educação.
Falando para uma assembleia grande e sendo EXTREMAMENTE perspicaz para captar dessa assembleia os sinais de atenção, ou dispersão (elementos essenciais para quem fala, como se não se falasse para si - como tantos - mas sim para os outros), este meu/nosso amigo enfatizava a importância da esperança, da educação e da paz. Foi muito interessante a forma como relacionou a educação com a paz. "Se formos educados, estaremos a fazer um pouco de paz"; "se formos atentos para o outro(a), estaremos a fazer pedacinhos de paz nas nossas áreas de influência" e depois, a importância que deu à cultura, à educação, como pilares ancestrais de raízes, entendimentos e explicações para a forma como vamos construindo o futuro, um pedaço todos os dias. É importante "beber" das raízes, voltar a elas, para nos explicarmos... totalmente! A importância da ESPERANÇA, como um túnel obrigatório que nos abre portas para um futuro que começa hoje!
Foi um pedacinho de céu este meu/nosso encontro. Acredito que este meu amigo seja veículo de transmissão de um Bem maior, de uma transcendência à qual, cada um, na sua mais legítima liberdade, poderá dar o nome que quiser, mas tenho a certeza que o otimismo, aquele que se quer, se apregoa, se defende, como remédio para males endógenos exteriores a nós, comece assim, nestas nuvens flutuantes que nos levam a estes pedacinhos de algodão, de onde saimos, sem nos apercebermos, muito mais fortes!

FELIZ ANO NOVO!
 

domingo, 30 de dezembro de 2012

 
 
 
 
MENINO BONITO
 
É um rapaz lindíssimo, moreno, com o cabelo muito escuro, encaracolado, um sorriso aberto e muito meigo, uns olhos amendoados também escuros e uma irreverência que, acho, lhe fica bem. É o retrato de um rapaz bonito, muito bonito, com qualquer coisa de maravilhosamente exótica, misturada com uma doçura de trato, à qual sou sempre sensível. É desportista, moderno, culto e responsável. A irreverência que o caracteriza é como todas as irreverências que, quando em doses certas, são atraentes, saborosas, dão um quê de exentricidade que sempre me encantou e que, acredito, encantará também a muitos outros. É uma irreverência que não o afastou de um percurso académico normal e meritório, sempre concluído em cada ciclo com distinção e facilidade, o que lhe foi abrindo portas, fazendo espreitar oportunidades que não caém do céu, surgem, muitas vezes devidas a muito trabalho e a uma competência que se adivinha desde cedo. Tudo isto, parceiro de alguma sorte, mas também da responsabilidade, cultivada desde cedo por seus Pais. Para eles também o mérito, muito mérito! Este mérito, fê-lo ter algumas experiências várias relativas à sua formação e trabalho, algumas delas fora do País, o que, sendo hoje cada vez mais comum, pela falta de oportunidades que existem cá, é sempre, acho, um passaporte para uma visão diferente do mundo, das coisas, das pessoas, das gentes, sabores, saberes, cheiros, calores, ares e tal e tal, que nos faz maiores, com olhos de gigante para perceber aquilo que não cabe cá, neste retângulo pequenino, que pode também tornar pequeninas as nossas visões... por isso é tão importante "ir para fora", ver, ouvir, saber outras coisas, oferecidas aos sentidos pelas idas, as físicas e aquelas que são também dadas pela leitura, por exemplo, que é uma VIAGEM encantadora onde podemos também embarcar, que nos leva para fora de nós... Mas, voltando ao "protagonista"... a paixão que mostra pela vida, materializou-se também através de alguém que conheceu numa das suas idas e vindas. A maravilha da sua juventude, fê-lo abraçar esse amor pequenino que foi crescendo, arriscando, tentando sobreviver à distância, às dificuldades, às diferenças culturais, ao tempo que ia passando... e ele arriscou.  Depois de algumas intempéries, decidiu e atravessou um oceano, indo atrás deste amor, propôs-lhe um projeto de vida, ofereceu-lhe um amor maior, aquele que ele próprio lhe poderia dar. E este amor, na sua total liberdade, recusou!
Esta história nada terá de extraordinário para todos e será igual a tantas outras que lemos nos livros, vemos nos filmes, mas quando ma contaram, fiquei embevecida por este rapaz que me diz tanto, e pela coragem e romantismo que teve ao ARRISCAR. A pessoa do amor deste rapaz, é-me completamente indiferente, não a conheço e não a julgo, pois terá as suas razões que, para ela, serão legítimas também. Calculo que nem ele próprio a julgue e sei que isto será uma aprendizagem muito válida, que o fortalecerá. Mas hoje, nesta reflexão quero centrar-me só no gesto que ele teve: risco, projeto, aposta, coragem, amor! Hoje, nesta reflexão, quero dizer-lhe que o que ele fez é digno de uma história de amor dos maiores e melhores escritores, ou guionistas, pois o amor será sempre intemporal e será sempre retrato das nossas vidas, tão banais, mas com tanto para refletir (já disse mil vezes que sou uma romântica!). Quero dizer-lhe que nunca se poderá prever tudo ao milímetro, todas as voltas, voltinhas, curvas e desvios que a vida sempre terá e que, por isso, se tem mesmo que arriscar, às vezes. E hoje, quero dizer-lhe também, na minha total liberdade, que acho que a pessoa do seu amor não o merece, pois o amor, aquele de que se está a falar aqui, exige risco (nem sempre com doses bem calculadas...), aposta, confiança e algum arrojo! Hoje quero dizer-lhe que tenho a certeza que a sua irreverência e romantismo sempre o irão acompanhar e caracterizar e que o completarão, como homem, numa vida de mérito e responsabilidade, mas será ao lado de alguém que feche os olhos, lhe dê a mão, respire fundo e o acompanhe, mesmo que com algum receio, mas com muita, muita confiança... lado a lado, como marcas deixadas na areia...
BOA SORTE, menino bonito que me diz tanto!!!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

 
 
 
 DOCE CLICHÉ
 
Todos os anos é a mesma coisa, é como se de um cliché se tratasse... uma ideía que se repete, as mesmas palavras de sempre, expressões que, de tão utilizadas e repetidas, quase se desgastam e se afastam do significado original... assim parece que se vive o Natal, aquele que nos circunda por todo o lado. Sinto sempre uma certa anestesia, nestes dias, sobretudo naqueles que o  antecedem. Aliados a esta "dormência", um certo nervoso miudinho e muita, muita falta de paciência (cada vez mais...) para tudo o que constela à volta da quadra: compras, correria, campanhas de boa-vontada, peditórios, etc, etc, etc. Ouve-se dizer (e penso que é um dado quase científico!) que a idade nos vai alterando. Céus, então devo mesmo estar a ficar velha, diferente... ou então, mais seletiva com o que realmente me importa, não sei! Sinto até um certo alívio quando tudo passa, quase como se o voltar à velha rotina de todos os dias, fosse um remédio certeiro para a normalidade da vida, que é tão boa, tão terapêutica, tão feliz!
Por outro lado, "feridas antigas" reecruscedem nesta quadra, exarcebando-se de tal forma que quase tomam conta de mim... uma saudade grande, grande de tesouros que já não tenho e que fizeram (e fazem!) parte da minha vida, da minha história, uma nostalgia que paira no ar à minha volta, enfim, uma atmosfera de "lágrima ao canto do olho", só interrompida pela agitação própria de três vendavais que vivem comigo e de um ombro enorme, quentinho e saboroso  que me acompanha e ampara quando fragilizo! Esta sensação de segurança contrabalança a outra, de alguma tristeza e olho vezes sem conta para um presépio pequenino que tenho na sala, feito com figuras de barro pintadas de cores alegres, com uma velinha acesa sempre ao centro e centro-me (tento, com força!) naquela simplicidade ali retratada e assimilo que essa deve ser a mensagem de todos os Natais... tão simples, tão fácil, tão feliz, tão gratuita...
E assim vivi estes dias: um pouco afastada da rotina e "pairando" por aqui...
E ao reler o que acabo de escrever, pergunto-me se não estarei a ser exigente demais... se calhar, a melhor maneira de serenar será aceitar tudo isto, sem procurar uma exuberância de sentir, que nem sempre se consegue ...sentir!
E assim, aceitando esta "resmunguice interior" e deixando de lutar contra ela, fico talvez preparada e não posso deixar de sorrir e de agradecer (muito, muito!) perante aqueles clichés tão verdadeiros e nada prejurativos: o passear na praia todos juntos, o tirar fotografias palermas sem sentido, o beber café nos mesmos sítios saborosos de sempre, o sentir daquele sol de Inverno delicioso e daquele ventinho, irmão da brisa, o acordar mais tarde com mais alguns de nós enroladinhos uns nos outros, tipo "salsicha em lata", o ver filmes antigos, ou novos no sofá da sala, o fazer e inventar receitas de Natal, o inalar de cheiros conhecidos, o acender a lareira, o andar de pantufas todo o dia, o ler livros pendentes, ou descobrir novos, o burburinho constante de uma casa sempre cheia de gente!
E aí, quando faço isto, parece que a mensagem feliz daquele presépio pequenino se agiganta e toma agora conta de mim, e pergunto, "cadê a lágrima teimosa?"
Um sorriso natalício para todos...
FELIZ NATAL!
 


quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

 
 
 
TRISTEZA FUNDA
 
 
Nesse ano tive um grupo muito giro, com crianças maioritariamente de quatro anos, mais pequeninas portanto, que o normal. Eram mais meninas que meninos e a maioria delas muito coquete, lembro-me bem. Muito extrovertidas, amiguinhas algumas desde a creche, "despachadas" e muito autónomas. ELA ERA UMA DELAS. Lembro-me em especial dela porque era mesmo das mais novinhas, já entrou tarde, tinha acabado de fazer quatro aninhos. Tinha o cabelo escuro, liso, cortado a direito com uma franjinha; usava sempre um ganchinho de cada lado e era muito feminina: trazia muitas vezes bandoletes diferentes, casaquinhos a condizer, era uma bonequinha. Fazia algumas birras, lembro-me que era das mais mimadas, talvez por ser das mais pequeninas do grupo e por nunca ter frequentado Jardim-de-Infância nenhum. Os Pais eram muito ocupados, mas presentes, preocupados. Apesar de não aparecerem muito por lá, (tinham um negócio por conta própria) mostravam-se presentes, faziam-se sentir e notar e eu simpatizava com eles. Eram práticos e dinâmicos. Ela tinha um irmão bebé que aparecia na cadeirinha, ou ao colo da mãe, sempre à pressa.  Esta menina ficou inscrita na minha memória, não por nada em particular, mas porque estava inserida num grupo que me disse muito, com o qual estive três anos, num Jardim-de-Infância e escola onde me senti sempre muito bem e onde conheci colegas para a vida! (lá está, a "variedade forçada" do meu percurso profissional, vai-me dando estes apontamentos de cor, como já tenho referido por aqui...)
Essas minhas voltas profissionais, levaram-me dali e perdi o contacto diário com estes meninos e meninas, embora, curiosamente, desses anos tenham ficado outras ligações consequentes extra vida profissional: a cabeleireira, a esteticista e outras pessoas desses tempos... que ficaram! Soube mais tarde, e já noutra escola que ELA tinha sido atropelada violentamente e que esteve em coma muito tempo. Lembro-me que na altura senti um choque,  - Meu Deus, que horror, coitadinha da miúda e dos Pais, mas que coisa, como foi? Esse choque, que adveio da brutalidade do que me contaram, foi no entanto filtrado pela distância a que estava... tinham passado alguns anos, lembrava-me perfeitamente dela e dos Pais, mas parecia-me despropositado ligar, dizer alguma coisa, parecia que a "lonjura" de tempo em que tinha estado com ela, me afastava de um propósito que poderia, noutras circunstâncias, parecer normal. E nunca telefonei... Ía sabendo dela por colegas dessa cidade (o mundo é tão pequenino!) e continuava a pensar muito, sobretudo, nos Pais, mas nunca telefonei! A mãe "passava-me" no pensamento, muito esporadicamente e acho que essa "passagem" era sempre de ternura, mas nunca parava muito para pensar nisso...
Hoje, sentada numa esplanada da minha cidade, vi passar a mãe, com o irmão, que já não é bebé e que já não vem na cadeirinha, ou ao colo. Reconheci-o logo, tem as mesmas bochechas gorduchas e a mãe, bonita e bem arranjada, olhou-me com um sorriso tão largo e espontâneo que soube instantaneamente ser verdadeiro! Desviou-se da sua rota e veio ao meu encontro. Abraçou-me e o "neurónio paralelo" do meu cérebro, ao mesmo tempo daquele abraço, pensou,  - que curioso, não a imaginara nunca tão efusiva, parecera-me sempre uma mãe relativamente distante!!! Sorria quando falava comigo e, mais ou menos 10 segundos depois da conversa ter começado, com aquelas frases de circunstância inevitáveis, do como está?, há tantos anos!!!, então?... escorreram-lhe duas grossas lágrimas daqueles olhos brilhantes, vindas do fundo de uma tristeza sem medida, assim que começou a falar DELA. Que sim, saíra há tempos de um coma prolongado, que sim, já vai falando, reconhece os mais chegados, às vezes parece que fala mesmo para percebermos o que quer dizer, mas o andar, Paula, esse está difícil, nunca mais será a mesma... Ao mesmo tempo que a ía ouvindo, apetecia-me perguntar-lhe como fora, em que fase está o processo do atropelamento, como aguentaram tudo isto, como reagia o irmão, como não percebia eu própria o porquê de nunca lhe ter ligado... mas não consegui... fixei-me nas outras e outras e outras lágrimas que lhe saíam, mas no sorriso ao mesmo tempo e fiquei esmagada quando me disse, do alto do seu coração de mãe que se lembravam muito dos meus tempos de Educadora da filha e que ELA gostava muito de mim. Esta mãe, do fundo da sua tristeza conseguiu dizer-me isto e eu ali, sem ela saber, prometi a mim mesma que nunca mais,  apesar das distâncias em tempo e em espaço, ficaria com alguma coisa para dizer!
É para ELA e seus Pais que me apetece GRITAR hoje, FELIZ NATAL e muito obrigado por me mostrarem que há gente tão corajosa, apesar da tristeza!


segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

 
 
NO FUNDO DA ÍRIS
 
Todos os anos é a mesma coisa nesta altura do ano: agitação por todo o lado, luzes, música de fundo nas ruas, gente de um lado para o outro, pressas, um frenesim interior que nos vai anestesiando, festinhas e festarolas em todo o sítio com a justificação do costume: é Natal, é Natal!... E assim se vai passando,sem darmos por isso, esta quadra! Depois, na televisão, os mesmos filmes e/ou séries do costume (ontem deu o "Sozinho em casa" outra vez, dá para acreditar?), as mesmas notícias, a mesmas reportagens sobre a Lapónia, os meninos e meninas que uma, ou outra Associação lá conseguem levar, as mesmas músicas de Natal nas rádios, as mesmas compilações de êxitos, ou pseudo-êxitos natalícios, o mesmo elencar de iniciativas de caridade, boa-vontade, altruísmo, ajuda aos sem abrigo, sem família, sem.... NADA!!!
Sempre me senti um pouco perdida com isto tudo! Sempre me fez confusão todo este agitar à minha volta, mas, paradoxalmente, nunca consegui fugir dele, afastar-me, ou rejeitá-lo. É como ser levada por uma corrente gigantesca, da qual me apercebo, mas contra a qual não posso (ou não consegui ainda...) lutar. É um barulho constante, constante e o barulho, às vezes, não deixa pensar...
Por estes dias, junto a tudo isto um olhar triste nas pessoas. Tenho parado em pequenos "flashes" para olhar para o ANÓNIMO ao meu lado, na rua, na fila do supermercado, nos cafés, nos semáforos, nas filas de trânsito e há qualquer pontinha de sombrio lá no fundo das íris! Aquela sensação de ambiente natalício contangiante de que falo nas primeiras linhas deste texto, é a mesma sensação viral que se sente nas pessoas. Parecem-me quase todas tristes! De facto, aquilo que se relata, aquilo que sabemos, ou que nos é dado a saber pelos media, aquilo que achamos que é vivido pelas pessoas como consequência destes tempos economicamente muito difíceis, será a pontinha minúscula de um iceberg de dificuldades que toda a gente, de uma maneira, ou de outra vai sentindo, por estes dias. Mesmo se olharmos para os "fundinhos" das íris todas, nunca poderemos saber a dimensão das dificuldades e sofrimentos de muitos que se viram/vêm sem emprego, sem nada do que tinham, que às vezes já era tão pouco...
Ninguém, de uma maneira ou de outra, poderá estar imune a isto! É um mal muito maior que nós, completamente alheio à nossa vontade ou poder de mudá-lo, é como se vivessemos todos num "espartilho" de forças que são apertadas por outros, que não nós...
Não sei como ultrapassar isto, ou como ignorar esta sensação de impotência que me/nos assola também de vez em quando, apesar de me esforçar por elencar os momentos felizes e de achar sempre que são muito mais que os outros; mas é verdade: esta "tristeza flutuante " anda no ar e contagia-me também, aos pedacinhos... E aí, mesmo sem saber muito bem o que fazer, porque a anestesia às vezes é geral e leva-se tempo a acordar, mesmo sem saber se irá resultar, mesmo estando eu própria a sentir um bocadinho da tristeza que vejo nos outros, apetece-me "mergulhar" para o fundinho dos olhos deles e dizer-lhes que ÍRIS também quer dizer "borboleta diurna que vive em choupos, ou salgueiros e cujo macho mostra, nas asas, reflexos de cor, ou pó aromático obtido de algumas plantas, ou conjuntos de faixas coloridas que circundam as imagens fornecidas pelas lentes, ou ainda, uma variedade de quartzo irisado, considerado pedra preciosa. E assim, fico um pedacinho menos triste, porque acredito que o vírus passará e as coisas boas continuarão a ser as maiores!


(Definições de Íris, retiradas de Dicionário de Língua Portuguesa, 5ª edição, PORTO EDITORA)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

BEATRIZ
 
O seu bisavô paterno terá sido um homem alto, loiro, muito culto, auto-didata e pai de uma família numerosa. Dizem-lhe as tias avós que era parecido com um ator de cinema... Provavelmente terá "bebido" desde cedo o espírito aventureiro dos pescadores, já que foi para além mar, muito pequenino, ao colo de sua mãe, fugindo com a família, de uma miséria sistémica no seu País. A sua bisavó paterna, doce menina, aos quinze anos, orfã de mãe e criada por uma irmã mais velha, também acabou de crescer num trópico quente, onde se fez mulher e onde conheceu o seu homem, marido e pai dos 7 filhos. Esta sua bisavó, conta-lhe a sua mãe, era muito calma, bem-disposta e divertida. Já viúva, vivia com uma das filhas, mas alternava as estadias mais ou menos prolongadas, na casa de cada um dos seus. Por isso, sua mãe a conheceu tão bem... já ela, a conheceu, mas era pouco mais de bebé quando a bisavó faleceu...
Do lado materno, tinha tido um bisavô alto, muito bonito, culto e bom orador. O nome "JOÃO", flutuou, depois dele, pelas gerações seguintes. Adorava ler e, sobretudo, conversar. Tinha estudado mais que os irmãos, talvez levado pela ânsia de um conhecimento que não lhes era dado como agora... Sua mãe diz-lhe que ele era conhecido na família por ter sempre assunto para conversar, por contar histórias da sua aldeia, por ser determinado e, às vezes, um bocadinho obstinado, levando-o a falar dos assuntos com muito ênfase, quase confundido com teimosia! Sabe que este bisavô minhoto, também nos trópicos, se perdeu   de amores por uma doce menina, algarvia, o que para sua mãe, sempre fora sinal de mistura importante de coisas, valores, energias, conhecimentos, costumes, todos eles misturados num calor de hemisfério sul, temperador e vibrante!
Do lado do seu pai, também bisavós lutadores, como quase todos dessa geração privada de tanto conforto e regalias como agora; gente que lutou contra condições de vida muito violentas, criando filhos e filhas com muito sacrifício, trabalho e, sobretudo, valores que queriam fazer perdurar. Gente que viveu sem uma liberdade de opinar, dizer, gritar, revoltar-se, negar-se a; mas que, mesmo assim soube dar valor à vida! Deste lado, recorda-se, ela própria, da doce "bisavó Xica", valorosa, crente e com uma lucidez desarmante, mesmo velhinha, velhinha...
Destes bisavós valorosos, resultaram os seus avós que tantas histórias têm para lhe contar e que, sendo tão diferentes entre si (do lado paterno e materno) a amam muito, lhe querem muito bem e a amparam, na ajuda que dão a seus Pais.  Seus avós, o elo da cadeia imediatamente anterior a seus Pais, serão sempre para ela, a linha de partida mais próxima e menos remota de uma rede de afetos tornada gente, pelos anos fora e tornada ainda mais próxima nas pessoas de seus Pais. Estes, terão tido a sorte de se conhecer cedo, partilhando uma fase da vida em que tudo parece explodir de alegria, crescendo juntos, afastando-se e tornando-se a unir sempre que o seu crescimento a isso os influenciava, mas acabando por ficar juntos, abraçando um projeto de vida e de amor que existe até hoje e que, acreditam, perdurará para sempre. Não é essa a base das histórias de amor?
A sua mãe, é uma romântica, tem da vida esta perceção adocicada, mas não se acha ingénua. Talvez esta doçura lhe dê uns olhos diferentes, só isso. Destes Pais que se amam, resultou ela própria e seus irmãos, rostos agora do amor  deste homem e desta mulher.
Dizem-lhe que o seu nome significa FELICIDADE (BEARE, aquela que traz felicidade...) e é assim, muito feliz que esta mãe hoje lhe fala, querendo dizer-lhe tudo isto, falando-lhe desta forma das suas raízes mais antigas, daquilo que caracterizou mais a fundo os seus progenitores e os outros antes deles, dizendo-lhe que hoje, que faz 15 aninhos e que, por isso, começa a deixar os olhos de menina e a ganhar uns de mulher, deverá sempre ter consciência daquilo que a antecedeu, de quem é, assumindo tudo o que herdou dos seus, mesmo aquilo que se herda e não se vê, pois a sua mãe (e seu pai também) acreditam que essas heranças serão sempre as mais importantes! É como se, ao falar-lhe assim, a ajudasse a perceber todos os genes que a compõem, nesse mosaico genético que nos torna tão ricos.
A FELICIDADE que o seu nome traduz é a maior prenda que seus PAIS lhe querem dar, sempre, sempre, mostrando-lhe o caminho, compondo-lhe as pedrinhas à sua passagem, mas acreditando muito que o conseguirá fazer sózinha, quase, quase a partir de agora...!
Parabéns, filhota!!!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

 
 
 
FRONTALIDADE, PRECISA-SE...
 
Dizer as coisas "olhos nos olhos", nem sempre é fácil, sobretudo se temos ao nosso dispor milhares de formas de comunicar virtualmente, sem vermos o recetor da mensagem, ou pelo menos, sem o vermos de forma palpável, próxima. Esta distância pelo meio facilita-nos muito a vida porque nos dá um dispêndio de energia preguiçoso e egoísta, controlado só por nós, transformando-nos nos únicos agentes controladores do tempo que se leva a dizer o que se quer, o sítio onde se diz, o que se diz, o destaque dado a isto, ou àquilo. 
Por outro lado, não existe, genericamente falando, de forma completamente assumida por todos como prioridade e valor a explorar, a "cultura da frontalidade", ou porque temos o cuidado (às vezes excessivo!) de sermos consensuais, ou porque não queremos ferir suscetibilidades alheias, ou porque é mais fácil, ou porque "logo se vê o que dá", ou porque não queremos denunciar a "fonte", ou porque "amanhã já lhe passou", ou até porque "me terá passado a mim, quem sabe?"... e os assuntos passam, são ultrapassados por uma vida que não pára e por uma rotina de tempo que corre ao nosso lado, anestesiando-nos e fazendo-nos adiar, muitas vezes, o que deveria ser urgente e quase inadiável! E os assuntos, no dia seguinte, na semana e mês e anos seguintes já não são urgentes, já não são prioritários, alguns até já não são significativos. E este fomento da frontalidade, que nos faria crescer um pouco, quem sabe, perdeu a sua oportunidade! Isto aplica-se a todas as esferas da nossa vida: relações inter-pessoais mais ou menos próximas, amorosas, profissionais, informais, familiares, ETC, ETC, ETC.
Como fugir a esta rotina "centrifugadora", que é a vida que levamos, é quase impossível (porque somos pessoas normais, integradas numa vida normal de todos os dias, com cores e cheiros, ritmos e pressas próprios...), há que priorizar isto, criando momentos, predisposições, intenções de... sermos frontais, transparentes e verdadeiros! ASSERTIVAMENTE, SE POSSÍVEL...
Às vezes penso nisto! Não só porque já fui confrontada com a irreversibilidade da ausência de pessoas muito, muito queridas e importantes para mim, uma irreversibilidade dolorosa, porque definitiva, transformada numa ausência forçada (não sei como seria se tivesse a certeza de ter ficado, para com essas pessoas, com coisas por dizer...); como também porque tenho filhos em idades que exigem de mim, como mãe, atuações constantes, vigilâncias apertadas, na retaguarda, "achegas" frequentes relativas às suas formas de sentir (ainda bem que tenho um PAR à altura para esta vitalícia e dura e desafiante e constante e árdua e deliciosa tarefa de educar...). Com os meus filhos, tento sempre que não caiam na tentação de se escudarem atrás do virtual, tão comum e tão inevitável... tento que falem "olhos nos olhos", que enfrentem os problemas, que sejam frontais, que não fujam de realidades nem sempre sorridentes. Não sei se irão seguir o meu/nosso conselho, mas tenho a certeza de que este é o caminho... mais duro, mas mais certo! No fim, sei que se sentirão melhor!
 
 
 


domingo, 9 de dezembro de 2012


 
     OREJA DE VAN GOGH , "JUEVES"
 
 
 
"Olhaste-me e o teu SORRISO prendeu-me..."
 
Hoje, uma das minhas filhas mostrou-me, entusiasmada, um pequeno vídeo do Youtube com uma canção de um grupo espanhol totalmente desconhecido para mim (Oreja de Van Gogh), música essa que é uma homenagem a todas as pessoas que morreram no atentado da estação de metro de ATOCHA, em Março de 2004, em Madrid. A música é bonita, entra facilmente no ouvido, mas foi sobretudo o pequeno vídeo que me chamou a atenção. Nesta história de pouco mais de três minutos são relatados encontros entre pessoas totalmente desconhecidas entre si, cujos olhares se cruzam naquele instante! O olhar... a importância deste "pequeno grande" pormenor... associado a ele, o sorriso, outro "pequeno muito grande"...... (acredito que o mundo será sempre dos "pequeninos"!)
É inevitável dar-me para falar agora sobre isto, sobretudo se associar às emoções rápidas que este pequeno vídeo me fez sentir, a constatação de que um atentado terrorista é assim, violento, inesperado, devastador e sobretudo, imparcial, atingindo o mais comum dos mortais, interrompendo histórias de vida que existem, ou que estão a começar, com uma violência inqualificável! A minha filha dizia-me: -"Ai mãe, só me imaginava ali, já viste?" Também eu, filhota, também eu me transpus para aquelas carruagens e/ou para aquelas plataformas de acesso e vi que, de facto, tudo aquilo acontece, pode acontecer... a normalidade de todos os dias (..."de lunes a viernes"...), as rotinas que nos anestesiam, mas depois, o inesperado daquelas pequenas grandes histórias de amor entre duas pessoas que podem começar assim, por um olhar, por um toque fortuito, por um acaso. Quando isso acontece, o tempo pára, a vida muda, como diz a canção (ponham no Youtube a versão com "lyrics" para irem acompanhando a história que é contada, cantando...), o acaso faz-se história, até que é interrompido pelo inesperado brutal que tudo destrói!
Essa imprevisibilidade da vida, esta rapidez com que ela pode mudar, esta NOSSA pequenez face àquilo que não podemos controlar, faz-me pensar na importância do SORRISO e do OLHAR. Nunca serão demais, nunca os acharei vãos, nunca verão o seu encanto genuíno substituído por mil palavras.... essas, leva-as o vento, mas se forem precedidas, ou acompanhadas por um sorriso, até parece que vemos a alma, lá ao fundo.
Há sorrisos falsos? Há olhares duvidosos? Certamente que sim... Mas se um sorriso faz conquistar o mundo e "saltar" um muro gigante? SEM DÚVIDA; e se um olhar faz ver um pedacinho da alma? Também acredito...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

 
 
 
GENERATION GAP
 
Quando me imaginava com filhos (sempre quis ter três!), gostava de pensar que iria ser uma mãe jovem, moderna, "desempoeirada" e muito amiga deles... (imagino que transportamos sempre para os filhos, os modelos que tivemos com os Pais e eu assim fazia). Imaginava ter com eles, quando adolescentes, uma relação de confiança, como aquela que sempre tive com meus Pais, utilizando a mesa do jantar para pôr a conversa em dia, os assuntos em discussão, os consensos a atingir, num clima de confiança e responsabilidade que, não estando isento de conflitos salutares, me/nos permitia fazer muitas coisas, mas também me/nos dava a responsabilidade de sermos dignos da confiança que meus Pais sempre depositaram em nós. Era um "dar e receber", ao mesmo tempo. E eles "pediam-nos contas" da responsabilidade que nos davam e eu, tentei sempre não falhar! Nem sempre consegui, mas hoje, adulta, considero que no essencial não falhei mesmo! Tive as rebeldias próprias de qualquer adolescente normal e, costumo dizer, ainda bem, já que é natural que assim seja, é salutar, faz crescer, ponderar, equacionar, questionar-se, zangar-se com o instituído, e isso é importante ser feito, ser vivido. Nunca gostei de adolescentes/jovens, excessivamente "certinhos", pois acho que não é bom. Esta "generation gap" sempre existiu e deve continuar a existir sempre, é da natureza humana.
 Nunca fomos (EU, OS MEUS IRMÃOS E TANTOS AMIGOS COM QUEM PARTILHEI ESTA FASE DA MINHA VIDA... ALGUNS, AMIGOS ATÉ HOJE!) adolescentes/jovens "amorfos", sem vontade própria, centrados em atividades paradas, sem dinâmica. A minha adolescência e juventude foram recheadas de experiências juvenis, encontros, partilhas, acontecimentos com gente de muitos sítios, o que me aumentava o leque de conhecimentos, amizades, trocas de afeto. Era importante, esta dinâmica! Os movimentos juvenis ligados à juventude, como o Escutismo, por exemplo, sempre fizeram parte da minha vida, mostrando-me um cenário muito grande de experimentação e vivenciação de tudo o que aprendia em casa e na escola.
Não tinhamos um acesso à informação tão rápido (à distância de um click) como os miúdos têm agora, não tínhamos tantas atividades extra-escolares, não tínhamos tantas hipóteses de nos mexermos tão pouco, não comíamos tanto (acho eu!), não "falávamos" virtualmente, mas "olhos nos olhos", não tínhamos telemóveis que nos tentassem a afastarmo-nos das conversas "ao vivo", enfim, não tínhamos uma série de coisas que os meus filhos têm agora e que assumem como um dado adquirido, um direito inegável e que às vezes, não deve ser visto assim... estes direitos devem ser ganhos, conquistados e isso era-nos ensinado! Os meus Pais eram a referência absoluta, exercendo para connosco, uma autoridade dinâmica, consertada, discutida, mas efetiva, não se demitindo daquilo em que acreditavam e do que determinavam... era quase como que se fosse uma "democracia q.b"; o limite estava sempre muito bem definido e isso, à posteriori, considero que foi essencial para o meu/nosso equilíbrio. Os limites bem estabelecidos dão segurança e isso vê-se logo desde pequeninos!
De tudo isto me lembrei hoje, ao ouvir, casualmente, num transporte público, a conversa entre três adolescentes, provavelmente da idade das minhas filhas mais velhas: uma relatava a discussão que tinha tido com a mãe, referindo-se a esta com termos que até me custa reproduzir aqui, relatando que se zangara e ameaçara que saíria de casa se a mãe não a autorizasse a isto, ou àquilo, seguindo com o relato das respostas desesperadas da mãe, medrosa perante as reações da filha, com medo do que pudesse fazer. Os amigos que a acompanhavam riam e valorizavam, com valentia "balofa", a atitude da primeira, que sim, os Pais são uns "cotas", dando a esta palavra um sentido altamente prejurativo (e não aquele até ternurento que se usa às vezes), pelo que me fui apercebendo da conversa; continuavam incentivando-a a sair de casa, que sim, os "Pais tinham que aprender, o que é que pensam, não nos podemos rebaixar". A linguagem utilizada por todos era bastante vernácula, até, como se isso fosse sinal de "estatuto".
Ainda bem que as minhas filhas se "zangam" connosco, às vezes, ainda bem que têm amuos e rebeldias que considero salutares e que às vezes, confesso, até me fazem rever-me nelas quando tinha a sua idade, ainda bem que não concordam com tudo, será sinal que contestam, que argumentam, que equacionam, ainda bem que não nos contam tudo, já que nesta idade, a "mãe e o pai nunca serão os melhores amigos"; mas ainda bem também, penso, que não me demiti nunca do meu papel e responsabilidade e que, sobretudo, não prescindo daquilo que será sempre o mais importante nas relações inter-pessoais (também nas de Pais e filhos...): o respeito. Esse, no final de tudo, deverá imperar sempre. E no futuro, acredito que serei aquela mãe das primeiras linhas deste texto.